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Imperfeições - Léo Rosa de Andrade

João de Deus, crentes, leniência das autoridades

Publicado em 17/12/2018 00h10

Lembro de sentir uma logo reprimida dose de humor tétrico quando, há algum tempo, li que um ônibus lotado de devotos, retornando de um culto qualquer, sofreu acidente, rumando por uma pirambeira e fazendo grande número de mortos. Foi-me impossível conter: Deus dirige reto por estradas tortas.

Com respeito às dores dos que perderam entes queridos, seja no ônibus, seja, agora, na igreja de Campinas, ocorreu-me: “Seja feita a vossa vontade”. Claro, o que agora escrevo pode ser insultuoso. Mas, já não basta? Esses pequenos, mas eloquentes Terremotos de Lisboa, parece, não alcançam a crendice popular.

Como o “senhor” pode ser conivente com essa mortandade? E como as pessoas se conformam? Bem, se servos não indagam da vontade do amo, o mesmo não vale para a relação entre João Teixeira de Faria, vulgo João de Deus, e as autoridades competentes para intervir no seu sistema de manipulação de incautos.

A notícia dá indício de crime contra a economia popular: “João de Deus retirou R$ 35 milhões de contas bancárias após primeiras denúncias, dizem investigadores” (Patrik Camporez, O Globo, 15dez18). Mas, crimes à parte, o espanta são duas condutas, uma, a dos crentes em João, duas, a das autoridades.

Sobre os crentes, por que vão até tal sujeito? Não refiro os escandalizados atos sexuais, que, salvo vício de vontade de qualquer natureza, eram consentidos. Indago o que leva pessoas com um mínimo de discernimento a procurar um médium? O que esperam? Que desespero as move?

Depoimento de psicóloga, 38 anos, de Brasília (Diário Catarinense, 14dez18): “Entendo perfeitamente quem foi abusada por ele sexualmente. No meu ceticismo, consegui me livrar”. Narra fatos e compreensões suas e, então, reflete: “Você se sente uma idiota, uma imbecil. Como acreditou na lábia dele”?

A psicóloga se espanta consigo: “Sou uma pessoa formada, instruída, e caí nessa”. Somos condescendentes conosco. Não penso que alguém “cai” nessa.  As pessoas vão em ato de servidão voluntária e se “jogam” nessa. Fazem-no tocadas de crença no impossível. Superstição barata.

Sabe-se que o “atendimento” ocorre há quase meio século. Há muito tempo, portanto, a crendice demanda tratamentos espirituais. Contudo, não obstante relatos anteriores de abuso sexual, somente quando o assunto foi ventilado pela Rede Globo de Televisão passou a ser tomado consequentemente.

Um programa denominado Conversa Com Bial (07dez18), substitui-se às autoridades competentes e ouve mulheres. Levou ao ar narrativas de fatos que fizeram com que promotores das áreas criminal e da defesa da mulher, por todo o Brasil, passassem a ouvir e colher depoimentos de vítimas.

Segundo matéria do Estadão (09dez18), que refere O Globo, em relatos mulheres “alegam que foram molestadas em consultas feitas entre 2014 e o início deste ano. Em um espaço particular, a portas trancadas, teriam sido obrigadas a praticar atos sexuais e teriam o corpo tocado por João de Deus”.

O motivo alegado por João, mas também, segundo tudo o que leio, buscado pelas vítimas era “uma limpeza espiritual”, além de curas, sucesso etc. O que me assombra, repito, é as pessoas acreditarem em “limpeza espiritual”, confiarem que um médium (antes, claro, creem em médium) pode curar.

E botam fé, igualmente, no poder da malignidade: Zahira Leeneke Maus: “Eu tinha medo de eles me mandarem espíritos ruins. Eu estava com muito medo. Agora me sinto protegida e sinto que a verdade tem que vir à tona” (Estadão, 09dez18). Que tipo de mentalidade é “forçada,” de verdade, por “espíritos ruins”?

Conforme a delegada Marcella Orçai a PC de Goiás recebe denúncias contra o médium há 10 anos. “Já foi investigado em procedimentos entre 2008 e 2011 pela Polícia Civil, que foram concluídos e encaminhados ao Judiciário, mas que não geraram condenação. Desde 2016, a polícia já investiga, com inquérito em aberto”.

A delegada esclarece que o Ministério Público abriu um procedimento específico para o fechamento da casa onde o médium atende o público (DC, 12dez18). Então, minha indagação às autoridades: Por que não se buscou o fechamento da “casa” desde logo, dado que lá se praticava evidentemente charlatanismo?

Justiça decreta prisão de João de Deus. “Promotores entendem que podem ser configurados três crimes a partir dos relatos: violação sexual mediante fraude; estupro, caracterizado por qualquer ato libidinoso, mediante violência ou grave ameaça, e estupro de vulnerável, o mais grave” (Natália Cancian, FSP, 15dez18).

Justiça tarda e falha. Impostores exploram a credulidade alheia, agenciam interesses com o sobrenatural, “salvam”, curam, praticam crime em público, em programas de televisão. Havendo crentes dispostos a sustentá-los e leniência das autoridades, os charlatães vão continuar. É bom negócio. Por que não?


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