Se vivo ainda fosse, na próxima segunda-feira, 13 de setembro, nosso saudoso pintor tubaronense Willy Alfredo Zumblick estaria completando 97 anos.
Suas mais de cinco mil telas representam o mais abrangente e valioso acervo da geografia física e humana catarinense das últimas oito décadas, abordando temas como o transporte em lombo de burro, na serra do Rio do Rastro (coleção particular do historiador Walter Fernando Piazza), e a procissão da Bandeira do Divino (Casa d’Agronômica).
Vítima do teor químico das tintas, Zumblick foi obrigado a parar de pintar por problemas respiratórios, depois de 70 anos ininterruptos dedicados à sua arte, vindo a falecer em abril de 2008.

Sua vida e obra estão muito bem retratadas num livro, editado pela Unisul, de autoria das pesquisadoras Lelia Pereira da Silva Nunes e Ruth Vieira Nunes. Além de reproduções fotográficas de 25 das suas principais obras, as autoras reúnem 14 histórias contadas, com fino humor e veracidade, pelo próprio mestre da Cidade Azul.
Durante meus dois mandatos de governador, tive o privilégio de, no gabinete de trabalho da Casa d’Agronômica, contemplar, a toda hora, uma das mais belas telas históricas de Willy Zumblick. Nela, nosso mais longevo artista plástico retratou, com rara fidelidade, a heróica travessia, por terra, dos barcos Seival e Farroupilha, conduzidos, sobre enormes carretas, por Giuseppe Garibaldi quando fugia do cerco que as tropas imperiais estabeleceram na embocadura da Barra do Rio Grande.

A saída da Lagoa dos Patos estava bloqueada por forte dispositivo militar, e Garibaldi – baseado no exemplo de seus compatriotas venezianos, que, em 1439, empreenderam idêntica façanha, conduzindo 30 navios sobre rodas de Revoredo a Torbole – fez penoso transporte terrestre de seus lanchões, desde aquela Lagoa, na foz do rio Capivari, até a barra do Tramandaí. Caminhando cerca de 80 quilômetros num terreno de areia mole e lodaçais, Garibaldi escreveu uma epopeia semelhante à de Ulysses, relatada por Homero, na Odisséia.

Com impressionante veracidade, Zumblick reproduziu toda essa saga com seus pincéis de mestre. A tela, pintada em 1952, exalta o heroísmo da travessia na fisionomia extenuada das juntas de bois puxando os dois carretões e na inesgotável força física dos caboclos, conduzindo, aos berros, os animais. As ondas do mar, batendo nas carretas, o céu cinzento e trovejante, os cavalos resfolegando, o movimento, ao mesmo tempo tenso e entusiástico, dos cavaleiros, nenhum detalhe deixou de ser registrado pelo talentoso artista tubaronense.

Esse poder de síntese, esse apego aos detalhes, essa capacidade de abranger todo o conjunto do tema vem da vocação atávica de relojoeiro e de ótico. Do relojoeiro, herdou a capacidade invulgar de celebrar os mínimos detalhes; do ótico, a de enxergar melhor e mais longe.

Segunda-feira, o mundo pranteia os 418 anos da morte do ensaísta francês Michel De Montaigne. Um dos milhares de ensinamentos espargidos no seu magistral Ensaios, define com exatidão o que foi a vida de Willy Zumblick: “A utilidade da vida não está na sua extensão, mas no seu uso”.
Pois ele teve a ventura de tê-la não apenas extensa, mas também intensa e prolífica. Sua obra e sua arte fizeram de sua vida uma obra de arte.