Imaginemos esta cidade florida, com perfume capaz até de aromatizar o rio, nulificando o bodum das fezes e de outras sujeiras impelidas ao leito pelos impertinentes agressores da natureza. Seria outra cidade e sua beleza atrairia olhares de longe, principalmente dos que a sobrevoam pelos três viadutos agressivos, encravados na morbidez dos acessos, como se Tubá-Nharô fosse um deserto sem sequer merecer uma olhada.
 
Mas o que faz Tubarão para justificar pelo menos uma espiada lá do alto dos elevados?
 
Estamos na primavera e o verde que cobre o rio e que acanha jardins surgidos no relento do desmazelo é feio, tedioso, e só ajuda a angustiar, ainda mais, uma cidade de cara suave que tem os contornos para se tornar bela e acolhedora.
A cidade, contudo, limita-se ao frenesi circunstancial, à ansiedade da sua gente de fazer e de se transformar, como se o amanhã já estivesse na data de ontem. Tubá-Nharô seria bucólico para seu povo se desacelerar e exibir uma qualidade, de gente rindo, brincando, correndo e querendo conversar. Como diz o escritor escocês Carl Honoré, o ser tubaronense precisa se reconectar com a sua tartaruga interior para viver. Isto não quer dizer que a cidade não se desenvolva. Claro que não se trata disso! A cidade cresce de forma sustentável, sem comprometer a qualidade de vida. A tartaruga interior dá a qualidade para se ver e sentir a cidade.
 
Para isso, é essencial vestir a cidade de cores naturais. As flores precisam tomar conta de cantos e recantos, dos canteiros e casas e até do último andar daqueles prédios que sombreiam a cidade e que de dentro deles pessoas não ousam olhar Tubá-Nharô. 
 
Recentemente, em viagem de Criciúma, acabei percebendo apenas em Imbituba que já havia atravessado Tubarão sobre os três viadutos que o ocultam, o mascaram. Melancólico! Por que a cidade se deixa esconder debaixo de concreto, de onde os acelerados motoristas e passageiros não enxergam sequer a identidade de uma cidade que já foi sinônimo de alegria? Ou será que nem a memória traz lembranças dos anos 60, quando Tubá-Nharô atraía inclusive florianopolitanos para suas noites culturais e de bons restaurantes?
 
Tubá-Nharô precisa animar-se, perfurmar-se, alegrar-se. Seus acessos têm que rapidamente refletir harmonia, singularidade, cativando os alucinados da BR-101, motivando-os a conhecê-la. Os gestores públicos e de entidades de classe podem se unir, convocar a sociedade a levantar a autoestima da cidade e apostar numa virada capaz de todos respirarem fundo e reverberar a frase eloquente: “esta é a cidade que queremos”. 
 
Não é difícil embelezar a cidade. Inútil seria esperar por verbas estaduais ou federais para realizar uma grande obra que exige mais ideias e criatividade do que dinheiro. Até em mutirão a população se animaria a pavimentar calçadas, florir ruas, pintar suas casas. Quem sabe a avenida ganhasse iluminação, as margens do rio um calçadão? Por que não maquiar o triste cenário de roupas maltrapilhas que escondem suas águas? Bastaria barbear o verde maltrapilho e tornar limpa a cara do rio. Bobagem dizer que agrediria a natureza! A natureza por si é bela, mas a que esconde o rio é fantasmagórica. 
 
A cidade precisa fazer ecoar o grito do seu cacique Tubá-Nharô. O grito da liberdade, do fazer crescer a beleza, o sorriso e a paixão por Tubarão.