O governo federal vem anunciando mudanças no vestibular. Pelas falas oficiais, será um Enem melhorado: mais raciocínio, mais conteúdos, menos decoreba e menos logística (o aluno pode concorrer, com a mesma nota, a cinco cursos da própria universidade ou não). Na verdade, esta mudança já vem tarde, e o objetivo, que é a melhoria do ensino, pode não ser alcançado se outras mudanças não ocorrerem.

O antigo e atual vestibular está adequado a um modo de produção e de gestão da economia que não existe mais. Faz parte do período anterior à terceira revolução Industrial, quando a habilidade de executar tarefas repetitivas era suficiente. A escola dava conta do recado, exigindo que o aluno memorizasse informações para serem repetidas, quando solicitadas pelo professor. Tal dinâmica constitui(ía) a essência das avaliações, legitimadas e influenciadas pelo vestibular. Os conteúdos, neste modelo, eram (ou continuam sendo) apresentados como se fossem neutros, “prontos e acabados”, reduzidos, na maioria das vezes, a regras e algoritmos sem significado, ou datas e fatos sem contexto. A metodologia era ilustrativa, induzindo o aluno à memorização. Não que esta não seja necessária, mas precisa ser precedida da compreensão.

No entanto, com o advento da informática, da robótica, da biotecnologia e da desmaterialização, as habilidades exigidas (aprender a aprender, a pensar, a planejar, a criar, a comunicar, a conviver e a ser), alteram radicalmente: 1) a forma de apresentação dos conteúdos (problematizados, historicizados e com significado); 2) a metodologia de ensino (investigativa); e 3) a avaliação (compreensão e discernimento dos fatos e a percepção de suas relações, a aplicabilidade dos conhecimentos, as atitudes e os valores e a capacidade de análise e de síntese).

Mudar o vestibular é importante, pois diminuem os custos para o aluno e porque “cobra”, consequentemente, motivando os futuros universitários a adquirirem as habilidades que este momento histórico exige. No entanto, como se advertiu acima, não basta mudar a exigência (raciocínio), é preciso oferecer os meios para atendê-la. Faz-se necessário, dessa forma, por questão de coerência (não é moral ‘cobrar’ o que não se trabalhou em sala de aula) e por necessidade (nossos alunos são os piores nos rankings internacionais), aprofundar e resgatar a totalidade dos conteúdos e a forma de apresentá-los. O que implica, necessariamente, complementação da formação do professor.