Antes que a BR-101 seja concluída, rompendo agressivamente áreas urbanas, conclamo Tubarão a se proteger contra a invasão bárbara, de investidores gananciosos, exibindo cifrões nos olhos, de vampiros com adereços de sem-terras e de aves de arribação trazendo projetos espalhafatosos debaixo das asas.
Nos dois dias semanais em que vivo nesta terra, fico a bisbilhotar, na tentativa de diagnosticar os sintomas de deterioração do tecido social. E me entristecem as sucessivas notícias sobre a violência desencadeada por traficantes e consumidores de drogas. Inicia-se, em velocidade espantosa, a banalização de crimes, matando-se por quantias de dinheiro que não pagam um par de sapatos. E, no entanto, roubam vidas de valores incomensuráveis.

Tubarão, infelizmente, não foge à tendência das cidades brasileiras já desumanizadas, mais pela omissão do poder público. Contudo, há tempo suficiente para se combaterem as causas da enfermidade, de forma a preservar o espírito humano da cidade. Deve-se antecipar à necessidade de se erguerem muros de proteção, com a competência governamental na preparação das novas gerações para o exercício da cidadania com dignidade e ética. Da mesma forma, o governo não pode vacilar no exercício da sua autoridade, exigindo maior eficiência de órgãos federais e estaduais, na construção e preservação de uma sociedade sadia.

Bolsões de pobreza são os mais eficazes sinalizadores da degeneração social. E, no entanto, na maioria das cidades que convivem com esse cenário, criam-se muros invisíveis entre a pobreza e classes privilegiadas, num verdadeiro apartheid. A sociedade arma-se contra a pobreza, como se ela fosse a razão da violência.
Tubarão não pode assumir esse equívoco, sob pena de alimentar o apartheid. O processo de humanização de uma cidade implica, necessariamente, a eliminação rápida do menor foco de pobreza, proporcionando dignidade às famílias, ensejando-lhes condições para uma convivência social imune a preconceitos.

Sob esta ótica, a cidade pode sobreviver à epidemia nacional do empobrecimento vertiginoso das áreas urbanas, desde que a prefeitura eleja como prioridades investimentos nas atuais e futuras gerações, sem esquecer, é claro, das gerações envelhecidas, que só querem sentir o espírito humano da cidade. Sentar-se à beira do rio degustando um café matinal ou vespertino seria uma deliciosa alternativa, se o pobre Tubarão não estivesse agonizando, com suas águas poluídas e malcheirosas.