A simples constatação do fato da globalização faz adivinhar um continente de problemas e desafios que ela traz à teologia e à pastoral para o presente e o futuro. Nessa linha, algumas reflexões:
A globalização da informação, da notícia, de elementos culturais, torna acessíveis às pessoas, visibiliza-lhes as mais variadas formas religiosas.

Oferece-lhes a possibilidade maior da sincretização da fé, ao permitir-lhes compor elementos avulsos, e até mesmo contraditórios, de religiões diversas numa religião própria, sem preocupação com sua sistematicidade. A oferta de ritos, símbolos, mitos, doutrinas, fora de seus contextos maiores históricos e sistêmicos, favorece a recomposição e a seleção a partir dos interesses do fiel, sem interferência reguladora da instituição de onde eles provieram.

Acrescente-se que se vive sob o império da ideologia do prazer, da felicidade apenas como bem-estar, do mero gosto. E ela torna-se o critério seletivo das formas religiosas. Criam-se religiões do mero consolo, do gozo fácil, da felicidade ilusória, como solução imediata dos problemas materiais, psíquicos, espirituais e éticos.

Recoloca-se teologicamente, em novas bases, tanto a questão do sincretismo como a do diálogo inter-religioso, ao tornar o fato da pluralidade das religiões mais visível. Como entender o fato das diversas religiões no único projeto revelador e salvador de Deus?

A globalização cultural plastifica diante dos olhos aquilo que a filosofia moderna vem repetindo em meios acadêmicos sobre o relativismo da verdade e dos valores éticos. A antropologia de Lévi-Strauss envereda-se pelo conhecimento e “respeito” de todas as culturas investigadas, por mais longínquas geográfica e culturalmente que estejam de nós, para mostrar uma natureza humana cujas concretizações históricas são equivalentes. Rejeita-se qualquer critério que permita distinguir qualitativa e valorativamente uma cultura da outra. No universo religioso, reina o adágio: “todas as religiões são igualmente verdadeiras”.

O hábito do zapping – o saltitar de canal em canal – diante de inúmeros canais de TV facilita um zapping religioso pelos canais das religiões. A freqüência a shoppings cria os mesmos hábitos seletivos. Selecionar produtos e confeccionar os próprios kits tornou-se costume de vida. E então se projeta facilmente tal maneira de viver ao mundo das religiões.

Em nível mais profundo, os questionamentos feitos afetam a compreensão da fé cristã, diferentemente de outras religiões que mais dificilmente se deixam interrogar. E por quê? Muitas religiões autodefinem-se por sua tradição. Esta deve ser mantida literalmente. As novidades passam ao lado. A atualidade, a contemporaneidade não fazem parte da religião. Antes, são normatizadas por ela. E conseguem-no por causa de sua simplicidade de ritos e doutrina. O exemplo mais claro é a religião muçulmana.

O cristianismo, porém, é uma religião histórica e, por isso mesmo, hermenêutica. A interpretação pertence à sua própria natureza. Nasce interpretando o Antigo Testamento. Continua sendo interpretado pelos padres gregos para dentro da cultura reinante. Padres latinos o inserem na cultura romana. Santo Tomás introduz Aristóteles no interior do pensar da fé. E esse processo continua até o dia de hoje.

A pós-modernidade acelera o processo interpretativo. A velocidade, a riqueza, a sucessão substitutiva de conhecimentos obrigam a reflexão teológica a um esforço hermenêutico único e a pastoral a uma contínua reformulação de suas práticas.