Conforme vimos atrás, a criação de uma nova identidade associativa municipal pressupõe um motivo, ou um quadro de argumentos, suficientemente forte para iniciar um processo que, além do mais, seria portador de alguma turbulência. Sobretudo, em pleno processo de integração, suscitado pela iniciativa Prosperidade Sul Catarinense. Uma vez entendido o sentido de oportunidade do movimento desses 11 municípios face à atual conjuntura, vamos aprofundar a questão do pertencimento à serra ou ao pé da serra, tentando encontrar uma identidade que justifique semelhante partição.

Podemos começar logo pela capital do estado. Florianópolis, São José e Palhoça encontram-se no pé da Serra Geral, ali mesmo com a serra do Tabuleiro. Nos demais municípios da Grande Florianópolis, suas serranias descem até ao Atlântico; portanto, já são serra e, também, pé da serra. O mesmo acontece com Paulo Lopes, Garopaba e Imbituba. Laguna também se encontra no pé da serra: logo ali, depois de Imaruí, às margens da lagoa, já começam as encostas da serra, continuando, com mais ou menos altitude por São Martinho, Santa Rosa, Rio Fortuna. Capivari e Tubarão, Jaguaruna e Içara, também podem considerar-se pé da serra. Se essa afirmação for verdadeira, então, Criciúma, Morro da Fumaça, Sangão também o são. Na realidade, em todos esses lugares, a gente sente-se e encontra-se, efetivamente, no pé da serra e, consoante a perspectiva, em plena serra catarinense. E a Amesc, logo ali depois de Içara e Criciúma, do mesmo modo.

Se haveria interesse em discutir, com especialistas da área, se o pé da serra poderá ou não ser considerado ambiente serrano, mais interessante ainda seria saber o que os municípios da Amures – Associação dos Municípios da Região Serrana – teriam a dizer sobre o projeto de associação que, segundo foi divulgado, se chamaria de Amusc, ou Associação de Municípios da Serra Catarinense, os quais, em sentido estrito, não se encontram no alto, mas no pé da serra. Com efeito, a Amures poderia colocar a seguinte pergunta: – Afinal, quantas serras e quantos pés da serra existem na região sul de SC? Provavelmente, tantos quantos se quiser imaginar, mas um só verdadeiro: em Santa Catarina, o litoral já começa serrano; logo, todo ele pode ser considerado ou serra ou pé da serra.

Se mobilizar os municípios do litoral catarinense até as divisas com o Paraná e o Rio Grande para uma mega-associação encampando as encostas da Serra Geral dentro de SC seria algo utópico, já numa lógica de geocentro da Amurel e Amrec, nada impede, em vez de elas fragmentarem-se, que façam exatamente o contrário: cultivar essa identidade e aprimorar sua integração. Na verdade, os municípios das duas associações compartilham a mesma identidade cultural e a similaridade das origens étnicas, nos panos de fundo indígena e europeu, nos hábitos e nas crenças, nos usos, costumes, tradições. E aspirações.

O que aparece verdadeiramente necessário, histórico, no momento atual para o sul catarinense, não é criar uma nova associação de municípios e reforçar o individualismo das lideranças locais: é reforçar essa identidade com base nas associações tradicionais, que também deverão aprimorar sua gestão interna no sentido de se tornarem mais inclusivas, mais dialogantes, elevando todos os municípios a um mesmo padrão, sem um ou mais “primus inter pares”. Se é possível e acessível criar sinergias multiplicadoras de prosperidade com a diversidade existente, por que e para que, então, fragmentar mais? Veremos na última parte deste artigo (na edição de amanhã) porque isso não deveria acontecer.