O menino do Barro Branco olhou profundamente nos meus olhos. Fiquei intrigado com sua insistência em mirar-me intensamente. Era um olhar triste, melancólico. Ele tinha um semblante sofrido. De quem tem a alma doída pela maldade da vida que o vitimara. Logo percebi que era um pedido de socorro. Ele estava perdido naquele isolamento quase que completo. Não tinha perspectiva nem esperança. Para onde iria quando tudo se consumasse? Quando acabasse o carvão, o barro tivesse sido dissipado e não existisse qualquer branco em volta de sua existência?

Na verdade, todos somos vítimas de um mundo que não nos permite conhecermos a essência uns dos outros; nem sequer sabemos o que fazer para auxiliar no desenvolvimento de cada pessoa que passa por nossa vida.
Os minutos passavam rapidamente. Estava amedrontado. Não podia me envolver com os problemas daquele menino. Eu não o tiraria daquela realidade. Não resolveria suas dificuldades. Nunca mais o veria. Para que me preocupar? Comecei a olhar através da janela a serra imponente que despontava ao longe. Vislumbrei a mim mesmo diante daquela imensa construção rochosa.

Viver é se impregnar dessa visão. Cada pessoa é uma rocha aparentemente inexorável. Ela estará sempre ali, firme e altiva. Não importa quem somos ou o quanto vivamos, ela permanecerá. A diferença entre uns e outros é o como passam por ela. Desbravar uma pessoa é como escalar uma formação rochosa. Muitos, quando viram a serra, desistiram, voltaram atrás. No entanto, outros se desafiaram e permitiram a si mesmos a oportunidade de maravilharem-se com a visão do alto e sentirem-se fortes.

O menino continuava ali. Era uma pequena rocha. Olhei mais atentamente para ele e vi que estava sujo. Percebi que também estava com medo. Tremia muito, mas não era um tremor de frio. Era aquele tremor que sentimos quando sabemos que não teremos saída. Que mais cedo ou mais tarde alguém descobrirá. Então, será tarde demais para mudar qualquer coisa. Mas era preciso que algo ali fosse feito. Alguém precisava agir. Interromper o silêncio que é conivente com a injustiça e a exclusão.

Um silêncio que só apresenta culpados, mas não aponta solução. Eu repetia baixinho: “Coragem, coragem, coragem,…”, tentando motivar-me a fazer algo. Mas decidi não fazer nada. O problema era dele. Eu estava de passagem. Os outros que ali ficariam poderiam o ajudar. Eu jamais poderia interferir. Foi quando, num golpe final de covardia, levantei-me e disse que precisava sair.

No pátio, já aliviado em ter me livrado da situação, avistei uma viatura policial. Um homem falava ao rádio enquanto outro permanecia à porta da direção, gesticulando com alguém. Após alguns instantes, a diretora saiu aflita e seguiu rumo à sala onde eu estivera. Abriu a porta e pediu pelo menino Alberto. Para mim, não foi surpresa.

Era o menino de olhos tristes. A viatura partiu e desapareceu em meio à neblina serrada daquela manhã tristonha. Era um pesadelo ter certeza do quanto somos mesquinhos e insensíveis diante dos problemas alheios. Não me interessava saber que aquele menino era vítima de abusos sexuais do próprio pai. Muito menos compreender que naquela manhã, num instinto de defesa, num grito de liberdade, deu-lhe um golpe de faca certeiro. O monstro ficara caído, esvaindo em sangue no paiol aos fundos do casebre. Naquele dia, nem sequer pegara o ônibus. Andou quilômetros a pé como se quisesse partir para um caminho sem volta. Mas decidiu enfrentar a realidade e foi à escola, na esperança que um anjo aparecesse e o ajudasse a encontrar uma saída. Mas esse anjo não apareceu. O que estivera diante dele foi um simples mortal que convive diariamente com seus demônios.