A confusão existente entre a política, a justiça e a religião é um fenômeno social importante e não pode passar despercebido. Em diversas ocasiões, ao longo da história, esse conflito ficou evidente e teve consequências trágicas. Ainda, na conjuntura atual, observamos nações insistirem nesse amálgama pernicioso. A constatação é desoladora. Direitos humanos e individuais são violados em nome de dogmas, lendas e crenças fundamentalistas, desarrazoadas e irracionais. O estado laico é uma conquista indiscutível das sociedades democráticas. Buscar inverter esses valores é desestruturar o estado de direito instituído pela constituição e alicerçado pelo caráter republicano do estado brasileiro. Lamentável, portanto, a crescente intromissão dos líderes religiosos nas discussões políticas e judiciais ora em questão. 
 
O STF deve estar acima de qualquer paixão acalentadora da defesa dos princípios norteadores da fé. Cabe-lhe julgar os fatos. A distorção dos fatos com o intuito de transfigurá-los em valores religiosos é algo totalmente aviltante no que tange o comportamento ético indispensável a um julgamento verdadeiramente imparcial. Principalmente porque as decisões da corte interferem na vida de toda a sociedade, incluindo crédulos e incrédulos. Assim, insistir na imposição baseada na doutrina dogmática não difere muito da catequese dominadora ou da inquisição. Da mesma forma, que soa descabido justiça e parlamento arbitrarem questões internas das denominações religiosas, muitas das quais absurdas, é inaceitável embutir nas leis preceitos amparados tão somente nas convicções espirituais. Isso sim abre precedentes nocivos às decisões políticas e judiciais no Brasil.
 
As religiões parecem buscar reverter suas incapacidades persuasivas na força da lei ou da determinação judicial. Afinal, se eficientes fossem na doutrinação de seus fiéis, a discussão sobre o aborto, por exemplo, se tornaria inócua. Uma vez convicto dos preceitos norteadores da fé professada, havendo ou não lei, o indivíduo seria imbuído a respeitar sua crença e, portanto, não praticar um gesto tão condenável pela quase totalidade das religiões. Mas, sabedores do descrédito de suas argumentações teológicas, querem na imposição fazer valer seus preciosismos doutrinários. Esquecem-se do fundamento basilar de suas convicções místicas: só à divindade cabe o papel de julgar os pecados de homens e mulheres. Aliás, qualquer denominação religiosa faz clara distinção entre a justiça terrena e o julgamento divino. Objetivar transformá-los na mesma coisa é fanatismo.
 
Milhões de reais são gastos todos os anos nessa cruzada da fé contra o aborto ou contra os direitos LGBT. Dinheiro jogado ao vento, pois insistem numa tecla afônica. Melhor aproveitados seriam tais recursos se destinados aos inúmeros projetos já existentes de combate a fome e à pobreza, mantido pelas próprias religiões. Isso sim significaria defender a vida. O resto é pura retórica a serviço do ego e da intolerância.