Um homem olhava introspectivamente o belo rio que passava por sua aldeia. Parecia pessoa ao escrever os versos imortais de sua poesia ao enaltecer o tejo. Acompanhava o suave remanso das águas tordadas que irrigavam a vida de sua gente. Queria, no seu íntimo, acompanhar o destino daquela trajetória incerta. Quem sabe embalar seu sonho na correnteza de existência.

O sol rompia o horizonte, aquecendo os ossos frágeis daquele ser reflexivo. Coloria a caudalosa vertente, difundindo imagens difusas, diluídas na confusão de ideias que se passavam na mente do observador. Como uma corrente de energia, a força do astro rei revitalizava as esperanças do pobre homem, as quais, outrora, parecia esvaírem-se nas águas do rio. Lentamente, o semblante concentrado no leito ergueu-se para a imensidão do céu, como que avistasse uma resposta.

As palavras faziam-se desnecessárias. Entendia, inconscientemente, o propósito de estar ali, mesmo possuindo uma vivência resumida a sua comunidade e aos seus afazeres da sobrevivência. Talvez sua limitação intelectual não o permitisse reconhecer a vida como uma trajetória infinita, semelhante ao percurso do seu rio, que, ao confluir com outro rio, redimensiona sua existência. Ele tornara-se um lago estanque, sentenciado a se fechar em seus próprios limites, aguardando que a chuva revigore sua vitalidade.

Assim, repleto de confiança no seu “fazer-viver”, jogou as reflexões nas águas para que ficassem perdidas na imensidão do nada. Afinal, de nada adianta querer saber qual o fim do rio que passa pela aldeia. Melhor acreditar que a razão de ser daquele leito é alimentar a sua gente e que nisso se resume a vida: alimentar outras vidas e continuar vivendo. Foi então que percebera por que Efigênia, sua amada companheira, decidiu jogar-se naquela corrente. Para ela, não foi possível continuar assim, vivendo tão simplesmente. Precisou mergulhar nesse profundo questionamento que atormenta o viver. O rio, ao mesmo tempo, tornara-se bênção e maldição, na medida em que sustenta a vida, mas incita a interrogação. Em alguns momentos, sentiu vontade de fazer o mesmo. Porém, preferiu lançar ao rio sua consciência, e voltou a viver somente.