Muitas vezes, tendemos a olhar o mundo de hoje com um arrepio na espinha, com certo horror, um sentimento de calamidade. Tendemos a olhar para este mundo com o ar fóbico que em geral dirigimos para aquilo que não conhecemos. E de que se trata este nosso novo mundo? É o da queda dos ideais, das autoridades, das garantias. É o mundo das experiências, das múltiplas possibilidades; é o da fugacidade das verdades, dos valores e também das sensações e das escolhas. O que ontem era, hoje já não é mais.

Sim, são os fatos: os ideais estão em absoluta decadência; não se acredita mais na autoridade; as certezas são muito provisórias. Estes elementos eram até então aqueles que subsidiaram a educação de crianças e jovens: os ideais, a convicção e a fé na autoridade. No lugar disto que se foi, vemos crescer no solo de nosso tempo, junto com o desprezo à autoridade, uma voracidade enlouquecedora por experimentar o mundo.

Isto é o que nos deixa fóbicos diante deste novo tempo. Fóbicos diante do fato que nossos filhos crescem neste novo tempo em que os objetos de consumo estão no topo da importância em nossas vidas. Estes objetos que são sempre obsoletos, ultrapassados, e que fazem com que vivamos muito mais na expectativa da nova experiência prometida, do que a que se pode sentir diante do que temos. Sim, o celular, o carro, a roupa que ainda não se tem são sempre melhores, mais adequados. Sim, a droga que se experimenta na primeira vez, quando repetida, não traz mais a mesma sensação, é preciso aumentar a dose.

O mundo em que vivemos é este, não é nenhum outro. O que passou ficou para trás. Se vivermos na nostalgia de outros tempos, ou se quisermos a todo o custo restaurar a antiga ordem, os antigos ideais, no mínimo, ficaremos ainda mais distantes destes que nascem e que crescem neste mundo de hoje, neste mundo das sensações, das experiências e dos objetos.

Podemos nos perguntar (e é justamente poder fazer isto que pode nos salvar do que nos horroriza nos tempos atuais): como vamos viver neste novo mundo? Como vamos conduzir nossas vidas entre estes imperativos das sensações, das experiências e dos objetos? Temos algumas opções. Sempre as temos. Podemos querer abocanhar o mundo inteiro até que explodamos de tantas informações, comida, drogas, novas formas de se viver, sempre na esperança de uma próxima experiência que nos tire da tão humana insatisfação.

Ou podemos olhar a beleza do mundo e valorizar a sensação das experiências que temos, sem a ilusão de que outros mais e mais objetos nos darão alguma garantia de plenitude; podemos nos entusiasmar com o que temos nas mãos, com os objetos que nos cercam, com os outros que nos cercam se não deixarmos nos enganar pela fugacidade do consumo e das experiências. Olhar a beleza do mundo também é ter relação com as sensações, com as experiências e com os objetos, só que de forma que nos permita viver mais tranquilamente, aproveitando, de fato, melhor a vida.