O prefeito de uma determinada cidade tinha um sonho muito audacioso para colocar em prática em seu município. Sonhava construir um bondinho que levasse as pessoas ao morro mais alto da cidade, transformando o passeio num atrativo turístico e privilegiando os seus munícipes com tal grandiosa obra, visto que o local é muito bonito e oferece visão magnífica do lugar. O chefe do executivo mostrava-se um sujeito de visão, e costumava saber, antes de executar qualquer empreendimento, quais as possibilidades técnicas de concretizar as suas ideias. Em cada novo planejamento, reunia-se com uma comissão de engenheiros, e, quando eles apresentavam dados de inviabilidade de alguma obra, acatava a decisão e desistia do projeto. Isso para ele sempre foi a forma mais correta de trabalhar.

Nos anos 60, quando o prefeito nasceu, os médicos descobriram que tinha um sério problema de audição, tendo sua qualidade de vida comprometida. Atualmente, somente consegue ouvir claramente usando um aparelho auditivo. Com o desenvolvimento da tecnologia digital e um design bastante avançado, ele usa um objeto minúsculo colocado no fundo do canal auditivo, e quase ninguém sabe do seu problema. Graças ao aparelho, ouve de forma clara e cristalina, como se não tivesse nenhuma deficiência.

Em busca do sonho em construir um bondinho na sua cidade, viajou para a capital do estado, onde se reuniu com os engenheiros que outrora haviam subido o morro para avaliar o local. Na sala de reuniões, tudo transcorria normalmente durante as apresentações pessoais, porém, quando os engenheiros começaram a falar a respeito da obra, o aparelho auditivo começou a apresentar sinais de que iria pifar. Entre idas e vindas, o som desapareceu completamente de seus ouvidos. Escutava apenas um forte zumbido que persistia em atazanar seu cérebro.

Incomodado com aquela situação, mas acanhado com o imprevisto, fingia ouvir tudo que os técnicos falavam e, balançando a cabeça de forma positiva, tentava demonstrar entendimento sobre o que estava sendo verbalizado. Mergulhado que estava em seus pensamentos e vendo apenas um balbuciar de bocas que não emitiam vozes, tudo parecia certo que seu sonho seria realizado. No entanto, o que eles tentavam explicar para o surdo de ocasião, é que seu sonho era inviável, visto a dificuldade de se trabalhar no pico daquela montanha (argumento fraco e pessimista). Feitas todas as considerações a respeito da obra, deram um parecer negativo, aliás, mais que negativo – impossível.

Ao perceber que a reunião havia terminado, o prefeito apenas estendeu o polegar de forma positiva. Sem ouvir o que foi colocado e movido pela força de seu desejo, concluiu que tudo tinha dado certo. Em seguida, saiu mortificado pela porta a fora sem ao menos levar o parecer escrito que os engenheiros elaboraram para lhe entregar. Queria apenas voltar para sua cidade e consertar o aparelho que lhe devolveria o sentido perdido.

Alguns dias depois, estava novamente com os cinco sentidos afinados. Sentado em seu gabinete e matutando com suas ideias, sentia cheiro de boas novas ao tatear o desenho que ele mesmo havia feito do bondinho. Olhava como águia para o papel e sentia fome em realizar aquela obra. “E sem saber que era impossível, ele foi lá e fez” (Jean Cocteau).
E foi assim que o prefeito daquela cidade realizou a sua maior obra. Deixando de ouvir, mesmo que sem querer, a opinião dos pessimistas.