Iniciar uma carreira profissional é sempre desafiadora e trabalhosa. Iniciar longe de casa em cidade distante e sem experiência exige do ser humano muita força de vontade e persistência. 
 
Foi assim que aconteceu comigo, professora das séries iniciais, 27 anos atrás. Comecei a lecionar em Armazém, com os concursos de remoção lutei para chegar (o meu trabalho) mais próximo de casa e poder almoçar com minha família.
 
Passei vários anos saindo ao nascer do sol e retornando quando ele já se punha. Na caminhada profissional, encontramos anjos que nos ajudam a vencer. Lembro-me de uma merendeira que aquecia uma xícara de água nos dias de inverno, pois às 7 horas meu ônibus chegava na escola e, então, podia tomar um gole de café antes de iniciar a aula. E assim passei da escola de Armazém para Laguna depois, Capivari de Baixo e finalmente para a Escola Francelino Mendes em Tubarão, onde consegui trabalhar próximo de minha família. Em 1996, fui surpreendida com a municipalização das escolas isoladas e reunidas em Tubarão. Tive que, por imposição, largar minha escola e novamente achar outra que tivesse vaga, pois a escola passou a pertencer ao município, mas os funcionários não.
 
A luta antes vencida ressurgia e novamente saí em busca de uma escola que me aceitasse, quase mendigando uma vaga. Então, volta à questão da distância, ônibus, bicicleta, a longa caminhada. A difícil tarefa de educar, entrelaçada com a desvalorização da profissão de professor, gera um desgaste emocional que absorve a saúde do corpo e da mente.
 
O descaso com a profissão pelos órgãos públicos nos pressiona a ter que defender nossos direitos e deixa-nos ainda mais desestimulados e desgastados. Por fim, consegui ficar trabalhando não tão perto, mas numa distancia ainda suportável. E agora, ao final de carreira, já com a saúde deficiente, surge novamente o terror da municipalização do ensino fundamental e roubam-me a tão conquistada tranquilidade e me propõem recomeçar por uma trilha a que custei percorrer e me fez sofrer. Em contrapartida, quem se importa? Onde ficam os laços com os alunos e a comunidade? De que vale superar nossos limites em prol da competência e da educação?
 
Já disse isso em uma recente audiência pública sobre essa municipalização e volto a dizer. “Tratam-nos não como pessoas, e sim como coisas”.