Em uma festa, em Tubarão, um “bacharel” formado no período da ditadura (educação superior com ênfase técnica) destacava-se pela capacidade de dizer bobagens, entre erros grosseiros de gramática. Lá pelas tantas, ele disse que não sabia qual a utilidade de se estudar disciplinas “humanísticas” (as disciplinas técnicas seriam “desumanas”?!) no ensino médio e na universidade.

“Ao menos serviria para melhorar a qualidade dos diálogos em algumas festas”, respondi, citando “Ofélia”, aquela que abria a boca somente para dizer bobagens.
Falta alguma coisa na formação daqueles engenheiros, médicos, jornalistas, dentistas, empresários, políticos profissionais, advogados que não lêem, nem gostam de ler, para consumo próprio, sociologia, filosofia, história, ética, psicologia, ciência política, línguas, literatura. Uma coisa é ter pouco tempo para ler, outra é nem querer.

Tais disciplinas, repito, servem ao menos para tornar estudantes (e profissionais) mais apresentáveis em público, superando a síndrome de Ofélia. Felizmente, hoje, a capacidade de interpretar o contexto do trabalho é tão valorizada quanto a de executar tarefas técnicas previstas e imprevistas.
Nas escolas e universidades hodiernas, o estudo sério de questões humanas e sociais não é um opcional, como um enfeite, mas exigência indispensável, por razões, sobretudo, de utilidade pública.

Dentre os seis candidatos ao executivo tubaronense (prefeitos e vices), dois são médicos. Lecionei sociologia (da saúde) durante vários anos no curso de medicina da Unisul, campus Tubarão. A medicina não é um curso técnico, mas uma profissão humanista. No Brasil, há vários profissionais da área da saúde que transitam entre a medicina e a política (social e partidária).

Namorei uma dentista paulista (entre 1989-90) que se lamentava porque não havia material no posto de saúde do bairro pobre onde ela atendia. Depois que se lamentou três vezes, sugeri que fosse reclamar também junto à secretaria da saúde de seu município. Passados alguns meses, de tanto lutar pelos direitos de seus pacientes, com seus pacientes, ela já era uma das pessoas mais envolvidas em política na sua cidade.

A luta por melhores condições de trabalho em ambulatórios e postos de saúde, sobretudo nos bairros mais pobres, está contida na boa medicina. Dela depende a saúde do povo. A medicina não é praticada somente dentro de consultórios, para ganhar dinheiro, mas, também, fora deles, para tornar a sociedade melhor. O objetivo da medicina é a qualidade de vida (saúde) para todos os seres humanos (e para o ser humano todo).

Dr. Arary Cardoso Bittencourt, pediatra renomado pelos seus méritos de médico e cidadão, disse-me que fez várias campanhas em escolas e igrejas para diminuir a mortalidade infantil, num período bem difícil da história da nossa cidade. “Não dava para ficar esperando no consultório”, explicou. Ele fez boa medicina. E fez boa política (social). Médico bom é o que trata não somente o paciente, mas, também, o ambiente onde vive o paciente (sociedade), pois as doenças têm origem, sobretudo, nas sociedades e não nos pacientes.

Se levarmos para a política os procedimentos metodológicos da medicina – descrição de doenças (sociais) e prescrição de tratamentos – ajudaremos a política a ser mais eficaz, pois a medicina, ao contrário da política, não pára na descrição dos problemas. A objetividade metodológica da medicina (descritiva e prescritiva), temperada pela paixão humanista pela res (coisa) pública, pode ser usada com êxito também como ferramenta sócio-política eficaz e não apenas como ferramenta técnico-profissional. A sociedade pode obter vantagens com médicos-políticos, desde que eles não troquem – como políticos – a boa metodologia da medicina pela “fraseologia” insana da politicagem.