Uma centena de artigos já foi publicada sobre o assunto. A dúvida, na maioria das teses, refere-se ao fato de Judas ser mesmo um traidor ou vítima de um processo premeditado. Em que pesem os preceitos religiosos judaico-cristãos, duas contradições se apresentam: se Judas de fato era um traidor, como pode ter sido escolhido apóstolo? Agora, se Judas foi instrumento de um arranjo celestial, onde fica o livre arbítrio? A resposta a qualquer uma das questões, desapegando-se de fundamentalismos dogmáticos, pode nos remeter ao entendimento do caráter humano da existência de Jesus. Refletir sobre a saga de Judas é refletir sobre a difícil necessidade eminentemente humana, e, portanto falha, de julgarmos o que é certo ou errado dentro de padrões morais discutíveis. 

 
A primeira hipótese coloca em xeque a santidade do colegiado constituído por Cristo se levarmos em conta os atributos da divindade a partir do dogma da santíssima trindade. Um dos princípios basilares da fé católica, o apostolado presume a inquestionável retidão moral dos postulantes à condição canônica. Deus, na sua onisciência, possuía plenas condições de prever a incapacidade ética de Judas à causa ora defendida pelo Messias. Aliás, cabe questionar: a suposta traição de Judas foi o mais grave dos crimes? Renegar a crença como fez Pedro não seria uma traição tão aviltante quanto à de Escariotes? A falta de convicção e fé foi marca constante dos escolhidos. Sendo assim, por que só Judas foi penalizado?
 
A retórica religiosa defende o argumento do crescimento espiritual a ser perseguido pelos eleitos. Mas nesse ínterim paira a pergunta: qual foi a oportunidade de regeneração oferecida ao suposto traidor? 
 
A segunda hipótese nos remete ao desígnio inevitável do plano celestial. O Nazareno seria imolado para resgatar os pecados da humanidade. O julgamento e a cruz seriam indispensáveis para a concretização do pacto de Deus com o seu povo escolhido, segundo o Velho Testamento. Porém, faz-se necessária nova indagação: o sacrifício de Judas também era tão imprescindível ao plano de expiação? A julgar pelas contradições nas narrativas dos quatro evangelhos e do livro de Atos quando versam de como se deram a traição e a morte do acusado, não teriam os escritores apenas buscado ajustar o comportamento de Judas às profecias? Acrescenta-se a isso o fato de que o Salvador teve o direito de escolha.
 
Veio ao mundo ciente das agruras pelas quais passaria, segundo os princípios cristãos. E, tratando-se de algo premeditado, não foi dado a Judas o mesmo tratamento, tornando assim os seus infortúnios algo um tanto perverso. Não soa sensato a um Deus justo e amoroso usar as fragilidades de um homem despreparado para a retidão do plano divino como instrumento do calvário de Jesus. O que inferir então?
 
A Páscoa, mais do que celebrar, é momento de reflexão. A visão romantizada do Cristo descrita no Novo Testamento nos leva a construir uma imagem de perfeição livresca e distante do real. Eram homens imperfeitos e, consequentemente, falíveis. Fazendo um trocadilho, a narrativa tirou Judas para Cristo. Na verdade, a discutível traição e o suposto enforcamento serviram para expiar a culpa coletiva de omissão e renegação que os contemporâneos de Jesus encontraram, aliviando suas consciências. Contrariando o mestre, julgaram para evitar julgarem-se a si mesmos. Assim nessa Páscoa, antes de malhar o Judas, seja ele quem for, reconsideremos. Oportunizemos a reconciliação sem apontar culpados para simplesmente aliviar os fardos das culpas que carregamos.