No momento em que o corpo chegava à capela mortuária, Zé Inocêncio já estava entre os familiares e amigos do falecido. Zé morava há alguns anos num pequeno barraco do lado leste da margem do rio que divide sua cidade. Abandonado pelos parentes, Inocêncio tinha duas alegrias na vida: estar na companhia de um cão de rua que lhe seguia há anos; e escutar a rádio AM local que comunicava as notas de falecimento pela manhã. Todos os dias, antes do alvorecer, um som estridente ecoava diretamente nos ouvidos daqueles que caminhavam pelas ruas, e todos sabiam que se tratava do radinho de Zé, propagando as noticias fúnebres em primeira mão. Assim foi sua rotina durante 30 anos. Ao saber qual capela o eventual “presunto” do dia seria velado, partia para o local do evento. Com sandálias de dedo e o inseparável rádio a pilhas debaixo do braço, transitava entre os consanguíneos do extinto, angariando informações.
 
– Qual o nome do falecido? – questionou Inocêncio para um senhor, num desses velórios que compareceu.
– É Alberto. Ou era.  Não sei muito bem como referir-me a um cadáver.
– Morreu do quê?
– Infarto fulminante, logo depois de receber o primeiro pagamento da aposentadoria. Dizem as más línguas que foi decepção com os valores na folha.
 
Naquela rotina diária de vigília aos defuntos, tornou-se tarimbado em eventos fúnebres, e demonstrava profunda tristeza a cada novo sepultamento, mesmo sem conhecer os finados e seus entes queridos. Dentro da capela, sentava-se num banquinho e acompanhava até o último minuto a cerimônia, enquanto o corpo não fosse sepultado, não arredava o pé. Tudo isso porque não se contentava apenas em ficar olhando. Durante muito tempo, em todos os velórios que compareceu, ajudou a carregar as urnas mortuárias até a morada final. Sempre encontrava uma forma de pegar na alça do “caixão” e ninguém se atrevia a deixá-lo fora da empreitada, mesmo sendo esta função, tradicionalmente, uma honra inerente aos filhos e os mais chegados dos falecidos. Fazia isso de coração, sem esperar elogios ou benefícios futuros. Tratava-se de um homem simples no âmbito material, mas de espírito filantrópico dentro das suas possibilidades. Sucedeu-se assim, quase que diariamente, a mesma rotina na vida de Zé Inocêncio.
 
Mais um dia raiou na cidade. Os pássaros cantavam nas árvores, as pessoas transitavam pelas ruas e as crianças divertiam-se nas praças. Tudo parecia normal, exceto pelo fato de que o rádio de Inocêncio nesse dia não emitiu o som que cotidianamente se escutava. Seu aparelho não ligou porque naquela manhã ele deixou ser rádiouvinte, para se tornar notícia na voz do comunicador que tanto apreciava. Zé Inocêncio havia falecido. Sem familiares para bancar as despesas fúnebres, foi velado num “caixão” vagabundo doado pela prefeitura. Em seu velório, não apareceu nenhum dos parentes daqueles falecidos que ele ajudou a carregar nos últimos 30 anos, nada de políticos lamentando tão terrível infausto; nem religiosos encomendando sua alma. Somente um velho amigo estava lá. 
 
Essa ingratidão aconteceu logo com Zé, que comparecia a todas as cerimônias fúnebres e disputava a cotoveladas a alça da urna mortuária. No momento do séquito, não tinha gente o suficiente para carregar seu caixão até a morada final. Foi levado até a sepultura pela única pessoa que compareceu ao funeral, com ajuda dos coveiros de plantão, cortejado apenas por seu fiel cão vira-latas, sendo sepultado na ala dos indigentes do cemitério municipal.