Durante os obscuros anos da idade média, o que prevalecia era o sistema feudal. O feudo consistia no limite existencial do indivíduo. A razão de ser dos moradores daquele território estava subordinada à vontade do senhor feudal. A maioria das pessoas não era dona de si mesma. A poucos, estava reservado o direito à liberdade, condição senaquanon para a construção da criatividade e da democracia.

No feudo, o ócio prazeroso inexistia. Tudo girava em torno da produção agrícola para satisfazer as necessidades do senhor das terras. Havia a hora de arar a terra, de fazer a semeadura, cuidar do gado e tirar o leite; fazer a colheita e abastecer os estoques, restando aos trabalhadores o refugo. Os dias se passavam lentos e iguais, pois, dia após dia, nada de novo se podia avistar na longa treva medieval.

Os feudos, depois de séculos de dominação alienante, viram seus imponentes muros caírem. O homem avistou a liberdade, transfigurou-a de liberalismo e construiu uma nova ordem de coisas. Não menos opressora que a anterior, porém menos determinista. No entanto, outras formas de “feudalizar” a sociedade foram surgindo. Com destaque para a influência da televisão e agora mais recentemente da internet.

Durante décadas, a televisão foi o grande meio de dominação e alienação ideológica em massa da sociedade contemporânea. Ela ditava normas de comportamento, moldando o pensamento aos ditames do consumo famigerado e escravizante. Ao rigor da programação televisiva, definíamos nossos horários da vida cotidiana. A ela, submetíamos nossos diálogos, quando esses não foram definitivamente silenciados. O ápice dessa submissão inconsciente veio no início deste milênio com as edições do BBB. Encerrados no feudo da Globo, pessoas abomináveis nos expõem as vísceras de suas mediocridades.

A internet constitui-se no mais novo feudo da história. Suas dimensões são planetárias, muito embora limitadas a um monitor. Seus encurralados são incontáveis. Quase tudo está dentro de seus domínios e quem não se submete a ela está digitalmente excluído o que beira a inexistência. As relações interpessoais foram substituídas pelas redes sociais, inundadas de amigos virtuais, mas vazia do real conceito de amizade. Existem até jogos aparentemente inocentes que reforçam a condição feudal do mundo virtual.

A colheita feliz, como tantos outros joguinhos virtuais, vem produzindo um efeito alienante incrível. As pessoas chegam a mudar seus horários para adequá-los às exigências do jogo. Você tem que plantar e colher. Mas continua sem saber a diferença entre um nabo e uma batata. Pode-se ainda roubar a colheita dos outros amigos virtuais, como se roubar fosse algo tão simples assim. E nesse inocente entretenimento, aos poucos, vão-se todos os créditos do celular para comprar elementos virtuais para sua fazenda. Afinal, toda alienação tem um custo. Assim segue a atual sociedade. Enquanto você vai roubando seus amigos virtuais, a internet rouba sua vida real.