A vida e a morte são atos complementares da existência. A vida constitui-se uma caminhada confusa, cuja rota é retomada diariamente e o destino é incerto, inexato. Viver é fascinante porque é imprevisível. Impossível delimitar todas as possibilidades da existência. Não são poucas as cartomantes, sortistas e videntes que exaustivamente tentam desvendar a vida, o futuro. Mas, debaixo do sol, tudo é vaidade! Prever o destino é tão inútil quanto contar as gotas de um oceano. Na história da humanidade, temos diversos exemplos do quão infrutífero é preconizar o inusitado. Afinal, a magia de viver está no surpreendente. Quando esse encanto finda, tornamo-nos vítimas de depressão e do suicídio.

A morte exerce sobre nós uma expectativa ainda maior que a própria vida. A ciência e os múltiplos recursos tecnológicos ajudam a orientar o processo existencial, nos dando dicas para vivermos mais plenamente. No entanto, sobre a morte tudo é especulação. De concreto nada sabemos, nos restando somente a fé como apoio ou o ceticismo como escudo. É por isso que cultuamos tanto os nossos mortos. Pelo que viveram e edificaram, mas também pela total incapacidade de afirmamos acertadamente onde e como estão. Então, surgiu o cemitério: o templo sagrado da memória dos que partiram. Lá, não depositamos somente corpos, mas todas suas lembranças e as esperanças proporcionadas pelo desvendado mundo da morte.

A visita ao “Campo dos Santos” sempre nos remete a um mergulho na história de desconhecidos. Nele, encontramos fotos, datas e mensagens de adeus que dizem muito sobre os ali reverenciados. Pessoas que não figuram entre os grandes personagens da história, mas a história sem elas nem sequer existiria. Um caminhar entre túmulos é resgatar o que um dia fomos. Mesmo entrando somente em momentos de obrigação social ou familiar, somos levados a olhar com humildade a única certeza que a vida nos reserva. A matéria acumulada só diferenciará nossa lápide, mas não a relevância do que somos.

Assim, torna-se lamentável as condições em que se encontra o Cemitério Redondo, na divisa entre Capinzal e Piratuba (SC). Em qualquer país civilizado, tal monumento estaria em plenas condições de visitação com inscrições informativas sobre o que representa, quem está sepultado, ou pelo menos o grupo de pessoas que provavelmente foram enterrados ali e porque naquele local. Seria inclusive um ponto turístico como acontece em Glasnevin, na Irlanda, haja vista o fascínio que as edificações exóticas, mitos e lendas, exercem sobre as pessoas. Infelizmente, nada disso existe.

Agora até o mato tomou conta. Uma constatação de total descaso e abandono. Fala-se tanto em preservar a memória de um povo. Gasta-se tanto dinheiro em eventos ditos culturais, e o poder público não tem recursos para uma simples limpeza. Vergonhoso. Como diria Quintana, “… o que mata o jardim não é a falta de cuidados, mas sim esse olhar de indiferença.” Que Deus tenha recordação dos que ali descansam. Nós já os esquecemos.