Alberto Vieira é português de nascimento, mas reside há anos no Brasil, em Tubarão. Casado com uma catarinense, ama nosso país, e o vê com aquele desapego necessário para enxergar as coisas com mais objetividade. Para Alberto, ainda há muito de feudalismo no Brasil democrático:

“Fabio, isso é algo que eu sempre observei no Brasil, especialmente depois de viver aqui por quase oito anos: formalmente, o regime é democrático, mas a cultura política é feudal. As relações de poder são feudais. A cultura política brasileira permaneceu, digamos, em 13 de julho de 1789, não deu o salto iluminista para o dia 15 de julho. O Iluminismo era a filosofia dos intelectuais revolucionários franceses, uma filosofia humanista moderníssima, pós-renascentista, que dava os cidadãos como iguais em direitos e deveres e almejava conceder a todos as mesmas oportunidades. A Revolução Norteamericana de 1776 foi baseada na Filosofia das Luzes. O próprio conceito de cidadão (“citoyen”, em francês) foi criado pelo Iluminismo político. Então, a gente pode observar muitos indícios, muito claros, de que o feudalismo não foi eliminado no Brasil, nem com a independência em 1822, nem mesmo em 1899 com a República. Ora, em todas as organizações humanas, o primado é sempre da relação informal. A relação formal, sempre que necessário, é ajustada pela informal através da legislação e dos tribunais.

Aqui funciona o “jeitinho” brasileiro. Por exemplo, Brasília apresenta-se algo como uma nova Versalhes ao melhor estilo de Luís 16º, com uma corte exageradamente numerosa, faustosa, frequentemente arrogante, que gasta muito mais do que o que ela produz de útil para o país, e que retira ao Brasil a qualidade de vida e o nível de instrução que ele poderia já ter há muito. Por exemplo, será que o senado vale 06 Bi ao ano? Qual o retorno real desse investimento? Se for investimento e com retorno visível, é bom, mas, se for apenas despesa, é um mau negócio. Mais ainda é essa mesma corte, vivendo luxuosamente e muito acima da média nacional, que mantém um consumo exagerado dos fundos públicos, que se fecha em si mesma e que fecha o sistema em si mesmo, cada vez se afundando mais em relações de clientela política, pouco importando o partido.

Não sou amigo de revoluções sangrentas ou do tipo dialético-marxista (a ditadura do proletariado é apenas uma outra ditadura de sinal contrário, mas continua sendo ditadura…), mas um dia vai ter que haver, de um outro jeito, do jeito brasileiro, uma “reevolução” nesse negócio todo. Acho que o negócio é saber fazer a “reevolução” sem cair na revolução. Nessa festa da grande reforma, haveria também um “jeitinho”, mas à brasileira mesmo, de um jeito gostoso, prazeroso, tornando o Brasil um lugar bem legal para todo o mundo. E não só para alguns. Abraço, Alberto Vieira”.