“Feijão preto combina com tudo”, dizia um amigo, “menos com goiabada”. Muitas misturas podem ser feitas, mas até para misturar precisamos de critérios. A política partidária estaria misturando goiabada com feijão? Vejamos alguns exemplos: em Tubarão, o PSDB não se dá bem com o PMDB, mas, na capital do estado, Pavan (PSDB) é vice de LHS (PMDB); em Tubarão, o PP está coligado com o PSDB, mas, na capital, o PP faz oposição ao governo do PMDB, que está coligado com o PSDB; na capital de SC, o PT está com o PP, contra o PMDB-PSDB, mas, em Brasília, o PT lutou por Renan, que é do mesmo PMDB de LHS.

Imagino a dura tarefa de compreensão da atual geopolítica partidária para um articulador regional (ou nacional) de partido. Vejamos o caso, para citar um exemplo, do deputado Joares Ponticelli, do PP. Em Florianópolis, faz oposição ao PMDB, e encontra-se em posição cômoda em Tubarão, pois o seu partido, o PP, em Tubarão coligou-se com o PSDB, que, sempre em Tubarão, é adversário do PMDB. Ou seja, em Tubarão, Ponticelli encontra um PSDB amigo, diferente do PSDB coligado a LHS (PMDB), ao qual faz oposição na capital.

Viajando pelas cidades do estado, deve olhar sempre para seu mapa geopolítico partidário para não se confundir, trocando adversários por aliados. E, se viajar para Brasília, vai encontrar problemas, pois o PT de lá é amigo do PMDB, ao contrário do PT de Florianópolis, que com ele luta contra o PMDB.
As misturas são várias, mudam de cidade para cidade e estado para estado. O que dizer sobre isso? Meu amigo diria que se trata de goiabada com feijão, mas eu não penso assim.

Tais misturas são, sobretudo, resultado das modificações ideológicas geradas em 1989, ano da queda do Muro de Berlim, e indicam a conquista da hegemonia política do território (cidades) sobre as orientações partidárias nacionais. As ideologias também contam, mas menos e em cada cidade assumem nuances diferentes. Estão subordinadas à história política das cidades.

O localismo político (territorialidade política) condiciona mais a arquitetura política municipal do que a “unidade nacional” dos partidos, que virou uma espécie de metafísica de partido. Assim, não existe mais o PSDB-PSDB, mas o PSDB na cidade X, que é diferente do PSDB na cidade Y; não existe o PP-PP, mas o PP de Amin e de Ponticelli, que é diferente do PP de Maluf; não existe mais o PT-PT, mas o PT em Florianópolis, contra o PMDB-LHS, diferente do PT a favor do PMDB-Renan.

O contexto local – história municipal de partidos e candidatos – determina as coligações, valendo mais do que a identidade nacional dos partidos. Seria isso ruim para a democracia? Penso que não. Afinal, por anos, defendemos a autonomia das comunidades locais (base local) em relação à imposição de orientações gerais nacionais. Hoje, identidades políticas estão sendo construídas de baixo para cima, a partir das cidades. Cidades e candidatos valem mais do que os partidos.

Cidades usam os partidos ao invés de serem usadas por eles, determinando o enredo das “novelas” políticas. Cada cidade possui sua própria situação político-partidária, como se fosse cidade-estado. Impõe-se a centralidade da história local (municipal) de partidos e candidatos sobre as orientações partidárias supramunicipais. Por isso, militantes do Partido X serão contra o próprio Partido X em cidades diferentes das próprias, com história política diferente.

“Qual é o seu partido?”, pergunta um desavisado. “Em qual cidade?”, responde, perguntando, seu interlocutor, destacando a centralidade do enredo político municipal. Esvai-se, assim, a dogmática da fidelidade partidária: mudar de partido por interesse continua sendo vício (fisiologismo), mas não apoiar na cidade X o mesmo partido que se apóia na cidade Y pode ser virtude.