Víctor Daltoé
Geógrafo e Licenciado em Geografia pela UFSC

Um conhecido empresário catarinense recomendou à emissora SBT uma atitude bastante grave na semana passada: a demissão de uma jornalista por suas opiniões. Ao incitar a punição a uma profissional por conta da seriedade de seu ofício, o empreendedor demonstrou o quanto as estátuas da liberdade em frente às suas lojas talvez sejam a única coisa que a obra de sua vida tenha a ver com a democracia.

Luciano Hang se tornou bem-sucedido com uma cadeia de lojas de departamento em escala regional e depois nacional. Sua fama foi sonegada por anos, mas recentemente se popularizou. Foi considerado pela revista Forbes como um dos homens mais ricos do Brasil, tornando-se célebre pela campanha aberta em favor de Bolsonaro e por incitar seus funcionários ao mesmo.

Na semana passada, o empresário recomendou ao SBT, emissora atuante em cadeia nacional, que aproveitasse uma onda de demissões para mandar para a rua a jornalista Rachel Sheherazade, alegando que o Brasil estava infiltrado por ideais “comunistas”. O ato, além de ser grave, é prova de ignorância, e escrever “demetir” e não o correto “demitir” não foi o erro principal do grande empresário no seu comunicado.

Rachel foi uma das jornalistas que fazia críticas mais incisivas aos atos desastrosos que ocorreram durante os governos petistas. Resultado: sua língua afiada conquistou a inimizade da esquerda em geral. Recentemente tem se colocado contra os vacilos do governo Bolsonaro e seus acenos ao autoritarismo, além de se mostrar preocupada com as revelações que tem feito vazar a bexiga de credibilidade do antes blindado Sérgio Moro. Resultado: conquistou a inimizade da direita em geral. Luciano Hang não aceita essa liberdade e irreverência. Acusa-a de comunista.

Os ultarreligiosos atribuem a culpa de tudo ao “demônio”. Os esquerdistas atribuem toda culpa às “elites” ou ao “capital”. A extrema-direita brasileira delira igual, atribuindo a culpa dos males do Brasil a um suposto “comunismo” que ninguém sabe o que é. Ao fim e ao cabo, são todos alienados que torcem para que os jornalistas acabem sempre amordaçados e não apontem os erros evidentes na realidade. Luciano Hang é um deles.

As estátuas da liberdade em frente às suas lojas nunca pareceram tão de mentira.