O cristianismo tem a oferecer, no debate atual sobre a ética, contribuições no nível da prática e da reflexão teórica.
Quanto à prática, a sua maior força vem do testemunho. É caminho válido, fundamental e essencial.
No campo teórico, a lide trava-se mais duramente. Não se aceitando, sem mais, o recurso a uma autoridade doutrinal – seja revelada, seja magisterial – o caminho tem de ser o da racionalidade histórica.

O “punctum dolis” está precisamente na tensão entre os dois termos – racionalidade e história. O primeiro pretende ir ao universal. O segundo afirma o local, temporal. Ou se quisermos, há uma insolúvel tensão, em termos genéricos e absolutos, entre a pretensão universal da ética e os diversos ethos históricos, culturais. O diálogo é laborioso, doloroso, porque não se goza de fácil evidência.

Por ser o cristianismo uma fé histórica, deveria ser-lhe mais fácil entrar nessa problemática de lidar com os ethos concretos em busca da intencionalidade universal. A igreja católica tem longa experiência histórica, mesmo que nem sempre elaborada teoricamente, que lhe possibilita descobrir valores para inspirarem os vetores da sociedade.

As experiências da comunidade cristã desde os Atos dos Apóstolos, no início da igreja de Cristo, até as atuais comunidades eclesiais, têm potencial de alimentar um processo demográfico, geográfico, econômico-político, cultural e de planejamento num espírito comunitário, de justiça, de solidariedade, de comunhão.

A contribuição do cristianismo faz-se tanto mais urgente e necessária quanto mais a sociedade pós-moderna vive uma perda do horizonte simbólico dos valores espirituais que a orientaram até então. As análises apontam inúmeras causas para fenômeno de tal amplitude. A gigantesca produção de bens materiais e simbólicos provoca rápida passagem da cultura ética para a cultura tecnológica e, portanto, confere ao ser humano poder desproporcional à sua maturidade humana, à sua consciência ética, à sua capacidade de responsavelmente haver-se com a própria liberdade. Gera-se tamanho desequilíbrio psicossocial, que nos sentimos entregues ao arbítrio e a interesses distantes da ética.

A ética não é luxo de elites intelectuais. É condição de sobrevivência da humanidade. As guerras, o processo industrial, o jogo econômico mundial, o desvario do capitalismo financeiro, a destruição da natureza, a fome, a exclusão de povos e até continentes, enfim, questões que põem enorme risco a vida humana constituem um dossiê ético de extrema gravidade.

Não menos grave, embora de maneira sutil, é a força corrosiva de toda ética por causa do triunfo do individualismo, com sua constelação de narcisismo, permissivismo, hedonismo, materialista consumista. O individualismo, embora tenha tido a face positiva de acordar a consciência e a liberdade em uma sociedade impositiva, vem corroendo na pós-modernidade toda a solidariedade. Não há ética sem sentido do outro, sem percepção de que o ser humano constitui-se face a outra face.

O presente e o futuro do cristianismo exige que se envolva com todas as suas experiências práticas e seus conhecimentos teóricos do ser humano, de seus valores, de sua história, em busca de respostas éticas.