Partidários do bolsonarismo estão organizando, para o dia 15 de março, uma manifestação pró- governista e contra a atuação de uma das instituições que servem como pilar da República, o Supremo Tribunal Federal. A preparação para o ato já inclui também a gritaria contra o Congresso Nacional, o outro alicerce essencial da democracia brasileira. Além disso, terá claro sentido de pressão em nome da Presidência da República, que se vê atualmente isolada na política nacional, único veículo de transmissão das vontades populares. Mas o essencial ainda está invisível aos olhos de muitos: a estratégia dos bolsonaristas segue, pelo flanco da direita autoritária, a doutrina política imposta pela esquerda autoritária chavista na Venezuela. Sofrem venezuelanos e brasileiros.

Uma das bases do republicanismo, em qualquer país sério, é um sistema de pesos e contrapesos entre os diferentes poderes: legislativo (o Congresso Nacional), executivo (a Presidência da República) e o Judiciário (cuja cúpula é representada pelo Supremo Tribunal Federal). Como consta na constituição brasileira, e das democracias consolidadas do mundo, a soberania popular pelo voto passa pelos diferentes mecanismos de funcionamento de cada poder, que não devem se ameaçar nem se sobrepor.

Desde o início do governo Bolsonaro, tanto a ala ideológica quanto a ala militar do governo auxiliaram o presidente no seu isolamento do mesmo Congresso Nacional no qual o capitão reformado passou 28 anos. Congresso que é o principal responsável por uma das mais importantes reformas das últimas décadas, a da Previdência, apesar das sucessivas pancadas do governo federal, atrapalhando o processo. Congresso que sofre com ataques sucessivos, nos quais a política, mediação essencial da negociação em sociedade, é chamada de corrupção, palavra mágica que faz erguer os ouvidos dos que conclamam a manifestação do dia 15 de março.

O ódio profundo ao Congresso (o Parlamento), composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal no caso brasileiro, foi um dos principais pilares de um regime de um país vizinho ao Brasil, a Venezuela. Desde do primeiro governo de Hugo Chávez, iniciado em 1999, até o atual mandato de seu sucessor, Nicolás Maduro, as principais decisões do país são tomadas conclamando as massas cooptadas pelo governo a enormes manifestações e plebiscitos. Estes são vigiados não só por um exército subserviente ao chavismo, mas por bizarras milícias motoqueiras armadas, que tangem a massa de manobra dos sucessivos governos chavistas. Um parlamento desdentado é uma das principais condições de manutenção da autocracia chavista.

O chavismo representa a esquerda autoritária, fã de um ex-capitão do exército. O bolsonarismo representa a direita autoritária, fã de um ex-capitão do exército. Mas há profundas semelhanças. Chavismo e bolsonarismo não são linhas paralelas. São dois percursos que se encontram, pois seus métodos são os mesmos. Como afirma a jornalista Vera Magalhães, estaríamos lidando com um “bolsochavismo”?