Testar medicamentos e cosméticos de forma mais eficaz e evitar experiências que podem ser cruéis aos animais. O que parece ser uma missão cheia de obstáculos, ganha novos ares com o resultado de trabalho desenvolvido em Florianópolis.

Trata-se da criação de pele humana in vitro, parecida com a da maioria dos brasileiros. O processo até se parece com imagens de filmes de ficção científica, mas surpreende pelo resultado inovador.

Para produzir o tecido, a empresa de biotecnologia BioCellTis utiliza uma cultura de bactérias que desenvolve uma membrana específica. Depois de pronta, essa membrana é desinfetada. No passo seguinte, recebe pele humana, oriunda de cirurgias de redução de pálpebras. A partir dessa amostragem, mais pele vai sendo criada, formando um tecido suficiente para testar produtos e drogas.

Anos de pesquisas que começaram na UFSC

Quem está à frente do projeto é a farmacêutica Janice Koepp, sócia-fundadora e diretora executiva da empresa, que acaba de receber o Prêmio Inovação Catarinense.

“Cada cosmético que você encontra na farmácia passa por testes de segurança. Antes, esses testes eram realizados em animais, como coelhos e ratos. Hoje, pegamos sobras de tecido de brasileiros que realizaram cirurgias plásticas e reconstituímos a pele humana em laboratório”, conta Janice, que trocou uma carreira acadêmica de sucesso pelos desafios do mundo dos negócios.

O processo de produção da pele humana brasileira é resultado de anos de pesquisas que começaram na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e foram desenvolvidas por Janice e outros cientistas.

Na UFSC, a farmacêutica coordenou um projeto, realizado em parceria com uma universidade da França, de desenvolvimento de terapias inovadoras para pacientes tetraplégicos.

Em sua equipe estavam mais de 30 cientistas que buscavam criar biomateriais para reconstituir as células de medulas ósseas lesadas. O grupo publicou vários artigos científicos registrando os avanços alcançados e conseguiu verba para construir um laboratório de cultura de células dentro da universidade.

Ao final de uma etapa do projeto, Janice parou e se fez uma pergunta: “O que ela realmente queria para sua vida dali pra frente?” Poderia investir na segurança de uma carreira de professora universitária. Poderia ainda buscar oportunidade fora do país, mas teria dificuldades para levar a família. Ou poderia tentar empreender, o que, na verdade, sempre havia sido seu grande sonho.

Empreendedorismo nas veias

Janice acredita que nasceu com o DNA da inovação e do empreendedorismo. Ela cresceu em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí, interior catarinense, onde trabalhou na fundição do pai desde os 14 anos. Aos 16, mudou-se para Florianópolis fazer pré-vestibular. Formou-se em farmácia pela Univali e logo engatou um mestrado e um doutorado na UFSC.

Enquanto isso, casou-se e teve dois filhos – um menino e uma menina. “Eu digo que a minha filha deveria receber créditos do meu doutorado, porque ela teve que assistir a várias aulas e palestras comigo”, brinca.

Janice sempre recebeu muito apoio e incentivo dos seus orientadores, considerados seus grandes mentores; dos colegas e da família.

Foi na universidade que conheceu os sócios, o engenheiro químico, Luismar Porto, e o físico, Carlos Rambo, que estudavam o desenvolvimento de peles artificiais. O marido, empresário da construção civil, foi o primeiro investidor da BioCellTis.

Em 2009, já com a ideia da startup, registrou um CNPJ. Mas seguiu à frente da coordenação do projeto na UFSC. Foi só em 2011 que criou coragem para se desligar da universidade e se dedicar totalmente à startup.

Marido, mulher e sócios

A partir de então, todo o dinheiro que sobrava, ela e o marido investiam na empresa. “Não é fácil ter o marido como sócio. Ele é sócio na minha empresa e eu sou sócia na empresa dele. A gente aprendeu a trabalhar junto a partir de muito respeito, calma e sabedoria nas palavras”, explica.

Na empresa do marido, atuou em obras no setor de saúde, como a construção de farmácias, e aprendeu muito sobre impostos, administração e gestão financeira.

Mesmo assim, sentiu que precisava estudar mais e começou uma pós-graduação em administração de empresas na FGV. Em paralelo, mergulhou na imensidão da burocracia que envolve a abertura de uma startup de biotecnologia. Foi atrás de salas, certificações, autorizações da Anvisa, investidores.

Nunca desistir

Janice conta que, várias vezes, pensou em desistir. “Tem muita pressão, querem puxar o seu tapete. Esse é o mundo corporativo.” Em janeiro de 2017, a BioCellTis começou a produzir os primeiros tecidos humanos em escala laboratorial.

Este ano, o foco é vender para empresas e avançar no desenvolvimento e aprovação de outros produtos, como uma máscara facial para uso após procedimentos dermatológicos. Ela diminui a dor, acalma e hidrata profundamente a pele.

A empresa hoje conta com quatro sócios, dois investidores e quatro funcionários. Em junho de 2019, recebeu investimento de um milhão de dólares, que está permitindo ampliar sua capacidade de produção, desenvolver novos produtos, consolidar a marca e iniciar expansão internacional para o Mercosul.

E em setembro de 2019, comemorou a aprovação da lei que dificulta a realização de testes em animais no Brasil, o que deve ampliar seu mercado de atuação.

Nos animais, não

Em 24 de setembro de 2019, terminou o prazo de cinco anos para que laboratórios adotassem métodos alternativos aos procedimentos com cobaias, conforme estipula uma resolução do Concea (Conselho Nacional de Controle e Experimentação Animal).

A norma exige que sejam priorizados métodos alternativos que não usem seres vivos. Os métodos alternativos incluem diminuir o número de bichos utilizados, aperfeiçoar as metodologias para minimizar o sofrimento animal e substituir o uso de cobaias.

Para Janice, a mudança será benéfica para sua startup. Segundo ela, importar pele artificial de outros países é caro e complicado, já que o material “morre” facilmente. Além disso, um dos diferenciais da BioCellTis é ser a primeira empresa a produzir uma pele que reúne as principais características dos tipos de pele mais comuns entre os brasileiros.

Premiando a inovação

A onda de boas notícias culminou com o primeiro lugar na categoria Inovação em Produto do Prêmio Inovação Catarinense – Professor Caspar Erich Stemmer, realizado pela Fapesc (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação de Santa Catarina). No dia 19 passado, Janice subiu ao palco do auditório da Acate (Associação Catarinense de Tecnologia) para receber o troféu.

Com 124 projetos e 30 finalistas em 11 categorias, a premiação homenageou projetos e serviços que impulsionam a inovação no Estado. “Essas pessoas fazem e transformam nosso Estado no que ele é: um estado inovador, empreendedor. Ficamos muito satisfeitos com todas as categorias premiadas e com os participantes, pessoas e empresas que mostraram que a inovação está no DNA de Santa Catarina”, afirmou o presidente da Fapesc, Fábio Zabot Holthausen.

Elas podem, sim

A história de vida de Janice Koepp ainda é exceção no Brasil. De acordo com a iniciativa We Ventures, que busca fomentar o empreendedorismo feminino no país, apenas 2% dos sócios das startups brasileiras são mulheres. Para aquelas que estão pensando em empreender, Janice recomenda que não desistam.

Ela acredita que as mulheres têm uma incrível capacidade de organização, que pode ajudar muito nas pesquisas e nos negócios. Apesar disso, diz que não foi fácil conciliar a vida de pesquisadora com o papel de mãe, especialmente quando as crianças eram pequenas.

Eram muitas viagens a São Paulo e temporadas na França no pós-doutorado. Depois, precisou adaptar a vida de mãe à nova rotina de empresária. Quando o tempo com os filhos é curto, ela prioriza a qualidade e se dedica totalmente a eles.

Hoje, considera que seus filhos são pessoas felizes e que sentem orgulho da mãe. Para ela, isso é muito valioso. O filho está na universidade e se prepara para um curso na Austrália. A filha completou 16 anos no dia da entrevista. Enquanto conversava, Janice aguardava a chegada do bolo que havia encomendado para a festa.