#Pracegover Foto: na imagem há uma mulher de vestido, de óculos e com uma bolsa
#Pracegover Foto: na imagem há uma mulher de vestido, de óculos e com uma bolsa

Sabemos que 2020 deverá ficar marcado na história mundial não apenas como o ano em que se viveu a pandemia do coronavírus, mas também em todo mundo tem se discutido sobre uma questão urgente: o racismo. No Brasil, por exemplo, essa situação não ocorre somente neste ano, o problema é enraizado. Por mais que os chefes do poder Executivo do país falem que o racismo não existe no Brasil, ele existe e é crime.

Neste domingo (29), em Laguna, mais uma história de racismo ocorreu em um restaurante. A vítima era uma mulher, negra e professora, Dilsimar da Silva Tereza, a Mana Tereza. Ela conta que enquanto confraternizava com amigos em um estabelecimento comercial sentiu algo líquido escorrer pelas suas costas e pernas. Ao olhar para trás, a mulher e sua amiga viu que se tratava de um senhor cuspindo nela. “Ele enchia a boca de cerveja, fazia o que parecia um gargarejo e cuspia em minhas costas”, relata.

De acordo com Mana Tereza, a mulher que acompanhava o homem pediu desculpas e alegou que ele nunca tinha feito isso. “Quando olhava este senhor, ele mostrava a língua e balançava o rosto, uma verdadeira cena de horror. Nos distanciamos do casal e de longe pude observar que ela estava tendo dificuldades para levá-lo até o carro, para irem embora. Fui até eles oferecendo ajuda, mas ele não aceitou dizendo em alto e bom som que eu era uma ‘nega macaca’, lamenta.

A vítima conta que neste momento o ‘chão se abriu’. “Confesso que com toda minha consciência sobre as questões que envolvem o racismo, na hora me despertou um gatilho tão triste que não demonstrei reação. Agora, mais lúcida consigo avaliar que o que senti na verdade, foi vergonha das pessoas que estavam ao redor e viram e ouviram. Me remeti a infância e adolescência, época em que estes ataques eram mais comuns devido a ignorância mesmo daqueles que praticavam”, expõe.

Mana Tereza conta que quando todos acreditavam que a situação não iria piorar, o casal conseguiu surpreender a todos. A mulher que acompanhava o homem pediu desculpas a vítima e como forma de ‘pedir perdão’, convidou Mana Tereza, para trabalhar em um estabelecimento comercial que o casal possui. ‘Como forma de me desculpar te ofereço um trabalho. Mas já vou avisando, é pesado! Um trabalho que não pode fazer corpo mole. Tu aceitas trabalhar na cozinha da minha burgueria? Pago bem e já ajuda a comprar um leite para o teu filho’, acenou a mulher

A vítima pontuou que sentiu uma pressão na nuca e que duvidou que estava mesmo naquele local escutando tudo. “Minha vida acadêmica passou diante dos meus olhos. Lembrei dos cursos de libras, inglês, minhas faculdades de pedagogia, letras, ciências biológicas, das minhas pós-graduações, todas as quatro. Lembrei quando estudei no Instituto Federal e da minha apresentação do TCC diante da banca com nota máxima. Enfim, a mulher que havia me tornado, me esforçado tanto para ser agora rotulada, diminuída, subalternizada”, observa.

Foi neste momento que a amiga de Mana Tereza, Babalu Amorim, interveio e defendeu a vítima de racismo. “A senhora sabe com quem está falando? Conhece Mana Tereza? Sabe o que ela representa principalmente na educação do município e agora Estado? Sim, Estado, pois ela agora é concursada. Uma mulher negra, concursada, que não desmerecendo o trabalho subalterno, mas quais motivos a fizeram crer que ela se submeteria? ”, questionou Babalu.

Mana Tereza lembra que no alto da sua humilhação só conseguia dizer que nem filho tem para comprar o leite, com a ajuda que o salário da mulher oferecia. “A situação caminhava para um abismo. Levantei e entrei na primeira porta que vi. Se tratava da cozinha do restaurante. Sentei no chão e chorei. Logo me acalmei e pensei… ‘olha a mulher negra chorando no chão do lugar exato ao qual foi mandada! Não, não! Hoje não vai ter mulher negra humilhada em chão de cozinha algum. A ocasião só me empoderou mais a seguir me graduando e incentivando outras mulheres negras a ir em busca de uma vida mais digna. Todas podemos! Racismo não existe?”, pergunta. Mana Tereza, foi nesta segunda-feira (30), na delegacia de polícia e registrou um Boletim de Ocorrência.

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