Foto: Prakash Singh / AFP / CP
Foto: Prakash Singh / AFP / CP

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro as felicitações por sua reeleição e disse querer desenvolver as relações bilaterais e multilaterais dos dois países, como no grupo dos Brics, que engloba ainda a Rússia, a China e a África do Sul.  Os resultados finais das eleições do país confirmaram na sexta a vitória de seu partido nacionalista hindu, o BJP, que conseguiu a maioria absoluta com 303 de 542 cadeiras. O número excede o necessário para ter a liderança absoluta, que é de 272 representantes.

“Obrigado, presidente @jairbolsonaro. Espero ansiosamente conhecê-lo pessoalmente e trabalhar com o senhor para desenvolver as relações Índia-Brasil em todas as esferas, e a nossa cooperação em fóruns multilaterais, incluindo os Brics sob a sua presidência”, escreveu o indiano em sua conta no Twitter. 

Mais cedo, Bolsonaro havia publicado uma mensagem na mesma plataforma em que, além de cumprimentar Modi pelo resultado eleitoral, ressaltou ter certeza de que as relações comerciais do Brasil com a Índia “serão cada vez mais sólidas”.

Modi é um líder controverso: está associado com os tumultos de 2002 em Gujarat, estado no oeste do qual era ministro-chefe. Na época, três dias de confrontos deixaram mais de mil mortos, a maioria muçulmanos. Críticos acusaram-no de provocar sentimentos anti muçulmanos, mas uma comissão especial nomeada pela Suprema Corte não encontrou evidências para acusá-lo. Quando foi eleito pela primeira vez, enfatizou suas qualidades pessoais seu passado humilde, e abriu o governo a castas historicamente subordinadas.

Os brâmanes, por exemplo, desejam uma nação hindu e muitas vezes relutam em compartilhar poder ou mesmo refeições com castas inferiores. Muçulmanos e cristãos foram difamados como “outros” e se atacaram verbal e fisicamente após as eleições. A geografia também ameaçou atrapalhar o equilíbrio político de Modi. O apoio ao BJP é tradicionalmente concentrado no coração dos estados centrais e suas ramificações no norte e no oeste da Índia.

Após 2014, o partido buscou se expandir no leste e no sul, bem como em Jamu e Caxemira. Acertou alianças com partidos regionais sempre que a vitória definitiva se mostrou impossível. Mas, após alguns sucessos iniciais, a realidade da Índia como uma união federal de estados, em vez de uma nação monolítica, tornou-se aparente: os estados são divididos linguisticamente e ao longo das fronteiras das regiões históricas que há muito tempo antecedem o nacionalismo ou a ideia moderna da Índia.

Contudo, mais do que essas questões, o governo também fracassou em cumprir suas promessas de prosperidade econômica. O crescimento real do PIB da Índia não ultrapassou os níveis de crescimento anteriores, enquanto a criação de empregos mais ou menos permaneceu estagnada desde 2014. Em novembro de 2016, Modi decidiu banir todas as notas de 500 e mil  rúpias antes de substituí-las por novas notas de 500 e dois mil. Em uma economia “informal” baseada principalmente em dinheiro, a atividade econômica desacelerou dramaticamente, e o crescimento do PIB caiu mais de dois pontos percentuais em seis meses. 

O espectro do crescimento do desemprego assombra a Índia. A taxa de ocupação caiu de 43,5% em janeiro de 2016 para 40,6% em março de 2018, segundo um relatório recente da agência de classificação de crédito. Embora o número de pessoas empregadas tenha aumentado em termos absolutos, a taxa de crescimento diminuiu. No exercício financeiro de 2018, por exemplo, o emprego cresceu apenas 3,8%, comparado com 4,2% no período anterior. 

No país mais populoso do mundo, 93% da população ganha menos do que o rendimento tributável mínimo e 98,5% não paga qualquer imposto de renda. Por conta disso, o governo procurou aumentar as receitas através de impostos indiretos. Os compradores tiveram que pagar mais pelo seu consumo e os vendedores tiveram que se desfazer de mais de seus ganhos. A introdução desse novo regime de impostos indiretos prejudicaram os proprietários de pequenas empresas na forma de vendas e ganhos menores. Isso também diminuiu a renda dos agricultores no país onde cerca de 70% da população vive na zona rural.

Apesar dos maus indicadores econômicos que têm assolado o povo, ele apelou para o lado simbólico do nacionalismo religioso e explorou ainda mais a questão com o Paquistão para se impulsionar politicamente e inflar o sentimento de patriotismo popular. Afinal, trata-se de um vizinho com uma religião oficial distinta, o Islamismo.