330 mulheres uniram suas vozes para denunciar crimes de assédio e abuso sexual cometidos pelo médium João de Deus durante tratamentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia. Uma força-tarefa do Ministério Público Estadual de Goiás, onde fica a cidade, alinhada à promotoria de outros estados, recebeu uma série de depoimentos e acusações contra o nome antes do órgão protocolar o pedido de prisão preventiva do acusado na quarta-feira (12).

A rotina de abusos se tornou pública em reportagem do programa Conversa com Bial na sexta-feira (07), com dez relatos de vítimas. Na sequência, o jornal O Globo publicou mais três denúncias reunidas em reportagem. A coreógrafa holandesa Zahira Leeneke Maus foi a primeira a vir a público com publicação que detalhou sua experiência com o médium anos antes em perfil no Facebook. A partir daí, foi contatada por mais duas vítimas sobre episódios de abuso similares ao seu, dando início a um volume de denúncias sem precedentes.

Os relatos detalham como João de Deus abordava suas vítimas: durante diferentes etapas do tratamento, o médium convocava mulheres a uma sala privativa sob o pretexto de acelerar os processos de cura. Lá, abordava diretamente as vítimas para diferentes tipos de abusos sexuais que incluíam pedidos por masturbação, sexo oral e, no caso de Zahira, penetração contra sua vontade.

A partir da exposição dos primeiros casos, a Polícia Civil e o Ministério Público Estadual de Goiás prepararam força-tarefa para investigar o caso. Dias depois, Dalva Teixeira, filha do médium, entrou em destaque por conta da divulgação de detalhes do processo que move contra o pai – ela acusa João de Deus de estupro enquanto ainda era menor de idade.

Com a explosão do escândalo, nomes femininos famosos se posicionaram em apoio às vítimas e ao combate da violência contra a mulher em seus perfis nas redes sociais. Leandra Leal, Letícia Colin, Débora Nascimento, Débora Fallabella, Bruna Linzmeyer, Maria Casadevall e Gisele Itié foram algumas das mulheres que se posicionaram no feed do Instagram; confira alguns dos registros no final da página.

Nesta quinta-feira (13), a apresentadora Xuxa compartilhou um vídeo comentando o caso: “Eu o conheci numa gravação que não foi ao ar (…) tive um carinho muito especial por aquela pessoa. Infelizmente, me enganei e me enganei feio. (…) Me sinto na obrigação de dizer a vocês que estou até um pouco envergonhada com tudo isso (…) Estou com vocês [mulheres que denunciaram os episódios de abuso], sinto muito, muito mesmo, de verdade. Por favor, se tiver mais mulheres, denuncie. Pessoas como esta, e outras, têm que pagar por isso”, declarou em trechos de sua publicação.

A apresentadora Oprah Winfrey, que contou a história do médium e de seus tratamentos espirituais durante reportagem em Abadiânia em 2012, também se manifestou em nota divulga na quarta-feira (12): “eu tenho empatia pelas mulheres que estão se apresentando agora e espero que a justiça seja feita”.

João de Deus, que desde a infância tem experiências mediúnicas, passou a oferecer tratamentos e cirurgias espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, em 1976. Ele e sua equipe recebem milhares de pessoas afetadas pelos mais diversos problemas de saúde em busca de atendimento alternativo. Seu nome ganhou projeção internacional após receber adeptos famosos – artistas, atletas e políticos entre eles – à procura de seus tratamentos.

O advogado de defesa de João, Alberto Toron, revelou que ainda não foi comunicado sobre o pedido de prisão preventiva e que seu cliente está à disposição da Justiça para os devidos esclarecimentos e investigação. Em visita breve à Casa, João de Deus afirmou que é inocente: “Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs, agradeço a Deus por estar aqui. Ainda sou irmão de Deus, mas quero cumprir a lei brasileira porque estou na mão da lei brasileira. João de Deus ainda está vivo. A paz de Deus esteja convosco”, disse.