A coordenadora da comissão Cihdott, Priscila Fornasa Redivo, lembra que os doadores devem manifestar a vontade à família.
A coordenadora da comissão Cihdott, Priscila Fornasa Redivo, lembra que os doadores devem manifestar a vontade à família.

Karen Novochadlo
Tubarão
 

Mais de 50 pessoas foram beneficiadas com os órgãos captados no Hospital da Nossa Senhora da Conceição (HNSC), em Tubarão. Este ano, 29 córneas e três doações de múltiplos órgãos foram feitas. O número cresceu bastante em relação a 2009, quando apenas seis córneas foram captadas e uma de múltiplos órgãos. O aumento é mais de 400%.
 

Porém, a captação de órgãos ainda enfrenta resistência. Muitos familiares, por variados motivos – medo, desconhecimento e religião -, não autorizam a doação de órgãos de entes queridos. Parte do aumento é obra da Comissão Intra Hospitalar do Hospital de Doações de Órgão e Tecidos para Transplante (Cihdott).
A equipe, com representantes dos setores da emergência, UTI e centro cirúrgico, passou por uma reestruturação no ano passado. Anualmente, os membros realizam treinamentos promovidos pela Central de Transplantes de Santa Catarina de como abordar os familiares e sobre os procedimentos.

Como é feita a doação?

O caminho para captação de órgãos é longo, demora em média 24 horas. Para determinar a morte cerebral de um paciente, por uma questão de segurança, são realizados vários testes, que levam 12 horas. Assim que ocorre o falecimento, a equipe do hospital conversa com a família. Em seguida, os exames são enviados por fax e amostras de sangue por ônibus para a central de transplantes em Florianópolis.
 

Caso a pessoa esteja apta para ser um doador, uma equipe de médicos vem da capital para realizar a coleta. Muitas vezes, chegam de helicóptero a Tubarão. A equipe corre contra o relógio, afinal, alguns transplantes precisam ser realizados imediatamente.
 

"É um processo sério, onde todos os documentos têm que estar preenchidos, os exames arquivados e a morte comprovada", esclarece a enfermeira coordenadora da Cihdott, Priscila Fornasa Redivo.
Para os que desejam tornar-se doadores, Priscila explica que devem apenas manifestar a vontade aos familiares, os únicos responsáveis por autorizar – ou não – a captação dos órgãos.

 Estado é exemplo

Nos últimos quatro anos, o estado catarinense liderou o ranking nacional de doadores. Em 2009, obteve índice de 19,8 doadores por milhão da população (p.m.p), contra os 8,7 no Brasil. Em 2010, até outubro, 801 transplantes foram realizados. Mais de mil pessoas esperam na fila.
 

O modelo de gestão da área no estado é inspirado no padrão espanhol, que apresenta a maior taxa de doação do mundo, com 36 doadores p.m.p. E uma das chaves deste sucesso é a relação inicial com os familiares do doador, constantemente abordados em treinamentos pelas equipes dos hospitais de captação.
 

Para o próximo ano, a política pública do setor será alterada. O objetivo é aumentar a gama de profissionais capacitados para atuar na área de transplantes nos hospitais credenciados. Atualmente, existem mais de 80 coordenadores hospitalares de transplantes na rede hospitalar, contra dez em 2004. O estado quer aumentar este número para gerar um crescimento de pelo menos 50% na realização de transplantes.

Saiba mais

♦ O que pode ser doado: córnea, esclera, coração, válvula cardíaca, fígado, rim, pâncreas, conjugado rim/pâncreas, medula óssea, tecido ósteo-condro-fáscio-ligamentoso.
♦ Das 249 notificações de possíveis doações de órgãos feitas em Santa Catarina até outubro deste ano, apenas 90 procedimentos foram efetivados. Setenta e sete famílias não autorizaram a captação, 14 casos foram descartados por contra-indicações clínicas e 68 doadores também foram descartados por outros motivos.
♦ A maioria dos doadores tinha entre 20 e 41 anos.
♦ As captações de córneas podem ser feitas até seis horas após o falecimento.
♦ Cada córnea doada pode ajudar duas pessoas. Uma pessoa com possibilidade de doar vários órgãos pode salvar até sete vidas.