Tubarão

O racismo, na maioria das vezes, não ‘surge’ como forma de agressão física ou de ofensas pessoais. Geralmente, ele aparece em momentos sutis, de maneira camuflada. São detalhes, circunstâncias tão discretas que boa parte das pessoas que o cometem não percebe. No entanto, atos de racismo são, muitas vezes, fortes o suficiente para fazer mal e aumentar a exclusão.

Frases como: ‘eu tenho amigos negros’; ‘eu não enxergo cores, enxergo seres humanos’; ‘mas meu tataravô era preto’; ‘negros são os piores racistas’; ‘nem todo branco é racista’; ‘mas e a minha liberdade de expressão? ’; ‘mas eu sou branco e também sofro racismo, chamavam-me de branquelo quando eu era criança’; ‘por que não tem dia da consciência humana?’; ‘hoje tudo em dia é racismo, eu hein!…’, são faladas e ouvidas em demasia.

Pedro Silva, de Tubarão, acredita que aumentou a liberdade para se expressar sobre o assunto e, com a era da internet, há muitos formadores de opinião. É o que também crê a professora Samira Fernandes. O estudante de engenharia mecânica, Otávio Gonçalves, destaca que o racismo no país continua com a mesma intensidade. “A única diferença é que atualmente o racista se sente mais à vontade em expor a sua ignorância por se sentir protegido por um novo formato de sociedade, a qual aprendeu a esconder seu preconceito rotulando de ‘vitimisto’ tudo que vai contra o seu pensamento retrógrado. O atual governo alimenta isso também”, pontua.

Por outro lado, a professora Keyla de Souza também afirma que o racismo só aumentou. “Penso que muito por causa da ascensão dos negros. Não é muito normal ver negros em espaços que não frequentávamos antes, como faculdades, cargos de chefia, viajando de avião… Algumas pessoas veem isso como se estivéssemos roubando os lugares delas”, observa.

A engenheira Natália de Oliveira também assegura que esta forma de preconceito cresceu, no entanto, de maneira ‘velada’, devido à consciência e, consequentemente, ascensão do negro. Antes, a população negra se considerava como inferior e aceitava ter subempregos. “Negro se posicionar, incomoda. Negro estudar, incomoda. Negro trabalhar sem uma vassoura na mão, incomoda. A mesma frase dita por mim ou por uma pessoa branca, em especial descendente de europeu, tem conotação diferente. Já passei pela experiência. Em uma reunião me posicionei contra uma situação de fofoca perante o ambiente de trabalho e uma pessoa que nem sabia o que se passava usou o termo vitimismo, sendo que em nenhum momento sequer levantei suspeita de racismo. Negro se impondo é considerado arrogância. Principalmente se isso vier de uma negra de quem se espera menos ainda”, avalia.

O estudante de direito Felipe Machado expõe que racismo é algo que não sofreu ou ao menos não percebeu. Ele acredita que não aumentou ou diminuiu, porém, que está mais em evidência, por isso, talvez em certos momentos, pode passar a impressão de que tem um crescimento ou redução. O que crê, entretanto, é que tenha elevado a atenção das pessoas para as situações onde o racismo ocorre.

Na era das redes sociais, temas como o machismo e racismo encontram duas vertentes muito distintas de opiniões: enquanto algumas pessoas acreditam que o preconceito e a discriminação ainda existem e impactam de forma bastante negativa na vida das mulheres, negros e outros grupos; outros creem que tais temas são tratados com exagero e vitimização, gerando o chamado ‘mimimi’.

‘Eu tenho um amigo negro’: A população negra é a que mais sofre com a desigualdade

 Apegar-se a amizades ou a ascendentes negros para tentar diminuir a culpa em uma situação de preconceito apenas consolida toda a sistemática cruel do racismo

O racismo está arraigado na cultura: é estrutural. Basta ligar o noticiário para se deparar, entre uma notícia e outra, com um acusado de determinada vertente de preconceito, a qual a defesa preliminar e necessária é apontar a amizade ou o parentesco que tem com um negro. O véu que separa a ingenuidade do racismo em potencial é muito difícil de ser enxergado.

A jornalista Emanuela Silva salienta que o racismo está enraizado na sociedade brasileira, justamente pelo fato de negação. “Querem nos fazer acreditar que ele não existe e tudo é vitimismo. Porém, ultimamente as pessoas, talvez por estarem seguras de que não há uma punição severa para o crime, começaram a expressar e assumir a postura racista com orgulho sem medo. Alguns, encorajados por determinados grupos, e outros por seguir o comportamento de massa. Infelizmente, o racismo, velado ou explícito, mata todos os dias”, observa.

O também jornalista Willian Reis avalia que a intolerância, de modo geral, teve um acréscimo. “Principalmente depois da onda Bolsonaro, com o seu discurso preconceituoso e conservador, que vitimiza aqueles que não se enquadram naquilo que ele e seus seguidores consideram como norma”, constata.

De acordo com a professora e coordenadora municipal de promoção da igualdade racial em Tubarão, Aleida Cardoso, para as pessoas que trabalham ou pesquisam a questão racial no Brasil, não é um fato novo que as pessoas sejam e estão cada vez mais racistas. “Sempre vivemos em um país conservador, em que o público nunca nos acirrara em pé de igualdade, eles nos toleram, mas não nos aceitam! O racismo antes era velado e nunca foi legitimado porque as pessoas sempre disseram que não são racistas. Mas isso não é verdade, porque bastou alguém vir silenciar a luta e dizer que somos vítimas do que sofremos no dia a dia por conta da cor da pele, sobretudo, os brasileiros precisam estudar mais a nossa história para não cair na armadilha de que somos todos iguais; sofrer todo mundo sofre, que é bem diferente de opressão por conta de inferiorizar uma raça perante a outra! ”, observa.

Aleida acrescenta que o sistema de exclusão veio com muita força nos últimos anos, porque, mesmo com 54% da população, o negro ocupa a base da pirâmide social e econômica, os piores postos de trabalhos e, apesar das ações afirmativas, são os que menos ocupam os espaços universitários. “Temos que entender que o racial é um sistema de opressão, onde uma raça, sobretudo a branca, sempre se achou superior a outra, nós não temos poder institucional para sermos racistas, porque tem a ver com relação de poder, e esse privilégio de equidade nunca nos foi oferecido! Quem tem privilégio não quer abdicar dele! As pessoas precisam ser antirracistas para entender e combater esse mal! Porque, ao falar que não é não, basta! Para quem ainda sofre o resquício de 400 anos de um país que viveu esse período longo de escravidão! Chega a ser vergonhoso quem não entende a questão racial no Brasil, acredito que o combate começa pela educação das pessoas entenderem que a meritocracia está bem distante para quem já entende que a largada nunca vai ser igual para todos”, finaliza.

O fato é que muitos que se identificam como não racistas talvez jamais tenham passado por situações discriminatórias, argumento do qual se vale para o negro para demonstrar que, se o preconceito e a discriminação não fazem parte da sua realidade, você jamais poderá julgar com clareza como se sentem aqueles que são vítimas de exclusão social.

Dados do Atlas da Violência 2019 apontam que os negros são as principais vítimas de homicídio. Esta população também é a que mais sofre com a desigualdade, e parte dela ainda hoje vive à margem das benfeitorias estruturais do Estado. Depois de séculos de escravidão e de uma inexistente transição para a cidadania, o negro sentiu na pele todas as grandes transformações do país, da época do pelourinho até os dias da atualidade, com as abordagens policiais sem motivo e as mortes sumárias.