#ParaTodosVerem Na foto, uma prateleira de laticínios em um supermercado
A alta do leite impacta também em todos os produtos derivados, como queijos, iogurtes, pães e outros produtos que precisam da matéria prima - Foto: Tânia Rêgo | Agência Brasil | Divulgação

O consumidor do leite longa vida pode preparar o bolso. O litro do produto pode chegar (e em algumas regiões até mesmo ultrapassar) aos R$ 7,00 neste começo de julho. A previsão pessimista é do vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados (Sindileite) de Santa Catarina, Valter Brandalise. Segundo ele, em pequenos mercados pelo Estado esse preço já vem sendo praticado. Desde esta última semana de junho. Com a aprovação na Assembleia Legislativa, no início de junho, do projeto de lei 78/2022, de autoria do Governo do Estado, que manteve o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do alimento em 7% até o fim do próximo ano, a expectativa era de uma redução no litro do produto, porém o que se observa é uma crescente alta.

No início de maio ainda era possível comprar o litro por R$ 4,60 em grandes redes de supermercados. Segundo Brandalise, as cadeias produtivas se desestruturaram uma parte em função da pandemia, a outra parte quando estava se recuperando iniciou a guerra na Ucrânia, o que resultou em uma forte subida do preço. Na outra ponta, o produtor não está estimulado a produzir, pois o custo é alto e o lucro cada vez menor. Não por acaso, o último levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), em maio, na década de 90 o Brasil tinha 70 mil produtores de leite. Neste 2022, apenas 24 mil continuavam na atividade no país. Ainda conforme o vice-presidente do Sindileite, o efeito da redução do ICMS foi R$ 0,25, nada mais que isso.

“O que é visto nas gôndolas é um desequilíbrio entre oferta e a demanda. Nos últimos dois anos o produtor sofreu com grandes custos, como o aumento do preço do milho e da soja, os principais insumos. Mas o preço do leite não acompanhou. Sem incentivo, muitos desistiram da atividade e isso tornou o produto cada vez mais escasso. E isso puxa o preço para cima. E acredite, pode subir mais ainda”, lamenta Brandalise. Esta semana, o presidente da Faesc, José Zeferino Pedrozo, emitiu um comunicado sobre a questão. Desde o início do ano a entidade alerta sobre esta possibilidade de alta, em especial pelo aumento vertiginoso do custo da produção e cobra do Estado uma política pública específica para o setor. “É evidente que nem o produtor, nem a indústria causaram essa situação de preços elevados para o consumidor final. É hora de governo e sociedade planejarem uma política para o leite, inspirada nos princípios da segurança alimentar”, argumenta na nota – veja na íntegra abaixo:

Nota da Federação da Agricultura e
Pecuária do Estado de Santa Catarina
“A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC) vem manifestar-se publicamente em face do novo patamar de preços que o leite e os demais produtos lácteos alcançaram, ultimamente, no mercado interno. Contra a vontade dos produtores rurais e das indústrias de laticínios, vários fatores adversos, ao longo dos últimos meses, concorreram para essa situação indesejável de aumento dos preços finais. De um lado, a seca prejudicou as pastagens e diminuiu a oferta de alimentação para as vacas. De outro lado, a inflação e a escassez de insumos elevaram brutalmente os curtos de produção.

Nesse momento, a cadeia produtiva do leite está impactada pelo aumento generalizado de custos diretos, como energia elétrica, gás, combustíveis, fertilizantes, embalagens, matérias-primas, mão de obra e outros insumos. O custo da nutrição dos animais, por exemplo, explodiu em face da escassez de milho e farelo de soja no mercado, caracterizando o pior choque de oferta desde 1990. O somatório de todos esses percalços – e a constatação de que a atividade  não é rentável – levaram ao intenso abandono da atividade leiteira por produtores rurais.

Na década de 1990 existiam em território catarinense 75.000 produtores de leite. Agora, em 2022, são apenas 24.000. Somente durante o período de pandemia mais de 9.000 produtores abandonaram o setor, inviabilizados pelos prejuízos acumulados. O produtor determina o padrão de qualidade de seus produtos, porque isso depende diretamente de fatores que estão sob seu controle. Entretanto, não define o preço final ao consumidor porque sobre ele agem variáveis imprevisíveis e incontroláveis como custos, clima, mercado, etc. É evidente que nem o produtor, nem a indústria causaram essa situação de preços elevados para o consumidor final. É hora de Governo e Sociedade planejarem uma política para o leite, inspirada nos princípios da segurança alimentar.

Texto: Zahyra Mattar | Notisul

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