Amanda Menger
Cap. de Baixo

A chuva e o vento frio levaram o funcionário público da prefeitura de Capivari de Baixo Geraldo Francisco da Rocha, o Baiano, a voltar mais cedo para casa ontem e encontrar algo que chocaria a região. Por volta das 9 horas, ele foi colher quiabo e outras verduras que planta em um terreno perto de sua casa, na rua João Ernesto Ramos, no centro de Capivari. Embaixo de algumas madeiras, havia uma sacola. Ao abrir o saco, o susto:

“Eu fiquei pensando se o que estava vendo era real, que dentro da sacola tinha um feto humano. Chamei uma das meninas que trabalham na Casan (o escritório fica em frente ao terreno). Uma delas foi olhar e constatou que era, de fato, um feto humano. Logo em seguida, as polícias Militar e a Civil chegaram junto com o pessoal do Instituto Médico Legal (IML) e levaram o feto. Era um menino”, conta Baiano.

Segundo o funcionário público, é comum as pessoas jogarem sacolas com lixo no terreno. “Sou curioso e sempre recolho o lixo que jogam aqui. Mas, geralmente, quando vou colher os produtos, vou primeiro no fundo do terreno e hoje (ontem) não, parecia que tinha algo que me guiava para a pilha de madeiras. Não foi agradável, mas tem que encarar a situação”, relata o funcionário público.

No fundo do terreno, havia marcas de fogueira. “Tinha uma caixa de sapatos, de papelão, um pouco queimada. Deve ter sido ali que tentaram queimar o corpo, mas o feto não queimou todo, foi mais na cabeça. Dentro da caixa, ainda estava a placenta e muito sangue. Talvez tenham desistido de queimar e colocaram o corpo na sacola”, supõe Baiano.

Um dos funcionários da Casan disse ter visto uma mulher na tarde de quarta-feira dentro do terreno. “Na hora, ele não deu bola, pensou que fosse a minha esposa ou outra vizinha. Hoje (ontem), é que ligou os fatos, pode ser que não tenha nada a ver também”, diz Baiano.

Laudo do IGP indica um aborto

O feto encontrado ontem pela manhã em Capivari de Baixo era mesmo de um menino, com sete meses de gestação. As informações fazem parte do laudo da necropsia realizado ainda ontem, pelo médico Volnei David Pereira, do Instituto Geral de Perícias (IGP). O exame constatou ainda que o feto nasceu morto. Somente as costas não foram queimadas.

O resultado da perícia norteará os trabalhos da Polícia Civil de Capivari de Baixo. O delegado responsável pelo caso, Daniel Garcia, trabalhava até ontem, antes do laudo ser concluído, com duas linhas. “Se a criança tivesse nascido viva, poderia indicar um parto induzido ou prematuro seguido por infanticídio, ou seja, a morte da criança. Como nasceu morto, isso indica que foi um aborto, o que muda a nossa forma de agir”, explica o delegado.

Ainda ontem, o delegado recebeu a lista com as gestantes que são acompanhadas em postos de saúde do município e de Tubarão. “Pode ser também que seja uma mulher que tenha escondido a gravidez. Vamos retomar as investigações amanhã (hoje), seguindo esta linha do aborto”, afirma Daniel.

A legislação brasileira prevê que o aborto só pode ser realizado em três situações: gestação causada por estupro; feto anencéfalos; e casos em que a continuidade da gravidez indique risco à vida da mãe. Em outros casos, o aborto é crime com punição de um a três anos de detenção para a mãe e de um a quatro anos para quem auxilia na interrupção da gravidez.

Crimes com crianças chocam opinião pública

O caso do feto de sete meses encontrado em Capivari de Baixo deixou os moradores da cidade chocados. O funcionário público Geraldo Francisco da Rocha, o Baiano, que encontrou a sacola com o menino, ficou impressionado. “Em 58 anos de vida, nunca vi nada igual, nem gostaria de ter visto também. É muito triste”, desabafa.

Para o médico psiquiatra Braúlio Escobar, de Tubarão, é difícil analisar uma situação desta. “É muito difícil fazer qualquer avaliação sem conhecer o contexto todo, não sabemos o que de fato houve, se a mãe foi obrigada, qual o histórico psiquiátrico dela. As investigações da polícia é que poderão esclarecer os detalhes”, afirma. Segundo ele, o crime causa impacto por envolver crianças. “Pelos valores da nossa sociedade, a criança tem que ser protegida e, quando ocorre uma agressão, ficamos chocados, a nossa reação é repudiar estes atos violentos”, diz o psiquiatra.

De acordo com Braúlio, o fato de cometer um crime como assassinato pode indicar que há algo errado. “Há casos que são puramente criminosos ou em decorrência de alguma doença psíquica anterior. Há estudos que mostram que uma a cada cinco mulheres grávidas apresenta quadros de depressão pós-parto, porque a oscilação hormonal é muito grande. Esse desequilíbrio hormonal pode causar alucinações e a mãe pode ver a criança como um problema, uma ameaça, e pode tentar agredir ou abandonar o filho. Já abortos, podem ser consequência de pressões sociais, como uma gravidez indesejada, ou outras particularidades que dependem do contexto”, explica Braúlio.