Sem recursos garantidos, agremiações dizem que não há mais condições para apresentarem-se no próximo mês. Para a prefeitura, nem tudo está perdido

Absurdo: o sambódromo, que custou R$ 3,4 milhões, só chegou a ser usado pelas escolas até 2013 - Foto:Marco Bocão/Divulgação/Notisul
Absurdo: o sambódromo, que custou R$ 3,4 milhões, só chegou a ser usado pelas escolas até 2013 – Foto:Marco Bocão/Divulgação/Notisul

Willian Reis
Laguna

A Liga Independente das Escolas de Samba de Laguna (Liesla) afirma que não há mais condições para que ocorram os desfiles no Carnaval deste ano. Os diretores das cinco agremiações chegaram a este consenso durante reunião na segunda-feira à noite.

O encontro ocorreu após a informação de que o governo do Estado havia aberto o programa de transferência de recursos para a realização do Carnaval em Santa Catarina. São R$ 4 milhões para serem distribuídos aos municípios que inscreverem propostas e estiverem aptos a receber o aporte estadual. Porém, o dinheiro só pode ser utilizado em infraestrutura, como arquibancada, sanitários químicos e serviços de segurança.

Na prática, a exigência do Estado inviabiliza a realização dos desfiles das escolas de samba em Laguna, conforme explica o presidente da Liesla, João de Sousa Júnior. Se por um lado pode haver recursos para infraestrutura, por outro não se sabe de onde viria o dinheiro para custear a produção de fantasias e alegorias para a apresentação oficial. “Não sabemos nem quando Laguna vai receber este dinheiro para a tal infraestrutura. Mas não vamos oficializar a nossa decisão.

Esperamos que o prefeito (Mauro Candemil, PMDB) venha dizer que não tem condições”, aguarda Sousa Júnior. “Para a liga das escolas, não vai ter mais desfile. Não tem como”, garante o presidente.

O secretário-adjunto de Turismo de Laguna, Manoel Francisco Leal, confirma a informação de que o dinheiro disponibilizado pelo Estado não é destinado para escolas. Leal descarta ainda a possibilidade de a própria prefeitura bancar os desfiles. “A prefeitura não tem condições. A situação não está favorável”, lamenta.

Mesmo com a desistência das agremiações, Leal diz que a secretaria de Turismo continua esperando que o Estado forneça recursos também para a realização dos desfiles. “Estamos trabalhando e correndo atrás disso, porque a nossa intenção é que ocorra. As escolas fazem parte da nossa história”, diz.

Leal garante que a limitação dos recursos estaduais à infraestrutura não afeta o Carnaval na Praia do Mar Grosso. O secretário-adjunto explica que os blocos, por contarem com o apoio de patrocinadores, não dependem de verbas públicas: “Eles garantem os trios elétricos e bandas. A prefeitura entra com a estrutura”. As escolas de samba são mais dependentes do poder público para realizar seus desfiles, o clima é de decepção. “Acho que foi a morte das escolas. Ano que vem vai ser pior ainda, até que alguém, na prefeitura ou no governo do Estado, mude de ideia”, critica Sousa Júnior.

Construído para as escolas, último desfile no sambódromo foi em 2013, agora, é só mais um elefante-branco em SC
No ano passado, a cidade ainda contou com o desfile das cinco escolas de samba. Com poucos recursos – foram R$ 60 mil para cada uma delas, a apresentação oficial, em tamanho reduzido, ocorreu no Centro, mas sem disputa pelo título.
Nos dois anos anteriores, não houve desfile por falta de dinheiro. Enquanto isso, o sambódromo Hindemburgo Moreira só chegou a ser usado pelas escolas até 2013, quando elas receberam R$ 150 mil cada para promover o Carnaval daquele ano.
Com mais um cancelamento, a estrutura, inaugurada em 16 de fevereiro de 2007 pelo então governador Luiz Henrique da Silveira, vê-se novamente subutilizada. A construção, iniciada em 2005, consumiu R$ 3,4 milhões do governo do Estado. Em 4,1 mil metros quadrados de área erguida, o complexo dispõe de 17 salas de aula e outras 25 de apoio, além de arquibancadas com capacidade para seis mil pessoas e uma pista de 180 metros para os desfiles.