Foto: Instituto Espaço Silvestre/Divulgação/Notisul

38 milhões. Este é número de animais silvestres vítimas de tráfico no Brasil por ano, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

O tráfico é configurado pela retirada de animais dos habitats naturais e destinados à comercialização, o que caracteriza a terceira maior atividade ilegal do mundo, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em Santa Catarina, o número é menor, mas o Instituto do Meio Ambiente (IMA) trabalha para reduzir ainda mais. De junho de 2019 a junho de 2020, foram resgatados no estado 1.417 animais vítima de tráfico. Destes, 1.008 foram destinados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas).

Como João e Maria. Ambos tucanos, chegaram em Florianópolis, no dia 8 de outubro e 14 de dezembro de 2019, respectivamente. A situação mais delicada era a do animal que foi carinhosamente chamado de João pela equipe do Instituto Espaço Silvestre, entidade que, em parceria com o IMA, faz a cogestão do local.

João e Maria receberam tratamento até retornarem juntos ao habitat natural, em 22 de março de 2020. Mesmo soltos, eles são monitorados para avaliar a adaptação à natureza e aos grupos de vida livre.

As espécies mais comuns vítimas do tráfico são as que têm o canto mais bonito e, assim, são vendidas por um valor mais alto. No Estado as maiores ocorrências são aves como trinca-ferro, canário, coleirinho, papagaio-verdadeiro, papagaio-de-peito-roxo (na lista de espécie ameaçada de extinção).

As regiões catarinenses onde há maior número de apreensões são Caçador, Itapema, Balneário Camboriú, Lages, Canoinhas, Tubarão, Joinville, Grande Florianópolis e Criciúma.

Além de serem retirados do habitat, o que pode comprometer irremediavelmente as características naturais, para serem comercializados, muitas vezes, os animais são transportados e mantidos em situações precárias. Para facilitar o tráfico e o cativeiro, são dopados para parecerem mansos, ou mutilados para não fugirem, como ocorreu com João que teve a asa cortada.

Por isso, todos os animais apreendidos são avaliados pelos técnicos e só quando constatado que estão saudáveis, são soltos. Outros são encaminhados para instituições parceiras para a reabilitação. E a maioria dos resgatados em Santa Catarina chega ao Cetas, localizado no Parque Estadual do Rio Vermelho, em Florianópolis.

 

O Cetas

Desde que assumiu a cogestão do Cetas, 1º de junho de 2019, a equipe do Instituto Espaço Silvestre recebeu e atendeu 3.239 animais, incluindo os que já estavam em tratamento no local pela gestão anterior.

Destes, 658 animais foram soltos. No entanto, mesmo com todo o tratamento, muitos animais não têm condições de retornar à natureza devido a alguma debilidade física, pelo comportamento dócil, que não reverteu após treinamento, ou por ser espécie exótica invasora.

Por isso, além da soltura, existem outros encaminhamentos como transferências para empreendimentos legalizados, repatriação para reabilitação para soltura no local de origem, devolução para o proprietário no caso de animais legalizados, doação no caso de animais domésticos, eutanásia quando o animal fica com sequelas tão profundas que não há mais condições de vida. Há ainda casos em que a situação de saúde não consegue ser revertida e o animal vem a óbito.

Atualmente, 393 animais estão em reabilitação. Todos eles passam por exames veterinários e laboratoriais, além de reabilitação comportamental. Mas a soltura depende de como respondem a esse processo, da disponibilidade de área de soltura ou de repatriação.

Há animais que ficam alguns dias (no caso de soltura imediata em que o animal chega sem nenhum problema) e outros que estão há mais de um ano em tratamento. Os que estão há mais tempo são primatas (sagui, macaco-prego e bugio) e psitacídeos (família dos papagaios e araras).

Um dos animais que mais chama a atenção é um filhote gavião, recebido recentemente após ficar ferido ao colidir com uma vidraça. Com coloração excêntrica que imita a de um gavião-pato (adulto) é conhecido popularmente como gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis).

A situação dos animais ao chegar varia, mas são frequentes os casos de violência humana, os que apresentam fraturas devido a tiros, vítimas de atropelamentos, feridos a pauladas ou por envenenamento. Há ainda registros de animais silvestres atacados por cães e gatos.

 

Tráfico é crime

A Lei n. 9.605/98 que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente estabelece que é crime “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida”. A pena é detenção de seis meses a um ano, e multa.

Ainda segundo a lei são consideradas espécimes da fauna silvestre todos aqueles pertencentes às espécies nativas, migratórias e quaisquer outras, aquáticas ou terrestres, que tenham todo ou parte de seu ciclo de vida ocorrendo dentro dos limites do território brasileiro, ou águas jurisdicionais brasileiras.

Em Santa Catarina, o IMA e a Polícia Militar Ambiental, com apoio da Polícia Civil, vem intensificando o controle e a fiscalização de animais silvestres. Em 2020 já foram realizadas em conjunto três operações de fiscalização.

Todo cidadão é fiscal e pode denunciar alguma situação considerada irregular com relação à fauna silvestre. A denúncia deve ser feita pelo telefone 190.