Bastou que fosse divulgado que uma pesquisa analisa o uso de remédios à base de hidroxicloroquina no tratamento do coronavírus para o medicamento rapidamente esvair das farmácias em Porto Alegre. Em uma busca ensandecida pelo medicamento, os clientes ignoram que o produto ainda está em fase de testes e deve ser utilizado por quem já tem casos confirmados da doença.

Na farmácia onde Marcos Sulivan é gerente, o remédio tem normalmente uma saída bastante lenta, o que mudou na quarta-feira. “Costumamos vender dois por mês. A procura aumentou mais de 100% e nosso estoque acabou em um dia.” Segundo ele, de nada adiantava avisar aos clientes que o remédio é testado para tratamento e não de forma preventiva. “As pessoas compram ele para se prevenir. E ele está sendo testado para quem já tem a doença.” De acordo com Sulivan, o governo federal determinou que o remédio não seja entregue para as farmácias regulares, já que os estoques serão direcionados aos hospitais.

Enquanto as compras disparam, quem utiliza o remédio de forma contínua acaba ficando sem. O produto é prescrito para paciente com doenças como reumatismo, artrite, lúpus, problemas de pele, e também para malária. E é de uso contínuo para muitos pacientes.

Nas farmácias de manipulação ainda há estoques, porém a matéria prima subiu de preço vertiginosamente em menos de 24 horas. Farmacêutica e bioquímica em um estabelecimento do tipo na zona Norte de Porto Alegre, Sônia Nehme sentiu a subida abrupta dos preços.

“Ontem (quarta-feira) estávamos comprando a matéria prima com um preço quatro vezes acima do normal. Isso no fornecedor mais barato.” Em situações normais, a grama do produto é comprada a R$ 0,80, mas já na quarta-feira Sônia não encontrava nada abaixo de R$1,20. Alguns dos fornecedores vendiam a matéria prima a R$ 4.

Para frear a busca desenfreada atrás do produto, Sônia decidiu restringir a venda. “Estamos entregando apenas para quem já era nosso cliente ou comprove o uso contínuo. Também estamos priorizando os hospitais.” Ela diz que tem feito o possível para não repassar os valores de produtos aos clientes, seja do remédio a base de hidroxicloroquina  ou de álcool gel. “Não é hora de querer ganhar dinheiro, mas de ter solidariedade.”

Efeitos inconclusivos

A disparada em busca de medicamentos a base de hidroxicloroquina começou depois que cientistas americanos anunciaram, no início da semana, testes em 1,5 mil pessoas para verificar a efetividade do medicamento. A pesquisa liderada pela Universidade de Minnesota segue o que já vinha sendo feito em outros países, porém até o momento ela ainda não tem resultados comprovados.

Com a corrida atrás do produto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou nesta quinta-feira uma nota para esclarecer os procedimentos em relação ao medicamento. No texto, a Agência esclarece que “apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desses medicamentos para o tratamento da Covid-19.  Portanto, não há recomendação da Anvisa, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção.” A nota também deixa claro que não é recomendável a automedicação, a qual pode causar ainda mais problemas de saúde.