Nudes. Crush. Hashtag. Emoji. Hater. A testa franze quando as sobrancelhas brancas se contorcem, sob a estranheza de ouvir termos tão “moderninhos”. Aos 91 anos, Cid Moreira faz pesquisas no Google e acompanha influenciadores digitais para aprender a lidar melhor com o universo das redes sociais. 

Adepto do Facebook e do YouTube há algum tempo, mas com menor interesse, o ícone da comunicação brasileira passou a estabelecer contato direto com seus seguidores pelo Instagram há cinco meses, com a ajuda da mulher, a jornalista Fátima Sampaio Moreira, de 55. A pedidos — e são muitos! —, “Cidão”, como eles o chamam, grava vídeos parabenizando os aniversariantes do dia e os fãs que vão se casar. Também revela cenas curiosas de seu cotidiano, como uma sessão de hidratação corporal depois da sauna caseira, e um lanche lambuzado de manga madura. Em meio a posts com textos otimistas, tem reaparecido nas últimas semanas de terno e gravata — agora, na telinha do celular —, relembrando passagens de sua marcante carreira na TV Globo. Neste 5 de maio, completam-se exatos 50 anos da assinatura de seu contrato com a emissora carioca, onde estreou quatro meses depois, em 1º de setembro de 1969, à frente do “Jornal Nacional”.

— Ainda sou funcionário da casa, mas só tenho feito trabalhos esporádicos de locução, quando solicitado. No meu dia a dia, me dedico ao Instagram. Sou um homem de fases, me adapto às novidades. Já dei minha contribuição a rádio, cinema, teatro e TV. Agora, sou da internet. Quando entro em alguma coisa, vou fundo — avisa o paulista de Taubaté, contador por formação, jornalista por paixão: — Sempre atuei como locutor, narrador, âncora. Não sou redator, mas conheço um bom texto. Gosto de interpretar. Agora, estudo poemas de domínio público. Vou gravá-los e postar no meu IGTV (plataforma do Instagram voltada para vídeos longos), para quem se interessar.

Revezando-se entre temporadas no Brasil e na Flórida (EUA), onde também tem uma casa, Cid recebeu a equipe do EXTRA em seu recanto de Itaipava, distrito de Petrópolis, na Região Serrana fluminense. Aquele engravatado apresentador que marcou o cotidiano dos brasileiros por 27 anos com seu incomparável “Boa noite” atualmente mostra-se um homem diurno, já entregue às informalidades.

— Terno, só uso para apresentar eventos, de vez em quando. A gravata, eu aboli, não gosto. Estava sem fazer a barba há uma semana. Eu vou deixando… — confessa Cid, que conversou, entre outros assuntos nesta reportagem, sobre vaidade, fama, amor, família e religião, lembrou histórias curiosas e, como não poderia deixar de ser, encarnou sua porção blogueirinho em memes para as nossas redes sociais… #Gratidão, Cidão!

Amor duradouro

“Eu e Fátima nos conhecemos em Fortaleza (CE), há 19 anos. Fui participar de um torneio de tênis de gente importante. Ela era repórter de uma revista de celebridades. Comecei a conceder ali a entrevista mais longa da minha vida… As perguntas continuam até hoje (risos)”.

‘Instagrammer’

“Eu já tinha ouvido falar no Instagram, mas não dava bola. Aí, no fim do ano passado, um conhecido me alertou para a importância de criar um perfil, e me entusiasmei. Em janeiro, viajei para a Flórida e encontrei o Fred, jogador de futebol, na sala VIP do aeroporto. Ele gravou um vídeo comigo e, só no caminho para o avião, ganhei uns cem mil seguidores. Atualmente, são 253 mil. Só que o Instagram está demorando muito para me conceder o selo azul (de verificação de conta), e os fakes se passam por mim… Tive que me inscrever como @ocidmoreira porque já tinha um usando meu nome e outro se dizendo oficial… Fátima me ajuda com as publicações, me atualiza de tudo. A gente troca ideias e ela faz os textos. Essa história de ‘hashtag’ pega, né? O meu ‘boa noite’ também marcou. Na minha época, era pouco usado, tinha mais valor. Hoje, avacalharam”.

Com humor

“Eu sou meio tímido, meu humor fica no meio termo. Mas estou mais solto, fazendo certas brincadeiras, os seguidores adoram. As pessoas gostam de fazer reuniões em almoços. Eu, quando estou comendo, não falo nada porque mastigo muito bem. Por isso, fico calado nos vídeos que Fátima faz de mim nas refeições. Você tem que ser o que é, até nas redes sociais. Já vi coisas ridículas na internet”.

Haters

“Tenho uma rejeição mínima no Instagram. E prefiro nem tomar conhecimento das besteiras que falam. Não adianta, né? Se nem Cristo conseguiu agradar a todo mundo, quem sou eu?”

Rotina

“Acordo entre 8h30 e 9h, sem despertador (de 15 em 15 dias, ele e Fátima mudam de lado na cama, para estimular o cérebro). Aí, vou para o computador e fico focado, estudando a Bíblia e os poemas. Quando tenho gravação encomendada, me comunico pelo WhatsApp com a equipe e mando pronto pela internet. Antigamente, tinha que correr de estúdio em estúdio. Era trânsito, atraso, um horror! Agora, faço de casa. Às 13h, almoço. Em seguida, volto para os meus afazeres no computador. Às 17h, faço caminhada na esteira por 40 minutos e um pouco de musculação. A fisioterapeuta vem três vezes por semana fazer Pilates comigo. Aí, sigo para a sauna e tomo uma ducha gelada, com água da montanha. À noite, fico assistindo a séries e filmes na Netflix, igual ao Silvio Santos. E me deito até as 23h30, no máximo”.

Nostalgia zero

“Sinceramente, tenho visto pouco o ‘Jornal Nacional’… Acompanho o noticiário mais pela internet, embora goste de ler o jornal impresso. Quando me perguntavam: ‘Até quando você vai ficar aí no JN?’. Eu respondia: ‘Até quando Deus quiser’. Pelo meu gosto, eu não teria saído, mas chega um momento em que não dá mais. Não tenho saudades. O que ficou pra trás, ficou. Sou ‘Guinness Book’: foram 27 anos na bancada. (William) Bonner já está com 21, tem tudo pra bater o meu recorde”.

De bermuda na bancada

“Isso já virou folclore! Só aconteceu uma vez, num carnaval. Choveu e não deu tempo de eu passar em casa para trocar a roupa. Entrei no ar com paletó, camisa, gravata e bermuda na parte de baixo”.

Paixão por cinema

“Desde garoto, sou apaixonado por cinema. Fazia de tudo para entrar em um! Cheguei a juntar esterco, ferro-velho e frutas para vender e conseguir dinheiro para ir. Não sei como não virei cineasta ou ator… Uma vez, me fizeram uma proposta para ser galã num filme que ia ser rodado nas Agulhas Negras (em Resende, interior do Estado do Rio). Perguntei sobre o cachê, mas não valia a pena. Eu ganhava muito mais nas gravações de comerciais”.

Eterno garoto-propaganda

“No início, televisão para mim era um ‘bico’. É difícil estabelecer um paralelo, mas era como se eu trabalhasse como apresentador por um salário de R$ 1 mil e levasse R$ 20 mil na publicidade. Agora, com essa crise que estamos vivendo, o salário ó… deu uma enxugada. Então, consegui a liberação para voltar a gravar comerciais. Meu contrato com a Globo termina em 31 de agosto. No dia seguinte, o ‘Jornal Nacional’ faz 50 anos no ar”.

Vício passageiro

“Fui a voz de uma marca de cigarro por muitos anos. Cheguei a fumar, mas não tragava. Só fazia porque era elegante, estava na moda. Só que eu detestava o cheiro do cigarro. Vivia com uma caixinha de sabonete, lavando as mãos sempre depois que acendia um”.

Vozeirão

“Meu irmão, Célio Moreira, ganhou fama na TV antes de mim por causa da voz. Ele dublava os bonequinhos do Borjalo, um caricaturista, e a Zebrinha, do ‘Fantástico’. Eu penei muito com esse meu timbre, porque na rádio meus colegas sempre tinham a voz mais aguda, e eu me sentia na obrigação de acompanhá-los no tom, forçando a garganta. Já perdi a voz várias vezes, sentia muita dor de garganta, mas nunca tive calos nas cordas vocais. Antigamente, levava comigo um pouquinho de sal num tubinho de madeira. Lembro que Chico Anysio sempre me pedia uma pitada. Certo dia, apresentando a cantora Elizeth Cardoso na rádio, ela me indicou o cravo-da-Índia. Experimentei e achei melhor do que o sal. Só que ganhei uma gengivite. Depois, descobri o gengibre, o melhor de todos. Estou sempre mascando um pedaço (Cid abre a boca e mostra). É adstringente, faz bem. Hoje em dia, tenho pleno domínio da minha voz. Está muito melhor aos 90 do que aos 60”.

Assédio feminino

“Não fui muito namorador, mas levei fama. Tanto que fui premiado com uma espada de madeira pelos colegas de trabalho. Houve um cinegrafista do extinto Canal 100 (um cinejornal) que se fazia passar por mim. Ele teve um lance em Juiz de Fora (MG) e arrumou um filho. Anos depois, a mulher veio me cobrar a paternidade. Só que eu nunca nem tinha estado na cidade dela! Os dois testes de DNA deram negativo, é claro. Tenho um filho de sangue e outro adotivo. Tinha uma filha também, que morreu por enfisema pulmonar. Jaciara fumava muito, mas tinha uma voz sensacional”.

Vaidade

“Sempre me cuidei, desde garoto. (Aqui, Fátima interfere: “Geralmente, as pessoas mais velhas ficam desanimadas, com um cheirinho ruim, se não tomar cuidado. Cid, não! Faz sauna todo dia, adora perfumes, se cuida com prazer. Ele tem tanta mania de limpeza, que não só escova os dentes e passa o fio dental, como usa aqueles ferrinhos só utilizados pelos dentistas. Comprou uma coleção!”). Sabe que, quando eu era pequenininho, meu pai me levava para cortar o cabelo e o barbeiro dizia que eu já tinha fios brancos. Já na TV, comecei a usar Seiva de Mutamba (produto para escurecer os cabelos) para deixá-lo com cor de breu. Depois, parei com esse negócio. Meus cabelos brancos viraram uma marca. Lavo com sabão de coco”.

Plásticas

“Está vendo esse vinco aqui na minha testa? Uma vez, me disseram que ele me deixava mal-encarado no vídeo. E recomendaram um médico que injetava um material que tirava isso. Era silicone líquido! Eu, na ignorância, fui. Aquilo desceu no meu rosto e formou uma bola perto do olho. Fiz umas quatro cirurgias para solucionar o problema. Mas, por estética, não fiz plásticas”.

Espiritualidade

“Sempre que fazia palestras, as pessoas queriam saber qual igreja eu frequentava. Sempre disse: sou cristão, filho de Deus. Meu trecho favorito da Bíblia é o “Coríntios 13”, que fala do amor. Dos sete pecados capitais, passo longe da preguiça. Nunca me acomodei. Sempre fui um cara muito protegido por Deus. Acho que ele cuidou de mim só para eu gravar a Bíblia inteira… Foram seis anos intensos de trabalho. Convidei grandes oradores, como o (locutor esportivo) Luciano do Valle, e gente anônima para participar. Evangélicos que faziam shows para multidões tremeram! Não tinha cachê, eu ensaiava as pessoas. Sou bem autocrítico, acho que ficou um pouco a desejar. Se tivesse condições, gravaria a Bíblia toda de novo. Só falta alguém que financie. Acho que agora conseguiria fazer tudo em um ano. É minha missão levar esses textos ao mundo”.

Morte

“Não tenho nenhum medo de morrer. No meu documentário (“Boa noite”, dirigido por Clarice Saliby e narrado pelo próprio Cid), que vai ser lançado nos cinemas no dia 29 de setembro (aniversário dele), conto coisas surpreendentes. Fico até arrepiado, só de lembrar! Sempre que gravo trechos da Bíblia, sinto como se me fizessem uma massagem dos pés à cabeça. É uma coisa incrível! Sei lá, de alguma forma, acho que sou merecedor disso… Presenteei com minha gravação da Bíblia um amigo — profissional famoso, mas não vou falar quem —, em estado terminal. Perguntei se ele acreditava em Deus. Ele disse que não. O que eu posso fazer? Essa minha crença me traz a tranquilidade que preciso para tudo o que ainda está por vir”.