Com funções neurológicas comprometidas desde o nascimento, Priscila Gonçalves é uma das paratletas tubaronenses com Paralisia Cerebral (PC). Por afetar o desenvolvimento tanto motor, quanto cognitivo, a esportista não consegue falar. É por isso que quem para e observa os treinos, fica admirado.

“Ela é bem expressiva”, afirma a treinadora Aline Crescêncio. Juntas há três anos, as duas trocam olhares, sorrisos, aprendizado e se entendem muito bem. “O segredo é ter empatia e paciência”, revela a professora, que prescreve os treinos para a cadeirante semanalmente.

E não é só na preparação que Aline está envolvida. Da ida ao banheiro ao acesso à porta de entrada, a técnica cuida para que Priscila possa se sentir confortável e aceita. É por isso que o lugar onde é realizado o treinamento também é tão importante. “Atualmente estamos fazendo as atividades todas as segundas e sextas-feiras, às 7h30, na Arena Multiuso, que é superacessível”, explica a treinadora. Diferente de outros lugares com degraus e obstáculos, ali não há desafios quanto acessibilidade e tarefas como lavar as mãos na pia ou passar a cadeira de rodas nas portas podem ser feitas de forma tranquila e até sozinha pela paratleta.

O mais curioso a se destacar ainda é a independência que Pri possui. Como a cadeira de rodas é motorizada e a paralisia não afeta as mãos e parte dos braços, transitar para lá e para cá a tornam tão ágil quanto qualquer outro ser humano. Durante as partidas da Bocha Paralímpica, por exemplo, ela vai até as bolinhas à frente, observa como melhor pode efetuar a jogada, se posiciona e realiza o arremesso. Tudo isso sem a ajuda de ninguém. Quanto os objetivos desta temporada, o alvo principal são os Jogos Paradesportivos de Santa Catarina (Parajasc), que serão realizados entre os dias 23 e 28 de setembro e, até o momento, sem local definido pela Fesporte.

Vaidade

“O que tem de determinada, tem de vaidade”. Ao ouvir a frase, Priscila sorri e tampa os olhos com as mãos. Brinco, pulseiras, anel e perfumada. É assim que ela vai treinar. Até a cestinha que ficam as bolinhas da modalidade ganham um toque especial. “Cada um encontra uma forma de prender o cesto no colo. A Pri usa uma fitinha desde sempre”, descreve Aline.

Inspiração

Em mais um dia de treino na Arena Multiuso, o jogador do Tubarão Futsal Joãozinho ganhou um impulso diferente de motivação. Passando pelos corredores, encontrou Priscila e a professora Aline e logo as cumprimentou. Para ele, o episódio chamou atenção. Não pela cadeira de rodas, tão pouco pela deficiência e sim pela simpatia. “Assim que dei bom dia ela sorriu e acenou. Como foi boa a sensação, ver que alguém como eu, um atleta, está lutando pelo seu sonho, disposto a encarar uma rotina de treinos. Fez até lembrar da minha família, o grande porquê de eu lutar pelo meu sonho”, revela o camisa 11.

A modalidade

A bocha paralímpica é uma modalidade que abre portas para pessoas com grau severo de comprometimento motor e/ou múltiplo e está em mais de 50 países em todo o mundo. Ela pode ser jogada individualmente, em duplas ou em equipes, e é mista, ou seja, homens e mulheres competem juntos.

Além de atletas PC, podem participar das partidas pessoas com outras deficiências, desde que as mesmas estejam de acordo com as regras estabelecidas. A Bocha Paralímpica é composta por 4 classes: BC1, BC2, BC3 e BC4. (Fonte: ANDE – Associação Nacional de Desporto para Deficientes)