Amanda Menger
Tubarão

O cenário é desolador, quase 100 mortes (dado oficial), milhares de desabrigados e mais de 1,5 milhão de pessoas atingidas. As chuvas deixaram um rastro de destruição em Santa Catarina. E em um momento como este um outro episódio vem à memória dos tubaronenses: a enchente de 1974. Não é para menos, a cidade ficou arrasada.
Nestes 34 anos, em diversas oportunidades, especialistas apresentaram estudos mostrando os riscos de novas enchentes e o impacto que teriam na cidade. E até hoje, pouca coisa foi posta em prática.

“Sabemos que há um ciclo para ocorrência de novas enchentes. Blumenau passou por uma grande enchente em 1983 e outra agora. O intervalo delas foi bem menor do que o de Tubarão. Embora não seja possível evitar a catástrofe, os seus efeitos podem ser reduzidos e estamos pecando neste sentido”, alerta o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão, Dionísio Bressan Lemos.

A advertência é feita também pelo engenheiro sanitarista e ambiental Léo Goularte. “Desde 1974, foram feitas diversas recomendações e a maioria não foi seguida. Dentro da Agenda 21 do município, há um capítulo sobre a Defesa Civil, isso não foi posto em prática. É o momento para revermos as atitudes”, sugere.
Para o engenheiro químico e pesquisador dos índices pluviométricos na Bacia do Rio Tubarão, Rafael Marques, o clima já se mostrou favorável a novas enchentes. “Temos um dado estatístico que mostra a possibilidade de enchentes. Estamos em um ponto crítico. Neste fim de semana, passamos perto, isso porque não choveu muito nas cabeceiras no rio”, afirma Rafael.

E os especialistas fazem não apenas um alerta, como também sugerem propostas. Entre elas: a formação de uma rede de monitoramento das chuvas e cheias dos rios; regulamentação do uso do solo nas áreas consideradas de risco; melhoramentos no sistema de drenagem; estruturação da Defesa Civil do município (equipamentos, treinamento, material de auxílio).

Uso do solo ainda não foi discutido

“Tubarão é uma cidade que tem uma topografia propícia a enchentes”. A afirmação é do coordenador da Defesa Civil do município, Edvan Nunes. Isso porque o município possui áreas muito baixas, de várzea, e outras de morro. E todas as duas apresentam riscos e estão ocupadas de forma desordenada.

Para o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão, Dionísio Bressan Lemos, é preciso aproveitar o momento para discutir o uso do solo e as audiências de elaboração do Plano Diretor são fundamentais. “Devemos aproveitar a fase de discussões do novo Plano Diretor e sermos rigorosos quanto ao uso do solo para construção de moradias. Sou favorável, inclusive, a proibir a construção em alguns locais. A maioria das mortes desta enchente ocorreu por deslizamentos de encostas, precisamos prevenir isso”, propõe.

O vereador Edson Firmino, representante da câmara no Núcleo Gestor do Plano Diretor, afirma que esta fase de discussões sobre o uso do solo não começou ainda. “Não discutimos especificamente a utilização do solo. Mas há uma preocupação sobre a ocupação destas áreas consideradas de risco. Sugiro já levantar essa discussão na próxima reunião, que ocorrerá em dezembro”, compromete-se Edson. O plano diretor ainda é elaborado e só deverá ser aprovado pela câmara no segundo semestre de 2009.

Um exemplo de área de risco é o Morro do Bem-Bom. O local foi ocupado há algumas décadas, mas não possui infra-estrutura adequada. “Já reclamamos várias vezes da rua, onde não sobe ambulância, por exemplo. No fim de semana, isso aqui parecia uma cachoeira, chegou a entrar água em uma casa. Graças a Deus não aconteceu nada mais grave”, relata uma moradora.

Rotary’s Club, entidades e empresas estão engajados em campanha de arrecadação

Tatiana Dornelles
Tubarão

O povo tubaronense é bastante solidário. Prova disso é a sensibilização da população com os milhares de desabrigados devido ao desastre natural que assola alguns municípios de Santa Catarina. E para ajudar os necessitados, campanhas de arrecadação de donativos são realizadas na cidade.

Os Rotary’s Club de Itajaí, Balneário Camboriú e Blumenau pediram auxílio às entidades da região, que, em reunião ontem à tarde, decidiram deflagrar uma campanha para arrecadar donativos em prol das vítimas do desastre. “Disseram que o estado destas cidades é pior do que se imagina. Resolvemos, então, fazer nossa parte. Unimos vários representantes e estamos engajados na campanha”, conta a advogada Silvana Zardo Francisco, integrante do Rotary Club Tubarão Luz.

Entre os produtos que podem ser doados, estão água mineral, fraudas, mamadeiras, leite em pó ou em caixa, produtos de limpeza, alimentos não perecíveis (cesta básica) e bolachas. “Não adianta doar alimentos que precisam ser preparados, pois não há onde fazer a comida. Por isso, bolachas são necessárias. Além disso, as pessoas têm que doar roupas que não precisam ser lavadas, limpas”, orienta o gerente da empresa Back e representante do Rotary Club Tubarão Cidade Azul, Fábio Cardoso.

Os postos de arrecadação são Farol Shopping; sala da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na Casa da Cidadania e sala da OAB da Justiça Federal de Tubarão; agência de passagens da empresa Santo Anjo da Guarda (rodoviária nova); Sindicato dos Bancários de Tubarão; Notisul; Empresa Back de Vigilância. Mais informações podem ser obtidas nestes locais. Também aderiram ao movimento: Corpo de Bombeiros Tubarão, Rotary’s Club de Tubarão e Capivari e Sindicato dos Bancários de Tubarão.

Nove casas estão em situação de risco

Zahyra Mattar
Imbituba

Com os dois últimos dias de sol, a prefeitura de Imbituba deu início ontem à recuperação das estradas afetadas pelas chuvas. Cinco das sete famílias que ficaram desabrigadas na cidade também puderam retornar para o que sobrou de suas casas. Outras duas famílias (quatro adultos e cinco crianças) continuam no centro de convivências. As 60 pessoas desalojadas também já começaram a retornar para casa ontem.

A atenção especial está para novas casas de madeira feitas em áreas invadidas. Todas correm risco de desabar. O que será feito para ajudar estas pessoa será decidido hoje, em uma nova reunião entre vários setores da prefeitura e Defesa Civil do município. O maior rastro de destruição, porém, é encontrado nas ruas da cidade. Praticamente todos os bairros tiveram algum tipo de prejuízo. Cerca de 12 mil imbitubenses foram atingidos indiretamente por conta da chuva.

A estimativa é que a situação nas estradas seja normalizada em cerca de duas semanas. Ontem, um cronograma foi estabelecido para elencar as prioridades. Nos próximos dias, o maquinário e equipes da prefeitura trabalharão na avenida Brasil, bairro Paes Leme, Canto da Praia da Vila, avenida Porto Novo (praia do Rosa) e Itapirubá.

Laguna
Nos últimos dias, o mar está agitado com os fortes ventos, impulsionado por correntes marítimas também no litoral sul catarinense. Em Laguna, a ressaca já dura cinco dias. Como o canal da Barra dos Molhes serve como foz de rios da região (a exemplo do rio Tubarão e Dunas, por exemplo), o número de entulhos trazidos pela correnteza invadiu todas as praias da região.

As ondas ultrapassam os dois metros de altura. A pior situação está no Mar Grosso, onde, conforme estimativa da prefeitura de Laguna, mais de 100 caminhões carregados de lixo deverão ser retirados nos próximos dias. Nas praias do Gi e do Sol, o acúmulo de sujeira também é grande. A prioridade, porém, é o Mar Grosso, já que na próxima semana ocorre o evento Moto Laguna, que marca a abertura da temporada de verão.