Adriana Baldissarelli*
Florianópolis

Notisul – Com que sentimento você recebeu essas notícias, primeiro do indiciamento pela Polícia Federal e, depois, da denúncia pelo Ministério Público?
Pavan
– Teve duas etapas. Uma quando fui convidado para depor, e fui de livre e espontânea vontade, com o desejo de colaborar com qualquer tipo de investigação que pudesse ocorrer. A segunda é a execração do indiciamento de algo que realmente não cometi. O indiciamento saiu na imprensa sem eu ser comunicado. Isso me deixou muito sentido. Eu deveria ter sido pelo menos comunicado, até porque era segredo de justiça.

Notisul – No momento em que prestou depoimento você não sabia que poderia ser indiciado?
Pavan
– Primeiro: se eu tivesse sido avisado que estava indiciado, como estão dizendo agora, nem deveriam me convidar para depor. Afinal, já estava indiciado… Como me indiciar para depois me ouvir? O indiciamento oficial eu soube pela imprensa.

Notisul – A decisão do TJ, de não aceitar o pedido de nulidade da denúncia nem do inquérito, o preocupa?
Pavan
– Isso são estratégias de advogados. Eu não sou advogado e muito menos criminalista, eu sei advogar para o povo, dentro do governo, através do meu trabalho. Eu sei o que é atender as pessoas. São estratégias de advogados. Eu ouvi do meu advogado e de amigos que houve alguma precipitação de ambos os lados. Mas eu não acompanho essa questão da justiça. É o advogado que resolve.

Notisul – Na denúncia, você é o único ‘capitulado’ no Artigo 327, que trata de promessa ou vantagem indevida. Você recebeu os R$ 100 mil?
Pavan
– É isto, a minha indignação é esta. Não aquela de dizer que eu atendo as pessoas. Eu atendi e vou continuar atendendo, senão vou ter de fechar meu gabinete. A minha indignação é esta: por acharem, porque alguém falou, porque entre eles (os empresários envolvidos) falaram; prejulgam a minha honra, prejulgam todo meu trabalho. Esta é minha decepção quanto a todos estes atos. Jamais ocorreu isto com essas pessoas. Muito menos as chamadas fotos e vídeos que falaram que tinham.

Notisul – Não existem?
Pavan
– Não existem. Primeiro, porque não existiu nenhum ato, nem por parte deles (dos empresários) de oferecimento a minha pessoa. Então, não existiu foto e vídeo. Seria fato inédito na República brasileira, alguém pagar para depois ser beneficiado. Só consigo imaginar isto. Como pode? Se os documentos não foram liberados, se até hoje eles continuam em débito, se até hoje devem. Na certidão do governo estão em débito. Nunca o governo retirou um ‘ai’ na sua posição de seriedade. As reivindicações que eles fizeram são feitas todos os dias. E o que faz uma pessoa que tem a autoridade que eu tenho? Encaminha para os setores competentes. Aí você fala assim: “então tá. Tá bom, pode deixar. Vamos ajudar”. E você para encaminha os setores. Se é questão de tributos para a fazenda, se é educação para educação, saúde para a saúde. Este é um fato normal para quem comanda, quem detém um mandato. Agora, às vezes, você tenta dizer: “já resolveram, não resolveram, como é que é?”. Isto porque você precisa dar respostas para a sociedade. E as pessoas que falam comigo – são centenas que me procuraram, aliás, eu tenho quase 300 audiências atrasadas, porque a média é de dez a 15 por dia -, todos os que me procuraram para pleitear alguma coisa, encaminho para os setores. Ou, na hora, telefono, para não acumular. Se você não resolve, acumula, como este caso. Ficou acumulado porque não se resolvia, porque não dava para resolver. Então, eles ficavam insistentemente alegando prejuízos e perseguições. Como eu não sou juiz, eu não vou dizer se eles têm ou não razão. Onde está o fato concreto, se o governo não atendeu ao pedido deles? E olha que eu, como vice-governador, poderia usar da minha autoridade para isso. Não fiz. Não faço. Mas não deixo de ouvir o pleito de qualquer pessoa. Esta é uma forma de atender. Eu lamento muito que pegaram essas interpretações, conversas de terceiros, sei lá por quais motivos, pegaram para usar isso como crime.

Notisul – A que você atribui esse episódio à véspera de assumir o governo?
Pavan
– Cada vez que chega próximo de uma eleição, ocorre isso. Pode olhar o histórico político. Sempre surgiram acusações duríssimas contra a minha pessoa e contra a minha família. E muitas daquelas sequer deram encaminhamento na justiça. Sequer houve denúncia. E, em todas aquelas que foram denunciadas, provei minha inocência. Nunca fui punido. Nunca em toda a minha história de vida pública, seja como vereador, prefeito (três vezes), deputado federal, senador, vice-governador, fui punido. Penso que este episódio também tenha motivação política. Basta ver alguns blogs na internet. Mas não quero envolver aqui nem a Polícia Federal, nem o Ministério Público. Eles fazem seus respectivos papéis. Têm que investigar. Esse é o correto, a base do processo democrático. E eu respeito isso. O que coloco em dúvida, da mesma forma que fizeram ilações no processo, de que eu poderia ter pego (dinheiro), é se não há jogo político por trás disso.

Notisul – Você assume interinamente o governo no dia 5 de janeiro?
Pavan
– O governador tem mantido a sua agenda e, insistentemente, fala que devo assumir. O Luiz Henrique conhece a minha idoneidade. Nós passamos o diabo na última eleição. O Luiz conhece a minha idoneidade, o meu trabalho, sabe da minha transparência. Nunca passei o pé do risco, porque eu sei me colocar na posição de vice-governador. As declarações dele me confortam, mas apenas porque ele sabe da minha idoneidade. A agenda será mantida. Porém, vou conversar com o meu partido sobre a posição que devo assumir daqui para frente.

Notisul – Sobre a posse no governo?
Pavan
– Vou conversar sobre as questões políticas, porque sou um líder do meu partido, sou um condutor de processos eleitorais… E o líder é execrado, sangrado em praça pública. Então eu, Leonel Pavan, vou conversar com o meu partido para fazermos um reestudo de como devemos agir politicamente. Administrativamente vou continuar da mesma forma: atendendo pessoas, abrindo as portas do meu gabinete, atendendo na rua, na igreja, no bar, no restaurante, na cancha de bocha. Os secretários que me acompanham dizem que eu tenho de andar com eles, mas eu sou assim. Não tenho hora. Quem me conhece sabe. Sou desse jeito, um homem simples. E vou continuar assim. Nunca caminhei para fatos ilícitos. Já pensou? Eu, vice-governador, determinar a funcionários coisas ilícitas e depois ficar devendo uma obrigação para o resto da vida, com a minha vida pública amarrada por um ato errado.

Notisul – O senhor está querendo dizer que pode reavaliar sua pré-candidatura ao governo?
Pavan
– O que recebo de apoio é inimaginável. As pessoas se solidarizam comigo de uma forma que eu jamais esperava. Hoje (quinta-feira), por exemplo, fui dormir quase 4 horas, com pessoas vinham à minha casa, me ligavam. Tudo isto me motiva para continuar. Estou frustrado, estou sentido, estou ferido. E quando estou ferido é que vou buscar a vitória. É justamente isso que vou fazer.

Notisul – Quem são os lobos em pele de cordeiro que você falou no twitter?
Pavan
– Esta foi uma imaginação que tive, porque muitas pessoas que estavam seguidamente ao meu lado, de repente se afastaram. Foi apenas um pensamento, uma dedução que posso corrigir lá na frente. Espero que eu esteja errado. Mas aí, na questão política, você pega pessoas fazendo comparação entre eu e o José Dirceu, demitido por envolvimento no mensalão, me comparando com quem botou dinheiro na cueca, na meia.

Notisul – O MP disse que vai estudar a questão da improbidade administrativa que, aí sim, poderia afetar seus direitos políticos. Como vê isso?
Pavan
– A justiça tem que fazer justiça. Ainda não acharam argumento para isso, para o indiciamento por improbidade. Infelizmente, hoje a gente tem que provar que é honesto, tem que se debater 24 horas por dia para dizer que é honesto.

Notisul – O fato de ter o recesso agora atrapalha muito sua defesa?
Pavan
– Atrapalhou bastante porque estávamos fazendo um planejamento com a Escola Nacional de Administratação (Ena), com o Vinícius Lummertz, com o Dalírio Beber, com o meu partido e tantos outros colaboradores que estavam criando projetos fortíssimos para iniciarmos já no dia 5 (de janeiro). Isto tudo que eu projetava esvaziou-se nesses dias. Não sabia se falava com meu advogado, com o meu partido, se atendia os telefonemas do Brasil inteiro ou se recebia os amigos na minha casa, tamanha era a movimentação.

Notisul – Como serão seus passos agora. Você volta a despachar normalmente?
Pavan
– Existem duas questões. Uma é que existe um processo judicial, terá ter uma batalha jurídica. A outra questão é a política. Parece-me que abriu uma nova frente de batalha e eu ainda não saí para este enfrentamento. Por enquanto, até os adversários, pelo menos os de Santa Catarina, estão me respeitando neste momento.

* Editora da coluna Pelo Estado, da Central de Notícias Regionais/ADI-SC, especial para o Notisul.