Na carteira de identidade, ele está naturalizado bielorrusso. Mas é um filho de Tubarão. Com seus passes, dribles e gols, Renan Bardini Bressan mudou de vida graças ao futebol. Da base do Atlético Tubarão, partiu direto para o desconhecido Gomel, na gelada Bielorrússia. Mas nem ele esperava que fosse fazer tanto sucesso no leste europeu. Após se destacar no clube, mudou para o Bate Borisov, o principal do país. E a carreira continuou em ascensão. Títulos, jogos contra equipes como Barcelona e Milan, e a chance de defender a seleção. Dos treinos no Domigos Gonzalez, Renan foi para uma Olimpíada, onde fez gol contra o Brasil. De mudança para a Rússia, o jogador quer continuar o crescimento, e levar o nome da cidade natal adiante.

 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
Notisul – Você enfrentou a seleção brasileira nas Olimpíadas, e ficou conhecido em todo o país. Como foi isso?
Renan – Foi uma coisa que eu imaginava antes mesmo dos Jogos. Que se eu fizesse uma boa Olimpíada, um bom jogo contra a seleção, abriria portas no Brasil. Um dia eu quero muito voltar a jogar no Brasil. É um sonho que eu tenho. Estava muito motivado para aquele jogo. E, tirando a derrota, o planejamento foi como eu tinha feito. Foi uma cosia bem interessante ser elogiado pelo Romário. O que é uma grande coisa, até porque ele é muito crítico. Era o que eu queria e que deu certo.
 
Notisul – E como foi disputar uma Olimpíada?
Renan – Não tem nada que se compare, talvez só a Copa do Mundo. Mas, como eu já tinha a experiência da Liga Europa e da Liga dos Campeões, eu já entrei mais ou menos preparado para esse tipo de competição. Cheguei um pouco mais experiente, então fiquei mais tranquilo. Mas, no nível de jogadores e organização, é algo de outro mundo. Uma coisa que vai ficar para sempre. Foi a primeira e a única, porque já passei da idade e, para um país pequeno como a Bielorrússia, voltar é algo muito difícil.
 
Notisul – E como foi o convívio com a seleção brasileira?
Renan – Nós ficamos no mesmo hotel. Na segunda rodada, em Manchester, os quatro times do grupo jogariam no mesmo estádio, e ficaram todos no mesmo hotel. Foi lá que eu conheci o pessoal, conversamos. Não digo amizade, pois não se faz amizade em dois dias. Mas foi bem interessante conhecer os melhores jogadores do mundo. Estar no meio de caras que nem dá para se comparar. Foi inesquecível.
 
Notisul – Dos jogadores que você conheceu, qual chamou a sua atenção?
Renan – Todos foram muito humildes. Mas talvez o que mais chamou a atenção foi Neymar. O pessoal fala que ele é arrogante, mas foi uma grande pessoa. Perguntou até como se falava algumas palavras em russo. Além de ser um grande jogador, é uma grande pessoa. Para quem está de fora, é fácil falar. Mas vai no lugar dele,  com o salário que ganha, não pode nem sair na rua. Tem que se colocar no lugar dele para criticar. Quando nós estávamos entrando em campo, ele foi o último a chegar, e veio me cumprimentar. Me surpreendeu bastante.
 
Notisul – E qual foi a sensação de marcar um gol na seleção do teu país?
Renan – Eu sabia que eu tinha que fazer isto se eu tivesse a oportunidade. O pessoal da Bielorrússia perguntou como estaria o meu psicológico. Perguntou se eu estava motivado ou se tinha medo. Mas deu tudo certo, e depois do jogo ninguém duvidou, porque joguei para ganhar. Na hora do gol, eu nem sabia o que fazer ou como comemorar. Além de ser contra o Brasil, era nas Olimpíadas. E eu sabia que Tubarão e o Brasil inteiro estava vendo. Foi estranho e bom ao mesmo tempo. Mas, depois do gol, eu tinha que me concentrar no jogo, já que não dá para viver daquele lance. Mas na hora foi estranho e gostoso.
 
Notisul – E como foi a torcida?
Renan – O pessoal queria que o Brasil ganhasse e que eu fizesse um bom jogo. Sábado à noite, a maioria das pessoas sai, e no domingo, mais ou menos às 11 horas, acordam. E naquele dia acordaram e logo aos seis minutos de jogo eu fiz o gol.
 
Notisul – Esse ano você recebeu a sua primeira convocação para a seleção da Bielorrússia, não é?
Renan – Sim. Eu achei que seria difícil, que o pessoal ia ser contra. Mas me receberam muito bem. Também foi bom porque conhecia muita gente que estava na seleção. No começo, eu ficava meio receoso até para pedir uma bola. Mas passou um jogo e me soltei. E fui bem. Consegui me firmar, digamos. Eu estou contente, quem teve essa ideia de me naturalizar também deve estar. Lógico que podemos sempre melhorar, mas acho que correspondi às expectativas.
 
Notisul – E não fica nem um pouco de frustração por não poder mais defender a seleção brasileira?
Renan – Não fica. Não adianta chorar pelo que foi. Gostaria sim de jogar pela seleção brasileira. Mas aqui a concorrência é grande. É um em um milhão que vai para a seleção. Não me arrependo. Apesar do Romário dizer que eu teria vaga na seleção brasileira. Mas infelizmente ele não é o treinador (risos). Eu sou profissional e seria um desrespeito com a própria Bielorrússia. Os caras me receberam, fizeram as coisas para mim e eu digo que estou arrependido? Torço pelo Brasil. Sempre. Mas menos contra mim.
 
Notisul – E agora, mudou de clube?
Renan – Mudei de clube. Assinei com o Alania da Rússia. Vida nova, novo desafio. O Campeonato Russo está muito forte, tem jogadores como Eto’o e Hulk. Agora é descansar e depois vida nova.
 
Notisul – Você saiu do principal clube da Bielorrússia para um clube médio da Rússia. Vai precisar chamar mais a atenção agora?
Renan – É um campeonato mais difícil, então, tenho que jogar melhor ainda, para ir para um centro maior ou para um próprio time grande da Rússia. Mas os caras têm um projeto muito bom, pois é um clube muito tradicional, teve uns problemas, caiu para a segunda divisão e voltou neste ano. Então, tem planos de construir estádio, reformar CT. Ano que vem, querem disputar a parte de cima da tabela, e isso me agradou bastante. Falei com os brasileiros que estavam lá e todos me aconselharam a ir. É um novo desafio, bem mais difícil. 
 
Notisul – Além deles teve alguma outra proposta?
Renan – Tive sondagens de outros clubes russos, contato de espanhóis. Saiu na Itália que o Napoli estaria interessado, mas não chegou nada até mim. Depois, os ingleses falaram que o West Ham também queria. Mas não teve nada concreto. Também teve o Besiktas, da Turquia. E apareceu essa proposta concreta. A janela de transferência fica aberta até o dia 31 de janeiro, mas eu queria decidir tudo antes das férias, apareceu a proposta e eu achei interessante.
 
Notisul – E do Brasil, apareceu alguma sondagem?
Renan – Eu tenho uma pessoa aqui no Brasil, que é de Tubarão. Ele meio que mexe com futebol, e teve contatos com clubes do Brasil. Mas, como aqui demora muito, temos muitas trocas de técnico. E eu avisei que tinha essa proposta que era muito boa para mim e para a minha família. E era uma coisa na mão. Não era algo que poderia ser. Mas, se tivesse uma proposta concreta do Brasil, acho que aceitaria.
 
Notisul – Na Liga dos Campeões deste ano, o teu time pegou um grupo complicado (Bayern de Munique, Valencia e Lille) e, mesmo assim, melhorou bastante em relação ao ano passado. O que mudou?
Renan – Isso é sinal que o clube evoluiu. Conseguiu duas vitórias. Não sei se deu uma relaxada nos outros jogos. Acredito que nos próximos anos vai melhorar ainda mais. E pegar um sorteio mais tranquilo também ajuda. Acredito que, se o clube continuar nesta crescente, pode lutar por vaga.
 
Notisul – E agora na Rússia, dá para sonhar com as competições europeias?
Renan – Por enquanto, não. Os objetivos são outros no começo. Deixar o clube na primeira divisão, pegar uma colocação mais ou menos. Mas, segundo conversa com o presidente, na próxima temporada a briga é pela parte de cima da tabela. E eu espero que  com a minha ajuda a gente consiga. Até porque quem disputou uma Liga dos Campeões não quer mais sair de lá.
 
Notisul – E financeiramente, essa mudança foi melhor?
Renan – Foi sim. É um fator que, além de ser o futebol russo, fez a diferença. Vai ajudar a mim e a minha família.
 
Notisul – O que o futebol mudou na tua vida?
Renan – Tudo, não é? (risos). Consegui construir a minha casa. Estou aos poucos conseguindo dar uma tranquilidade para os meus pais, meus irmãos. E não só no financeiro. Hoje, eu falo russo, espanhol, e rola um pouco de inglês. Conheci muitas culturas, muitos países, muitas cidades. Conheci praga, Milão, Roma, Munique. É uma coisa que todos sonham, e está ocorrendo. Mas não é por acaso. Ninguém chegou lá e me colocou. Foi com muito trabalho. Todo mundo que conhece a minha história sabe da dificuldade que foi para chegar lá. O negocio é manter os pés no chão, não achar que está tudo bom, porque não está. Crescer mais. 
 
Notisul – Acredita que, ao sair do principal clube da Bielorrússia para um outro mercado, vai fazer diferença, já que você quer se manter na seleção?
Renan – Acredito que não. Já que a Rússia tem um campeonato mais disputado. É perto. Os jogos passam na Europa, até aqui no Brasil. Acho que não vai ser problema. Pelo contrário, em uma liga mais forte, vou ganhar mais experiência e vai ser bom para o treinador também.
 
Notisul – E como foi ser garoto propaganda da Coca-Cola?
Renan – Foi uma coisa do clube. A Coca-Cola escolheu três jogadores. E eu fui escolhido para participar. Foi bem legal. Todos gostaram, nunca tinha feito nada igual. Fiz apenas propagandas pequenas. Foi uma coisa que mexeu comigo e com todos que viram.
 
Notisul – E como foi a reação dos amigos daqui?
Renan – Deram os parabéns, brincaram bastante. E ser escolhido foi uma coisa bastante gratificante, um reconhecimento do meu trabalho.
 
Notisul – Dá para dizer que 2012 foi o teu melhor ano no futebol?
Renan – Foi o melhor e o mais difícil. Pelo lado psicológico. Antes, eu jogava o Campeonato Bielorrusso, a Copa da Bielorrússia, alguma competição europeia. Mas esse ano teve seleção nacional, a polêmica nas Olimpíadas, liga dos campeões, tudo isso junto. Muitos jogos, viagens. Em resultado, foi o melhor. Consegui me firmar na seleção, fiz uma boa Liga dos Campeões, consegui uma transferência para um outro clube. Então, foi o melhor ano sim.
 
Notisul – Mesmo jogando em outro país, você sempre fez questão de exaltar o nome de Tubarão, não é?
Renan – Sempre fiz, sempre vou fazer. Vou passar as minhas férias aqui. Nasci aqui, gosto daqui. Respeito muito. Sempre que posso, falo no nome. E, como eu disse, espero ser um exemplo para outros, de crescer na vida. 
 
Notisul – E sobre o jogo beneficente deste fim de semana?
Renan – Estamos na correria para acertar os últimos detalhes. Provavelmente ocorrerão erros, pois é a primeira vez. Eu e o Paulinho (Sachetti, organizador) estamos fazendo o melhor, o pessoal ajuda bastante. Mas vamos melhorar ainda mais nos próximos anos. Pedimos que o pessoal compareça, e não é para nós. Ninguém está ganhando R$ 1,00. Pelo contrário. Estamos gastando dinheiro, tempo. Mas vai valer a pena. Não só pela ajuda que vamos dar para a Apae e para o Abrigo dos Velhinhos. Também é para melhorar o futebol de Tubarão, já que estamos com dois times, mas é como se não estivéssemos com nenhum. Que apareçam outras revelações de Tubarão. Eu espero que mais gente saia daqui, mas não para jogar na Bielorrússia. Que saia para jogar na seleção brasileira, no São Paulo, no Corinthians, no Barcelona. Porque tem muito potencial, mas talvez por falta de inteligência das pessoas, não conseguem revelar esses talentos. Quero servir de exemplo. Talvez esse seja o meu momento, mas eu quero que surjam outros. Que vá levar o nome da cidade.
 
Notisul – E a ideia do jogo saiu de uma brincadeira, não é?
Renan – Isso, foi uma brincadeira que começou no Facebook. Quando eu vi, o Paulinho tinha falado na rádio e a gente não imaginava que fosse chegar às proporções que chegou. Me perguntam do jogo, como é. Muita gente também queria participar. Começou pequeno e ficou grande. E com isso aumentou a responsabilidade. Não podemos decepcionar ninguém.
 
Notisul – Você acompanha os times de Tubarão?
Renan – Acompanho sim. E vou bater na mesma tecla. Não tem como ter dois times em Tubarão. Temos que ter um time e pronto. Junta as diretorias. Não é comigo, é o que eu acho que deve ser feito. Coloca Futebol Clube Tubarão ou Cidade Azul, que seja. Futebol Clube Gato, Cachorro, o nome não interessa. O importante é o time. Todo mundo tem essa opinião em Tubarão. Aliás, quase todo mundo. Tem gente que acha que o Hercílio é melhor. Aí vem outro e diz que é o Tubarão é melhor. Se são melhores, onde estão os resultados? Não tem resultado nenhum. Todo mundo sabe disso, e segue a mesma palhaçada. Um time não é fácil. Já que a cidade não é tão grande. Mas, com dois então, nem pensar. Se quer viver de história, que pegue uma máquina do tempo e volte a ganhar lá no passado. 
 
Renan por Renan
Deus – Tudo
Família – Depois de Deus, o mais importante.
Trabalho – Necessário.
Passado – Bom, mas como o nome já diz, é passado, tem que pensar para frente.
Presente – Viver.
Futuro – Sonho e objetivo.
 
"Quando teve a convocação para as Olimpíadas, além de torcedores, eu tive problemas com o clube, que não queria me liberar, pois estava na época das eliminatórias da Liga dos Campeões. Eu cheguei até a pedir rescisão, discutir com o presidente. Mas também ocorreu porque eu nunca forcei a minha saída para as olimpíadas. Eu dei a minha opinião. Quem tem que decidir é o clube e a federação. O clube paga o meu salário, tem contrato. A federação não queria bater de frente com o melhor clube do país, e o melhor clube do país não queria bater de frente com a seleção, pois poderia ser prejudicada mais para frente. E ficou neste impasse. Quando faltava um ou dois dias para as inscrições, o clube pediu para eu decidir, e eu disse que queria ir. E me chamaram de louco. Se o clube tivesse dito que não, eu não iria. Discutimos, chegaram a me chamar de traidor. Mas foi coisa de dentro mesmo. Até quando eu voltei das Olimpíadas não comecei todos os jogos como titular, por causa disso. E antes eles falaram que quando eu voltasse talvez não fosse a mesma coisa. Conversamos, nos acertamos, mas ficou um clima. Não tinha como não ir. Beckham e Ronaldinho queriam a chance de ir. E eu seria louco se não fosse. Mas teve muita gente que gostou. E acredito que o treinador também não se arrependeu. Fiz bons jogos. Qualquer um no meu lugar teria ido”.
 
"Que bom seria se os dois times de Tubarão pudessem disputar a primeira divisão, mas não dá".
 
"Quando o jogador de futebol acha que está bom, ele não vai ter nada”.