Notisul – O que é ser um ateu?
Léo Rosa de Andrade – É reconhecer que não se sabe uma porção de coisas, o que se tem conhecimento é o que a ciência explica. É não acreditar em formulações não identificáveis, indemonstráveis. Ser não religioso é achar que as explicações do mundo são respondidas pela ciência e não por uma tradição inventada por um faraó, levada para um canto do mundo por um cara chamado Moisés e imposta por um sujeito chamado Constantino, que matou milhares de pessoas que não acreditavam no que ele acreditava. Em meio a esta matança restou uma crença, imposta ao mundo com violência pelas inquisições, pelas cruzadas. Esta crença é reduzida em países com alto índice de educação e se prolifera com maior facilidade nos mais ignorantes. Ser um ateu é uma declaração de humildade, no sentido de não saber mais estar ciente que a ciência explica as coisas.

Notisul – Na hora do desespero, do sufoco imediato, a quem um não religioso recorre? O que vem no pensamento?
Léo – Eu procuro um psicanalista, um médico, a uma pessoa que possa me dar um auxílio devido. Eu não cometo a hipocrisia de procurar um médico, tomar um remédio e depois agradecer a uma divindade. Na hora do sufoco imediato eu tento administrar a situação. Se houvesse um Deus, a tal da divindade não teria me colocado nesta situação. Eu não acho que um ser superior iria fazer brincadeiras, de colocar as pessoas em situação de risco, para depois pedirmos a ela para nos tirar deste sufoco. Este pensamento é de um sujeito doentio, uma divindade doentia. Considero isto uma falta de racionalidade, agradecer a salvação do sofrimento ao sujeito que te colocou neste sofrimento.

Notisul – Quando se fala em religião, o casamento é um dos principais sacramentos. Como um ateu vê as uniões estáveis?
Léo – O casamento foi inventado. A instituição formal do casamento foi inventada para controlar judeus na Europa. Os católicos, para evitar a proliferação dos judeus, inventaram este sacramento para fazer um sistema de controle sobre as pessoas, que até pouco tempo atrás somente eram realizados na igreja e eu, particularmente, não tenho nenhum interesse em me oferecer para nenhum sistema de controle, ainda que este seja tradicional.

Notisul – Existe vida após a morte?
Léo – Não vejo nenhum motivo para acreditar em outra vida. É evidentemente que eu não posso fechar a questão, a resposta honesta é eu não sei. Mais acreditar em um monte de tolices que são ditas é outra história. A resposta de uma pessoa ateia diante é honestamente dizer eu não sei, agora, o fato de eu não ter conhecimento não justifica acreditar em fantasias das mais diversas ordens.

Notisul – Qual o conceito de céu e inferno?
Léo – A ideia de céu e eternidade é grega, mas não é religiosa. Os antigos gregos entendiam que tudo o que estava acima deles eram eternos, no sentido de não estragar. Eles consideravam que o sol, as estrelas e os planetas eram eternos, e tudo que existia na terra perecia, estragava, decompunha-se, este pensamento surgiu a ideia de céu e não perenidade da Terra. Um sujeito romano chamado Paulo, depois virou cristão São Paulo, foi para Grécia. Como era culto, fez uma mistura de sincretismo da tradição judaica cristã. Uniu teoria histórica grega, que acredita haver uma eternidade física acima dos homens e situações que se deterioram na Terra, que há uma matriz, que as formigas têm uma matriz, que os cavalos têm uma matriz, que os humanos têm uma matriz, a este fato chamaram de ânima, que é uma ideia de origem em uma matriz. Ânima, traduzido, virou alma, que mudou para uma espécie de espírito, explicação que não tem nada mais com que São Paulo aprendeu com os históricos na Grécia. Então, não se podem confundir estes aspectos teóricos do início do cristianismo com um monte de definições que as pessoas dizem atualmente. Este fato não tem nenhum sentido é um conceito formulado a partir do nada. Se houvesse céu e inferno eu não quero ir para o céu. Lá então encontraríamos tias, velhinhos metidos, gente censurando nosso comportamento, palpites, cantinho de pessoas fazendo orações, falta de sexo… Já no inferno estará certamente as pessoas que tiveram prazer na vida, que gozaram as coisas, que souberam aproveitar o seu tempo, então o inferno é muito melhor que o céu.

Notisul – Qual a origem do homem e o universo?
Léo –  Para estas questões, a ciência tem uma larga explicação, porém incompleta. Há diversos fatos ainda não sabidos, a ciência tem muito conhecimento, mais ainda não sabe a dimensão do universo, não domina a situação do tempo, mas como se formou a Terra, por exemplo, não há a menor dúvida, mais há um limite de saber este saber a cada dia. É mais completado pela ciência, estudos que se afastam cada vez mais da religião. As crenças estão cada vez mais acanhadas, tanto que de vez em quando líderes religiosos tentam reconhecer as bobagens que já disseram neste mesmo tempo a ciência segue avançando. A ciência tem uma declaração de pesquisa, de não saber e ir buscar o conhecimento, a religião monta um esquema explicativo insubsistente, que conforta e agrada a grande maioria dos países que não tem estudos. Pesquisas revelam que em países de alta escolaridade o índice de ateus chega 90%. Então, a religião tem sido uma prática em lugares de pouco nível escolar. Em países mais desenvolvidos, a religião é uma coisa altamente afastada. Podemos lembrar-nos dos Estados Unidos, que têm dois pontos diferentes, um chamado de círculo bíblico, que é altamente religioso e tem Nova Iorque e outras grandes cidades com universidades grandes centros de saber que não são religiosas. Dos grandes cientistas do mundo nenhum é religioso, como Eisten, Freud. Então, se você for ao interior do nosso país e verificar que a maioria é religiosa, a pergunta é de que lado você quer ter o seu cérebro, qual o caminho a se seguir? Na tradição da tia cotinha ou Einstein, Freud, Darwin e outros cientistas. O que se vai aprender na escola? Porque certamente será uma professora religiosa, você não vai ler Einstein, então, boa parte do mundo segue aprendendo com a tia religiosa que ensina. .

Notisul – Como um não religioso vê questões como o aborto?
Léo – É uma questão de foro individual, quem é contra não faça, mais não se meta na pauta de vida de quem não é contra. Não se encontra um ateu querendo forçar o religioso a ter este ou aquele comportamento. O religioso fica agoniado porque quer que o outro se comporte como ele para convencer a si próprio. O religioso nunca tem certeza de gozar com tranquilidade a crença dele, pra o religioso ter certeza ele precisa convencer o outro. O ateu não está se importando se o religioso vá pra o céu ou para o inferno, que tenha alma ou não este é um problema do religioso. O ateu não bate na porta de alguém com um pedacinho de papel, para fazer proselitismo, para educá-lo, já os religiosos não se conformam, são imperativos, autoritários eles te interpelam para que você também seja um religioso, que seja igual a ele. Ele não é democrático.

Notisul – Este comentário acima também vale para o homossexualismo e a pena de morte?
Leo – O que as pessoas fazem dentro da sua casa entre seus lençóis, isto é um direito individual, é privado, o sujeito exercita sua vida e determina o seu corpo como bem entender. A homossexualidade não é algo que um ateu julgue é algo que está no mundo, é um fato. Não compete a mim ou a quem quer que seja, estabelecer um julgamento, de como o outro vai levar a sua vida.  A questão de morte, de eliminar as pessoas más do mundo, em si, em tese seria adequada. O problema é que com a pena de morte comprovadamente por diversos estudos e experiências não diminuiu a criminalidade. A forma de matar alguém que fez um crime tem vários erros possíveis e a onde se pratica a pena de morte há vários indícios de alta de violência. A própria idéia de eliminar pessoas em si já é violenta, por isto eu sou contra. Em todos os lugares de mundo que há distribuição de renda e altos índices educacionais, a violência é muito pequena. Já nos países com má distribuição de renda e de alta religiosidade, em geral usam da pobreza da manobrar religiosamente, estes países são violentos. Não pela questão religiosa, é pela ignorância, é que a falta de renda e a falta de estudos provoca a violência, que provoca a religião, que provoca crenças, que provoca brigas, que provoca brigas por crenças, que provoca brigas por time de futebol, provoca uma série de violências. Por que as pessoas são ignorantes, ignorantes no sentido de não saber as coisas, não são burras. Há falta de escolaridade.  E alguém pode dizer que a escola da vida nos ensina, se isto acontece porque  matricular seus filhos na escola? Se todo mundo acreditasse mesmo no céu, ficaria feliz esperando a hora de morrer, só que as pessoas não acreditam a fundo. Tanto que se um sujeito religioso quando está perto de morrer se desespera, então se ele vai morrer e vai para junto do senhor eternamente devia esperar a morte com alegria, devia ter coerência. O ateu na hora que encontra a morte, ele fica ciente que está chegando o seu fim e ponto. A religião é um apego infundado. Tanto que na hora do apuro ele não quer morrer. Isto ninguém quer, mais ele se desespera e pede para ficar vivo, para aquele sujeito que ele quer ficar junto que é o deus que ele acha que acredita. O ateu quando chega na hora de morrer ele lamenta. Eu não gosto da idéia de morrer, também não vou discutir pra onde eu vou, eu realmente não sei.

Notisul – Então Deus surgiu de uma imaginação coletiva?
Léo – Deuses anímicos mágicos sempre houve pelo mundo. A idéia de um deus único foi inventada por um faraó chamado Akhenatom. Deste nome surgiu a palavra atômico, átomos, e outras. Havia deuses gerais no mundo todo, inclusive no velho testamento, onde se encontra falas como o deus do meu pai e melhor que o teu deus, brigas para ver quem era o deus mais macho, de quem matava mais e etc. A bíblia no velho testamento é um livro de maldades, de lograr pessoas, de truques de assédio sexual, de escravidão, de filhas embebedando o próprio pai para fazer sexo, onde se mata cidades inteiras, crianças, mulher que tem que obedecer a seus maridos. Akhenatom entendeu que todos aqueles deuses que acreditava estão errados, deus era somente um.  Observando o Nilo entendeu que a chuva, o rio era importantes para plantar, entendeu que a vida tinha uma organização. Abandonou toda a cidade e a crença antiga e fundou outro local em homenagem a este deus único. Os arquitetos, escravos que construíram, grande parte deles era judeu, depois que terminaram a obra saíram de lá com a ideia de ciência, no sentido de conhecimento, saíram e fundaram um lugar chamado Israel, saíram matando todo mundo pelo caminho, e estão matando até hoje. Dá tradição judaica, surgiu o cristianismo, saiu Paulo que foi para Grécia, lugar que foi tomado por Roma, que tinha o Constantino, sujeito que fez um acordo com os católicos para brigar com o mundo que hoje se chama árabe. O Constantino literalmente matou todo mundo que não servisse ao deus dele, então só restaram os católicos. Então desde Constantino até a revolução francesa, muitos foram mortos porque não eram católicos. Então as pessoas tiveram que acreditar, isto em qualquer livro de história elementar vai te ensinar.

Notisul – Então a pessoa que não tem um vínculo religioso sofre mais?
Leo – O não religioso, o ateu tem uma coisa chamada tranqüilidade que é de lidar com os fatos reais do mundo, vive os fatos, o religioso vive angustiado porque vive de pedidos que em geral não são atendidos. Então a divindade que ele crê sistematicamente tem negado seus pedidos, mais ele segue na justificativa ao dizer que o certo virá escrito por linhas tortas, que deus sabe o que faz e outras coisas, motivos para continuar ruim como está. O religioso está sempre esperando uma mudança mágica das circunstâncias, está sempre na esperança de um atalho para a felicidade. O ateu constrói a sua esta felicidade.

"A questão da violência se resolve com distribuição de renda e com educação"

"O ateu tem total consciência que não há explicação para tudo"

"Há uma enorme diferença entre ciência e religião. A religião diz o porquê de dois pontos, já a ciência diz por que, ponto de interrogação."

"A bíblia é um livro de maldades que eu não recomendo para as crianças."

"O céu é um inferno"

Perfil
Prestes a lançar mais um livro, com artigos criticamente selecionados pelo próprio autor, para uma coluna semanal do Notisul, Léo Rosa de Andrade é doutor e mestre em direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), especialista em administração de empresas e em economia, advogado, psicólogo e jornalista. Tem no longo currículo ainda a passagem como político em Tubarão, cidade de origem, eleito duas vezes como vereador. Já exerceu cargos como secretário da justiça e secretário de desenvolvimento regional, diretor jurídico da Casan estadual e se orgulha, atualmente, de ser professor universitário

Léo Rosa por Léo Rosa
Deus – imaginação implantada
Família – há felizes e há infelizes
Trabalho – colaboração com o mundo
Passado – águas que me movem Presente – gozo da vida
Futuro – investimentos nas possibilidades