Natural do Rio de Janeiro, o médico anestesista José Warmuth Teixeira é tubaronense de coração há 52 anos. Nascido no dia 18 de março de 1933, na Urca, hoje aos 79 anos ostenta uma história de vida recheada de experiências. Foi o primeiro a atuar no ramo em Tubarão. Por onde passa, é reconhecido não somente pelas ações que faz em favor da saúde, como também pelo trabalho expressivo para o desenvolvimento turístico e econômico do município. É presidente da Sociedade dos Amigos da Locomotiva a Vapor. Na juventude, dedicou a sua vida aos estudos e ao halterofilismo, foi pentacampeão pelo Botafogo de Futebol e Regatas. Tem uma passagem pela literatura, e até já dedicou um livroà sua esposa, com quem é casado há 51 anos. Já conheceu mais de 60 países e guarda em casa um sino de cada nação que conheceu. A melhor lembrança que o médico traz no coração é o passeio a Brasília ao lado do ex-presidente Juscelino Kubitschek.

 
Lily Farias
Tubarão
 
Notisul – Por que o senhor veio trabalhar em Tubarão?
Warmuth – Eu me preparei de todas as formas para atuar na profissão porque meu maior sonho era trabalhar em um cidade do interior e naquela época viver em uma cidade pequena era muito difícil. Não se tinha quase nada de recursos. Minha oportunidade chegou quando, em 1960, meu amigo Pedro Augusto Mena Barreto, também do Rio de Janeiro, trabalhava como médico no Companhia Siderúrgica Nacional em Siderópolis, e me falou que no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão, precisavam de um anestesista porque aqui ainda não tinha um profissional.
 
Notisul – Foi difícil no começo?
Warmuth – Foi muito. É difícil fazer as pessoas entenderem que o teu trabalho é importante. Eles não acreditavam que eu era médico porque quem dava anestesia nos pacientes era uma freira. Pensavam que eu era alguém que apenas atuava no meio sem ter uma especialização. Aos poucos, fomos montando uma equipe de anestesistas. Durante oito anos, trabalhei sozinho nesta área. Um dos trabalhos legais que fiz à parte foi criar o banco de sangue do hospital. Depois, foi-se profissionalizando todo o trabalho e hoje hemoterapeutas assumiram meu lugar. Mas há muitos anos isso. 
 
Notisul – A demanda aumentou e o número de profissionais também.
Warmuth – A população de Tubarão e região cresceu e, consequentemente, o número de pacientes. Foi então que compomos uma equipe. O legal de trabalhar com eles é que nunca tivemos o espírito de competitividade, vivemos em paz porque dividíamos os trabalhos em igualdade. É um sistema bom de trabalhar, porque elimina a concorrência, todos trabalham em equipe. E esse sistema perdura até hoje. Trabalhamos em 13 anestesistas nos três lugares onde há demanda: no Hospital Nossa Senhora da Conceição, Socimed e Pró Vida. 
 
Notisul – Então, a ética sempre prevalece…
Warmuth – Nesse espírito de trabalho, revezamos os horários. Hoje em dia, não faço mais plantão. Nosso grupo é ético, eu procuro manter a integridade a todo momento. Pelo fato de ser o primeiro anestesista da cidade, não tenho regalias como  ganhar mais e trabalhar menos, ganho exatamente pelo que faço.
 
Notisul – Quando você formou-se na faculdade, em 1959, não havia residência médica, teve que aprender na “raça”. Como é a residência hoje?
Warmuth – Hoje é menos difícil estudar porque as facilidades tecnológicas são imensas. Na atualidade, temos a residência médica em Tubarão, sou um dos instrutores. Temos no Hospital Nossa Senhora da conceição cinco residentes. Para entrar na residência, eles fazem um teste, muito difícil de ser aprovado, e estudam durante três anos. É uma atividade que me dá bastante prazer, ensinar a minha especialidade. Sei muita coisa, são quase 80 anos de experiência que não podem morrer comigo, tem que servir para alguma coisa. Além de ser anestesista, atuo também como médico auditor do plano de Saúde Conceição, do Hospital Nossa Senhora da Conceição. E trabalhei também como médico do trabalho durante 21 anos na Ferrovia Tereza Cristina. É preciso saber fazer de um tudo um pouco além da sua especialidade, embora a nossa área seja bastante atrativa, já que há uma necessidade muito grande de anestesista no mercado e o salário é compensador. 
 
Notisul – A experiência na FTC fez você envolver-se além do trabalho…
Warmuth – Enquanto atuava como médico do trabalho, percebi o grande interesse de pessoas do mundo inteiro por locomotivas a vapor. A história da ferrovia é muito atraente no Brasil inteiro e no exterior. Diante de tamanha riqueza, comecei a entender o quanto era importante criar o museu ferroviário de  Tubarão.  
 
Notisul – O museu ferroviário nunca foi inaugurado oficialmente. Quando será?
Warmuth – Carecemos de muitos  recursos para completar o museu. A atividade é precária, nós nunca inauguramos porque faltam obras civis. Estamos construindo mais um abrigo para abrigar as locomotivas. Material ferroviário não se guarda ao tempo, estraga. Trabalhamos há 17 anos para inaugurar oficialmente o museu. Até então, tudo é mantido com recursos do poder público e privado, e próprios também. Mas não é suficiente para dar acabamento à estrutura. 
 
Notisul – A comunidade perde em não ter acesso a todo acervo do museu?
Warmuth – Temos um rico acervo. São 21 locomotivas a vapor,  quatro em funcionamento, utilizadas nos passeios pela região. Nosso museu talvez seja o mais importante  do Brasil. É uma situação aflitiva para nós não poder abrir o museu porque temos consciência do tesouro que temos. Ainda falta muita coisa, construir uma recepção, completar o abrigo e fazer um paisagismo. Neste ano, fizemos uma viagem à Europa e visitamos cinco museus. A intenção é ir atrás de subsídios para colocar em prática aqui. Visitamos o museu mais famoso do mundo, o National Railway Museum, na Inglaterra. Eles têm uma estratégia que estamos pensando em aplicar aqui. 
 
Notisul – É uma estratégia que pode dar certo?
Warmuth – Com certeza. Temos um grande problema cultural no Brasil, que é a dificuldade em manter os museus apenas com bilheteria. Em alguns lugares, isso é possível. No National Railway Museum, na Inglaterra, a entrada é gratuita, mas as pessoas têm que passar por um loja de souvenir, tanto para entrar quanto para sair. Isso acaba trazendo renda para o museu.
 
Notisul – Mesmo assim, já há muitas atividades no museu, não é verdade?
Warmuth – Há passeios de locomotivas pela região e a vinda de pessoas de todo o mundo para conhecer o nosso trabalho e acervo. Estou em contato com o proprietário  da Far Rail Tours, empresa do ramo ferroviário da Alemanha. Ele organiza grupos que viajam o mundo inteiro, para visitar museus, filmar e fotografar trens. Receberemos um grupo de 35 alemães dia 6 de julho do ano que vem. Eles não são os primeiros, já tivemos a visita de uns quatro grupos que vieram do exterior. É uma atividade divertida. Eles têm um programa pré-determinado para as cenas que precisam, quando não gostam da foto pedem para o maquinista parar o trem e recuar para onde percebem que tem um ângulo bom de fotografar. Fazem as fotos do jeito que querem, eles pagam para isso. É puro hobby, eles são experts no assunto.
 
Notisul – Isso quer dizer que a Ferrovia Tereza Cristina é conhecida em todo o mundo?
Warmuth – Ela representa uma grande importância para a história mundial porque é centenária. No exterior, é reconhecida, tanto que recebemos visitantes de outros países. Eles têm conhecimento do valor do nosso acervo. Há pouco mais de dez anos, um inglês, membro de um museu de transporte na Europa, veio aqui fazer uma proposta para levar uma de nossas locomotivas. Ele já se adiantou, conseguiu do Itamaraty e do Ministério da Marinha que um navio de guerra, vindo das Ilhas Malvinas, atracasse no porto de Imbituba para levar a máquina. Mas ele não daria nada em troca, aí não aceitei. Temos locomotivas que são datadas entre 1900 e 1912, por exemplo, e foram compradas do Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Tchecoslováquia e Inglaterra. São máquinas conhecidas principalmente pelos preservacionistas.
 
Notisul – Falando em hobby, uma das suas maiores paixões é o esporte. O que representa na sua vida? 
Warmuth – Representa o amor que tenho pela minha família, porque foi por meio do esporte que conheci minha mulher. Isso há mais de 50 anos, no Rio de Janeiro. Fui  jogador de basquete e ela era envolvida com o esporte. Nos conhecemos e estamos juntos até hoje, formamos uma família linda. Mas na minha juventude fui um grande medalhista de halterofilismo pelo Botafogo Clube de Regatas. Fui campeão cinco vezes. Por sempre estar inserido neste meio, fui presidente da comissão organizadora de dois Jogos Abertos de Santa Catarina que ocorreram em Tubarão em 1976 e 1993. Fui presidente do Esporte Clube Ferroviário durante quatro anos, entre 1974 a 1978 e  líder do basquetebol em Tubarão. Sempre gostei de basquete mas nunca pratiquei oficialmente devido minha estatura. Joguei na categoria amadora durante sete anos, isso me valeu a medalha do mérito esportivo de Santa Catarina, tenho essa comenda guardada com muito orgulho.
 
Notisul – Você mora em Tubarão há 52 anos. O que percebeu de mudanças de lá para cá?
Warmuth – A cidade desenvolveu muito. Em termos comparativos, havia três ruas pavimentadas, e só. O trem passava em frente ao hospital, a “Mamãe Tereza” era famosa por ajudar as entidades filantrópicas como o Hospital Nossa Senhora da Conceição. As empresas fabricavam janelas e doavam, o trem parava em frente ao hospital para deixar as coisas que os empresários doavam. Em relação à diversão, tínhamos dois cinemas naquela época e não tinha mais nada para fazer. Durante três anos, revi em Tubarão os filmes que já tinha visto no cinema no Rio de Janeiro. Não havia televisão, as estradas eram precárias para ir a outras cidades. Havia três linhas aéreas diárias, tinha TAC, Varig e Cruzeiro do Sul. Tinha avião todos os dias para Tubarão. O que pode parecer que fosse um adiantamento, mas era um atraso para a cidade.
 
Notisul – Na sua visão, a cidade desenvolveu muito ou pouco? 
Warmuth – O desenvolvimento de Tubarão é considerado aceitável até porque no momento o mercado imobiliário está em crescimento. Isso significa  o aumento populacional da cidade, que acontece numa progressão geométrica. Até poucos anos atrás, o crescimento da população mundial era controlado por dois fatores: as guerras e as epidemias. Mas a melhoria do poder aquisitivo da sociedade é um reflexo deste desenvolvimento, um prova é que um dos melhores negócios que se tem em Tubarão é fazer estacionamento. 
 
Notisul – Entre tantas lembranças nestes quase 80 anos de vida, o que mais marcou na memória?
Warmuth – Já visitei mais de 60 países junto com a minha mulher. Algumas viagens foram a trabalho, outras a passeio. E de cada país que conheci trago um sino como lembrança. Outra coisa legal na minha vida é o meu casamento e o nascimento dos meus filhos. Mas o que jamais esquecerei é a viagem a Brasília que fizemos em 1959. Foi o presente de formatura do então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek. Rodamos toda a cidade juntos, fizemos fotos juntos. Foi inesquecível.
 
Notisul – Além da medicina, você tem um viés cultural bem aguçado…
Warmuth – A literatura é muito presente na minha vida, embora eu tenha começa a desenvolver a escrita depois que completei 60 anos. Na escola, escrevia muito, até fui premiado com o direito de hastear a bandeira, o que era muito comum na época. Depois de me envolver profundamente  no meio, veio meu primeiro livro, “Memórias de um anestesista do interior”; em seguida, “Cem anos de amor pela vida”, que narra a história  do Hospital Nossa Senhora da Conceição; e depois veio o “120 anos da Tereza Cristina”. E, por último, “Porca Miséria”, sobre a imigração italiana no Brasil. Perguntaram-me de onde vinha a influência para escrever a obra, já que minha família é de procedência austríaca. A ousadia para escrever sobre os italianos é devido à convivência que tenho há 51 anos com minha mulher. É como se fosse uma italiana no Brasil, a primeira mistura ruim foi comigo! Mas temos uma miscigenação na família, minha mãe  é austríaca, o pai de Bagé. Ele foi estudar medicina na Europa, conheceu minha mãe e meu irmão nasceu na Suíça. Também participo de algumas revistas institucionais como Unimed, Unicred, cadernos de autoria promovidos pela Academia Tubaronense de Letras, onde sou tesoureiro. Ganhei até prêmio nacional por participação em livros. Já escrevi tantas coisas que até perdi a conta do quanto e o que, mas tenho inclusão até em um livro em parceria com outros escritores sobre contos eróticos. 
 
Warmuth por Warmuth
Deus – O Criador.
Família – Sentimento.
Trabalho – Necessário.
Passado – Apenas memórias.
Presente – Viver cada momento.
Futuro – Fazer muitos planos.
 
"Pedro Augusto Mena Barreto formou-se um ano antes de mim. Foi meu companheiro de equipe no Botafogo Clube de Regatas. Era de uma família tradicional carioca, por isso era muito bem relacionado. Conseguiu o melhor emprego para médico que havia no Rio de Janeiro, na Companhia Siderúrgica Nacional em Siderópolis. Eu, na esperança de poder conseguir o mesmo emprego, mantinha correspondência com ele. Foi então que ele me disse para vir para Tubarão".
 
É provável que o museu Ferroviário seja inaugurado oficialmente em até um ano”.z
 
“Quando eu completar 80 anos,  pretendo passar meu lugar como anestesista a um sucessor que estou preparando”.