Leonardo Alonso Rodrigues tem apenas 27 anos, é natural de Santo André, São Paulo. O jovem reside em Florianópolis há sete anos. Ele veio para o Estado Barriga-Verde porque em 2010 passou no vestibular em Ciências Econômicas na Universidade Federal de Santa Catarina. É formado há quase dois anos e atua por dois como analista de economia da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc). Na última segunda-feira, promoveu a palestra intitulada ‘O cenário econômico 2017’. O evento ocorreu na Associação Empresarial de Tubarão (Acit).

Jailson Vieira
Tubarão

Notisul: O país tem atravessado um período difícil. Você acredita que 2017 será um ano melhor que 2016?
Leonardo: Antes de começar a falar de 2017, temos que ter bem claro o tamanho da crise que ainda presenciamos. Viemos de um ano de 2015, no qual a economia recuou 4%, e em 2016, ainda, não temos os dados oficiais, mas é possível que os números sejam de 3,5%. Nos últimos dois anos, a economia caiu um pouco mais de 7%. De certa forma, isso nos trouxe uma crise generalizada à região, Estado e país. Só Tubarão fechou quase três mil vagas de empregos. Neste ano, deve ser diferente, mas ainda se inicia com um processo de grandes desafios pela frente.

Notisul: Temos uma economia em queda, porém as pessoas não têm deixado de comprar. O que se deve este consumo?
Leonardo: Quando se trata de consumidor, obviamente o consumo não pode parar, porém, a economia deixou de crescer como estava antes. Ainda mais com o aumento do desemprego, pois as famílias consomem menos e, paralelo a isso, a economia fica em retração. Santa Catarina sofreu com a crise, entretanto, não como em dimensão a outros Estados, por exemplo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Temos alguns fatores de diferença, contudo, essa crise ainda é muito real e presente.

Notisul: Dizem que o melhor período para investimento é na crise. Essa máxima é verdade ou não se deve aplicar nesta época difícil?
Leonardo: A crise é o melhor momento para se investir no sentido de oportunidades. Por isso um fator essencial é estar antenado nas tendências para, diante disso, ser tomada uma decisão mais acertada. Um exemplo, o Airbnb, uma empresa que foi inaugurada na maior crise dos Estados Unidos, e isso afetou a nível mundial, onde as pessoas começaram a utilizar-se disso como empreendimento. O próprio Uber iniciou-se em um setor tradicional, o qual era do táxi veio com uma ideia inovadora e atualmente tem tomado grandes dimensões, como temos observado. Diante de crises temos que tomar as nossas rédeas para que sejam aproveitados esses momentos e possamos fazer grandes investimentos e desta forma voltarmos a crescer.

Notisul: Qual a forma de colaboração da Facisc?
Leonardo: A Facisc tem ajudado muito os empresários e as associações comerciais com esta nova área da economia, apostando com as ferramentas de análise de dados, com essa percepção de quais são as tendências e isso serve para o empresário se preparar. Diante da crise precisamos ter uma gestão muito mais eficiente, a qual se adotava há três ou quatro anos. Estamos delineando qual o caminho que se pode seguir. Outro fator é de que como estamos diante de uma crise, ela depende essencialmente de diálogo do setor público, privado e sociedade civil organizada, e o papel da Facisc é ir ao encontro para tentar, junto com os órgãos competentes, sanar ou até propor novas ideias para a saída da crise.

Notisul: O Brasil ficou estagnado? De 2014 até os dias atuais, o país ficou parado?
Leonardo: Nas minhas palestras procuro trazer qual o grau de crise que estamos vivendo. Dimensiono. Estávamos de 2003 até 2014 em um crescimento, porém esse ciclo foi encerrado. E agora tomamos essas proporções menores da atividade econômica. Para fazer uma correlação, hoje, dentro das Américas Central, do Norte e Sul, em termos de crescimento o Brasil só ficou à frente de Suriname e Venezuela. Todos os países cresceram no ano passado, menos o nosso.

Notisul: Qual o cenário atual: A situação ainda é crítica na região?
Leonardo: Após esta contextualização trazemos alguns dados referentes do desemprego no país, o qual já abrange mais de 12 milhões de pessoas. E em Santa Catarina, apesar de ter a menor taxa de desemprego do Brasil, esta foi a pior desde 2012. Temos um cenário conturbado no país. Na região, Tubarão, nos últimos dois anos teve saldo negativo de vagas de emprego, chegou a 2.885. Infelizmente, com essa situação da economia, o impacto é geral, nos municípios, nos Estados e no Brasil.

Notisul: O que precisamos para realmente sair da crise?
Leonardo: Diante disso, pergunto até onde vai essa crise? Há uma luz no fim do túnel? Rapidamente digo que sim e começo a delinear a causa da minha resposta. Só de início atualmente temos uma tendência de inflação e juros menores… e esses fatores são instrumentos para que se volte o investimento, e também uma maior estabilidade econômica, capacidade de instalação de indústrias, ou seja, a cada dez máquinas que se tem em um parque industrial, apenas sete estão em uso, as outras três estão paradas por falta de demanda. Isso por falta de novas compras nos setores de comércio e de serviços, e isso abre margem para que, assim que retomamos o crescimento, não precisamos mais investir em novas máquinas. Com essa planta industrial já pronta, a situação fica muito melhor. Esse fator nos auxilia.

Notisul: O que pode ser auxiliado neste processo de crescimento. O brasileiro ainda sofrerá muito?
Leonardo: A taxa do câmbio, o dólar, também é mencionada nestes encontros. Atualmente, ainda é muito superior àquela de dois ou três anos. E isso tem feito que ocorram menos importações, que as pessoas tragam menos produtos do exterior, viagem menos para fora do país e voltem a aquecer a economia brasileira. Isso é outro fator que nos auxilia no processo de recuperação. Além disso, há outra variável: a expectativa de investimentos que vem de fora. Em 2014, chegamos a uma das menores entradas de capitais e agora, começamos a voltar a ter o crescimento desses capitais. Podemos aproveitar dos recursos que vem do exterior para poder retomar o aquecimento da economia brasileira.

Notisul: Quais recursos são esses? De onde vieram?
Leonardo: Esses recursos, em 2014 fecharam em 68 bilhões de dólares em investimentos vindo do exterior, e hoje temos uma tendência para 72 ou 73 bilhões. Um incremento de cinco bilhões que se espera vir para o Brasil. É um fator interessante e, com isso, temos uma percepção de mercado em mudança. Se analisarmos o índice Ibovespa nos últimos três meses nós temos crescido. Tanto este índice tem vindo de um aumento significativo, quanto como o valor das empresas transacionadas em bolsa. E isso nada mais é que uma percepção que o Brasil está voltando a crescer. Outro indicador seria a percepção do grau de risco no país: de investimento. Temos um conjunto de fatores, os quais sabemos que nos levará a uma retomada da economia brasileira. Vivemos um grande período da estagnação e para se ter essa melhora será em um processo gradual. Ela não virá de uma hora para outra, mas já começa ainda neste ano. Ainda não temos clareza quando será, mas acredito que no próximo semestre teremos um pouco mais de visualização com a retomada de empregos, na venda das indústrias e no comércio.

Notisul: Quem integra a Facisc?
Leonardo: A Facisc, atualmente agrega 146 associações empresárias, onde temos 34 mil empresas que compõem o sistema Facisc. O trabalho desenvolvido é colaborar com os empresários no sentido de capacitação, integrá-los para discutir os problemas, tentar solucioná-los em conjunto. Ela atua junto ao poder público, associações e federações, sempre tomando posicionamentos e opiniões sobre os fatos que ocorrem constantemente.

Notisul: A confiança aumentou por parte dos empresários ou população?
Leonardo: Nos últimos meses, vimos que o empresariado catarinense está mais confiante para a retomada do crescimento. As próprias famílias estão consumindo mais. Além disso, o Estado não aumentou os impostos assim como ocorreu em outras 21 Unidades da Federação. E como estamos em um cenário de retomada de crescimento da economia e investimentos, os empresários sempre colocam na conta os custos, quanto será para produzir e vender. Quando analisamos o mapa do ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação), estamos com uma alíquota interna de 17%, enquanto outros Estados estão com 17, o Rio de Janeiro chega a 19%. Como fator positivo com a capacitação de investimentos, a empresa vai analisar, ‘se pago menos impostos então trarei recursos e mais benefícios para esta região. Não temos tanta diferença em termos de competitividade e estrutura política para com o Sudeste, por isso é um ponto a se analisar.

Notisul: Santa Catarina foi o último Estado a ter problemas com a crise. Será o último a sair dessa situação adversa?
Leonardo: Temos conhecimento de empresas vindo se instalarem em Santa Catarina, como é o caso da Kelloggs comprando a Parati, um investimento do exterior. Há um conjunto de fatores que estão nos fazendo enxergar que o Estado tem tudo para sair primeiro dessa crise. Quando realmente estivermos na retomada do crescimento poderemos verificar que não temos tantos gargalos para resolver e se enfrentar como os demais Estados que passaram por dificuldades maiores.

Notisul: Quais seriam esses gargalos?
Leonardo: Sempre citamos que as melhorias seriam no setor de infraestrutura, que traria mais competitividade em um todo. Apesar de elencarmos esta questão, sabemos que Santa Catarina, hoje, é um dos poucos que ainda investem nessa área. Há Estados que estão correndo para pagar a folha de pagamento e nós estamos a todo vapor fazendo obras. Porém, esses gargalos que precisam ser sanados não são apenas no Norte, na região Oeste ou ainda no Sul, mas em todo o Estado.
No ano passado, a Cidade Azul sofreu com a falta de postos de trabalho, foram mais de 600 vagas, seguido por Laguna e posteriormente Imbituba. Entretanto, não foram todos os municípios que tiveram essas baixas, Braço do Norte e Jagurauna, por exemplo, criaram importantes vagas de emprego. O crescimento não foi significativo, mas foram perceptíveis.

Notisul: Quais são as propostas econômicas
Leonardo: Esse emaranhado de situações na política tem afetado nas decisões dos empresários para com os investimentos. Além disso, quando se trata de criar cenários mais favoráveis para os negócios, temos que passar por alguns processos para a criação de empregos e realização de investimentos, os quais podemos citar a Reforma da Previdência e Trabalhista, que são alguns pontos importantes a serem tocados. Não são atos simples, mas é necessário ter a consciência que temos problemas e que devem ser solucionados da melhor forma possível, para que volte a criação de novos empregos.

Notisul: Essas Reformas não devem ser levadas à população e só aí serem construídas?
Leonardo: As Reformas da Previdência e Trabalhista não são temas recentes, mas são postergadas desde 2002, quando já foram diagnosticados problemas financeiros. Elas não são nada simples de se resolver, e é necessário o debate, os pingos nos ‘is’ devem ser colocados para daqui para frente termos uma mudança. E qualquer modificação afeta a vida das pessoas de forma positiva ou negativa, mas temos que pensar em um conjunto de fatores, por exemplo, em 2050, mais de 40% da população será idosa. Acredito que durante o ano teremos grandes debates.