Na Defesa Civil de Tubarão há nove anos, Elna Pires já trabalhou na solução de problemas causados por eventos climáticos dos mais variados tipos, mas com certeza o vendaval do último domingo ficará vivo durante muito tempo não só em sua memória, como na de toda a população. Para exercer a função de coordenadora, precisa ser dura para ir em frente, mesmo nos momentos tristes e dramáticos, como tem que ser muito humana para se colocar no lugar de quem está na situação de vulnerabilidade. “Amo o que faço”, decreta!

 

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – Passada uma semana do vendaval que abalou Tubarão e região, o que podemos tirar de lição para o futuro?
Elna – Nós, da Defesa Civil, temos o mapeamento de 43 áreas de risco. Foram mapeadas pela CPRM, de Brasília. Nessas áreas, a Defesa Civil atuou nas fases de prevenção, mitigação e preparação. Essas fases são antes do desastre, preparando a população para o enfrentamento. Depois, tem a resposta e a reconstrução, que são pós-desastre. A melhor arma que temos é a prevenção, porque nós não temos força para impedir que o desastre aconteça, mas temos sim força para diminuir o impacto dele em nossas vidas. Isso inclui não construir em áreas de risco, não ocupar morros, margens do rio e áreas de alagamento. Tem também a questão do lixo fora do lugar, que chove e entope os bueiros. O desmatamento favorece os deslizamentos. São atitudes que todos temos que ter para proteger o meio ambiente, pois automaticamente estaremos nos protegendo. Essas ações devemos fazer sempre. E o que devemos fazer no momento do desastre? A Defesa Civil tem 32 abrigos cadastrados, com elevação a sete metros do nível do rio, pontos livres de inundações. Se a população sentir-se em risco por algum tipo de deslizamento, alagamento ou inundação, deve procurar um desses abrigos. Nós trabalhamos nas comunidades orientando onde ficam os abrigos, para facilitar o trabalho da Defesa Civil e também atender o maior número de famílias. Já imaginou se a Defesa Civil tivesse que bater de porta em porta? Muitas famílias ficariam para trás. 

Notisul – Existe algum local que se possa consultar onde ficam esses abrigos em caso de emergência?
Elna –
Existe, no site da prefeitura. No link da Defesa Civil, lá embaixo tem o Plano de Contingência. São cinco anexos, que incluem rota de fuga, a localização de cada abrigo. Esse abrigo funciona como ponto de encontro, ponto de espera e ponto de resgate. Se as famílias que se sentirem ameaçadas se concentrarem nesse ponto, facilita o auxílio. Se elas não podem ficar ali, serão resgatadas de qualquer maneira e transportadas para outro local seguro. Demos preferência para salões paroquiais e igrejas para eventos extremos. Temos também todas as escolas cadastradas, mas preferimos não utilizar como abrigo porque às vezes o desastre passa mas tem famílias que ainda não podem retornar para suas casas e acabam impedindo as aulas de voltarem à normalidade. Os salões e igrejas são mais flexíveis. A população pode e deve acessar a página da Defesa Civil e ter conhecimento desse plano. A qualquer dúvida, podem nos procurar, porque estamos aqui para esclarecer e tornar isso uma rotina da população. 

Notisul – Tem se especulado que os ventos podem até ser classificados com furacão. É possível? Conforme uma leitura do anemômetro, aparelho instalado em cima da torre eólica na Engie/Tractebel, a média do vento no domingo ficou em 122 km/h, com pico de 220 km/h.
Elna –
Para decretação da situação de emergência, nós utilizamos como vendaval, que caracteriza melhor o que ocorreu aqui. Para a documentação, tem que ser aquilo que se tem certeza. Também não foi tsunami. O sistema nacional tem várias classificações e aqui foi vendaval. Furacão é um outro fenômeno. 

Notisul – Quando ocorre um evento climático assim, de que forma são definidas as prioridades e como é distribuído o trabalho entre os profissionais engajados na força-tarefa?
Elna –
No nosso Plano de Contingência, temos o Grac, Grupo de Ações e Coordenadas. É composto por Polícia Militar, Exército, Bombeiro, IML, Defesa Civil, algumas secretarias da prefeitura, que são fundamentais no processo. Esse grupo, com 14 entidades, é o que dá a primeira resposta. Temos também a Compidec, Comissão Municipal de Proteção e Defesa Civil, que é composta por 60 entidades. O Grac é retirado de dentro da Compidec. São profissionais que já atuam diretamente no atendimento de pessoas. Acontecendo um evento desses, um desastre, como aconteceu, o primeiro pessoal a ser acionado é o do Grac, que vai dando a resposta. A partir do momento em que esse grupo já não comporta mais, gradativamente vai se acionando a Compidec, e as outras entidades vêm dando suporte. E Temos também auxílio do estado, como aconteceu dessa vez, com a Defesa Civil estadual desde o primeiro dia aqui em Tubarão. E assim vamos gerenciando o desastre. É assim que funciona, tudo previamente esquematizado. Até porque tem que saber o que fazer, quando fazer e como fazer. Dentro do Plano de Contingência, tem as atribuições, cada um com o seu planejamento específico, a sua maneira de atuação. Por isso que a coisa funciona, porque é coordenada. São pessoas que já estão capacitadas para atuar diretamente em desastres.

Notisul – Surgiram algumas críticas, principalmente nas redes sociais, sobre a falta de divulgação de que ocorreria a tempestade, já que a Defesa Civil tem acesso às previsões. Isso realmente ocorreu?
Elna –
Infelizmente, tínhamos previsão de chuva, de vento, mas que seria uma situação suportável. A formação desse evento que aconteceu foi muito rápida, acredito que ninguém tinha essa informação. A Defesa Civil atua 24 horas por dia, faz o monitoramento das previsões que recebe do estado. Julgar os outros é muito fácil, difícil é ser você e estar no lugar que você está. É o nosso trabalho, é a nossa obrigação estar aqui. Mas se trata de uma previsão, não uma precisão, e não tínhamos nem previsão desse evento. Infelizmente, há pessoas que gostam de tumultuar a situação. Se tivéssemos essa informação, com certeza a população seria alertada.

Notisul – De que forma a população pode ajudar a reconstruir a cidade?
Elna –
Temos na Arena Multiuso a concentração das doações e o cadastramento de voluntários. Se a você chegar lá e dizer que quer ser voluntário, existe uma pré-classificação e encaminhamento para realizar o trabalho. É só informar o que gostaria de fazer, o tempo que tem disponível. Todo voluntário é bem-vindo.

Notisul – Como vai funcionar a liberação do FGTS às famílias que sofreram algum tipo de prejuízo em suas residências?
Elna –
Já tivemos a experiência da liberação do FGTS em 2010, quando foram liberados os fundos para 11 mil pessoas. Nós só trabalhamos no cadastramento para a retirada, mas a liberação não é com a Defesa Civil. É um processo que a Caixa Econômica Federal vai capacitar as pessoas para trabalhar nesse cadastramento e nós vamos fazer o recebimento dos documentos, que serão todos repassados para a Caixa. É um processo que não temos nem data definida, porque estamos ainda correndo atrás do prejuízo, estabilizando as famílias que ainda estão fora de suas casas, que não têm condições de comportar todas as consequências do desastre, que ocorreu domingo, mas choveu direto. Não há ainda condições de parar para organizar essa questão, que é minuciosa. A documentação a ser apresentada para o banco tem que ser bem correta, e são muitos documentos. Hoje, tem famílias sem condições nem de apresentar essa documentação, ou porque molhou, ou perdeu, ou está na residência e não tem como retornar. O trabalho está concentrado a atender quem precisa emergencialmente, para não perderem o restinho que sobrou. O FGTS é um processo para depois. Mas estamos correndo contra o tempo para que seja disponibilizado o mais breve possível. Pedimos um pouco de calma, porque existem situações lamentáveis para resolvermos. Existem vidas que precisam do nosso auxílio agora, imediatamente.

Notisul – Há uma estimativa de quantas residências foram afetadas?
Elna –
Em períodos de normalidade, temos as casas que já são vulneráveis, imagine com todo esse desastre. As casas mais vulneráveis foram praticamente todas impactadas. Aquelas que temos os cadastros no Cras, de famílias mais carentes, são todas e temos que dar uma resposta para essas famílias. 

Notisul – E quem teve carros danificados tem alguma alternativa de buscar recurso para subsidiar o conserto?
Elna –
O que orientamos é que tirem fotos para questões de seguros. Depois, faremos uma vistoria. Para os carros atingidos na rua, nada impede que façamos também uma documentação. Tudo que for de pessoa física é na Defesa Civil e tudo que for de pessoa jurídica é no Corpo de Bombeiros. 

Notisul – Qual a estrutura da Defesa Civil hoje?
Elna –
Na Amurel, Tubarão é o município mais bem estruturado. Temos uma estrutura básica, mas com condições de dar uma resposta, de desenvolver um bom trabalho. É claro que precisamos de muito mais. Hoje, temos uma equipe de oito funcionários, dois veículos e duas embarcações para os atendimentos. Em período de normalidade, é mais que suficiente. Mas, numa situação como a atual, não. É onde entra o Plano de Contingência, o qual prevê que toda a estrutura da prefeitura fique à disposição, incluindo veículos, máquinas.

Notisul – Quais as principais dificuldades do órgão para atender situações de grandes proporções como a que ocorreu no último domingo?
Elna –
A maior dificuldade é porque a demanda é muito grande. Dependemos também de outras secretarias e entidades. Mas isso é mínimo, porque as pessoas estão muito comprometidas com a causa, todos chegaram junto para ajudar mesmo. O que nos deixa agoniados é que queremos fazer tudo o mais rápido possível, mas a chuva quase não dá trégua. Graças a Deus, não temos dificuldades com pessoas, pelo contrário, todos estão muito a fim de ajudar. Até mesmo empresários impactados querem contribuir.

Notisul – O Plano de Contingência de tubarão é adequado? O que ele prevê na prática?
Elna –
O Plano de Contingência tem que ser atualizado sempre, porque a demanda vai aumentando. Ele é muito importante porque é um manual de como atuar em caso de desastres. Nele, constam todos os sinais de riscos do município. Através do plano, realizamos um cadastro de todas as famílias em áreas de risco, até para classificar os abrigos. Sabemos quantas pessoas têm nos bairros, quantas crianças, quantos adultos, se tem acamados, cadeirantes… Porque até o transporte e a acomodação têm que ser diferenciados. Fizemos um trabalho com as agentes de saúde, que ajudaram muito, no levantamento dessas informações, que com certeza é um norte para nossa atuação. Se telefonam de uma comunidade, já sei quais os riscos, a quantidade de famílias e o que tem que fazer. Todos os municípios deveriam ter um Plano de Contingência, pois é um guia para realizarmos nosso trabalho com muito mais eficiência.

Notisul – Como a Defesa Civil avalia a demora na execução do projeto de redragagem do rio?
Elna –
Esse é um projeto importante, mas não é a solução. São anos e anos de espera, muitos papéis e projetos, mas a execução nunca. Se executasse o projeto, já ajudaria muito, minimizaria muito o impacto no município. Mas os anos vão passando e a situação vai só se agravando. Se avaliarmos a enchente de 74, a população era de 60 mil habitantes, hoje são mais de 100 mil. Locais em que eram banhados hoje têm prédios, casas. A BR-101 é duplicada. Se der outra enchente, nem precisa ser da intensidade da de 74, mas não sobra nada. A água nem tem para onde escoar. As áreas de planície de inundações estão todas ocupadas. A destruição seria quase total. 

Notisul – Além do desassoreamento do rio, o que precisaria ser feito?
Elna –
Uma conscientização. Já está sendo feito um Plano Municipal de Drenagem. Hoje, 80% da rede de drenagem de Tubarão ainda é herança de 74. Não dá conta, por isso que alaga tudo. Nos últimos meses, melhorou bastante. Já temos a avenida Padre Geraldo Spettmann, que teve toda a tubulação trocada, a rua dos Ferroviários… Mas o município como um todo já não dá mais conta. Primeiro, é preciso fazer uma boa drenagem em todo o perímetro, daí sim a água vai ter escoamento, e uma absorção maior. Depois o rio. Porque o problema do rio é quando a maré sobe e represa a água. Mas fica esse jogo de empurra-empurra e não se faz nem a dragagem, nem a drenagem. O Plano de Drenagem tem um prazo de dois anos para ficar pronto e vai indicar o que vai resolver o problema de cada localidade. Depois de fazer esse estudo, tem que executar, porque daí sim o município vai dar uma respirada.

Notisul – A enchente de 74 ainda está muito fresca na memória dos tubaronenses, até mesmo na de quem nem era nascido na época. É possível tranquilizar a população sobre uma possível nova cheia?
Elna –
Tranquilo nunca podemos ficar. É um ciclo, e depois de 40 anos ainda não tivemos mais nenhuma daquelas, só inundações parciais. É preciso trabalhar na prevenção e sempre estar alerta. A população de Tubarão nunca está tranquila. Vivemos uma pressão entre a serra e o mar, num município que é cortado pelo rio e pela BR-101… Somos um município bomba. Não precisa nem chover em Tubarão. Se chover na serra e represar a água, já somos impactados. E nossa maior arma é a prevenção.

Abrigos cadastrados
• Igreja e Salão Paroquial São Martinho
• Associação do Banco do Brasil (ABB), no bairro São Martinho
• Escola Martinho Alves dos Santos, bairro São Martinho
• Igreja e Salão Paroquial São João Batista – São João Margem Esquerda
• Igreja e Salão Paroquial Morrotes
•  Igreja e Salão Paroquial Nossa Senhora de Fátima de Humaitá
• Catedral, no Centro
• Salão Comunitário da Igreja do Sombrio
• Igreja e Salão Paroquial ao lado do Hotel Sandrini, Guarda Margem Direita
• Igreja e Salão Paroquial do Km 63
• Igreja e Salão Paroquial Fábio Silva
• Ginásio atrás da Escola Faustina da Luz Patrício, em Oficinas
• Igreja e Salão Paroquial Bom Pastor
• Igreja e Salão Paroquial do São Cristóvão
• Centro Social Geremias Bristot, no Monte Castelo
• Igreja e Salão Paroquial de Congonhas
• Igreja e Salão Paroquial Santa Rita, na Madre
• Colégio Hercílio Luz, no Centro
• Centros de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), no Centro
• Escola Estadual Henrique Fontes, no Humaitá
• Escola Municipal Maria da Silva Correa – Caruru
• Igreja e Salão Paroquial do Caruru
• Igreja e Salão Paroquial da Guarda Margem Esquerda
• Igreja e Salão Paroquial do Sertão da Jararaca, no Bom Pastor
• Ginásio Paulo Jacob May, no Humaitá
• Associação dos Ferroviários, em Oficinas
• Igreja e Salão Paroquial São Francisco de Assis, no Monte Castelo
• Igreja e Salão Paroquial São Pedro, em Sertão dos Corrêa
• Associação dos Funcionários da Luminar, em Congonhas 
• Salão Paroquial e Centro Catequético São Francisco de Assis
• Salão Paroquial Santa Terezinha, na Passagem
• Salão Paroquial Sagrado Coração de Jesus