Maurício Fernandes Pereira, 39 anos, é o atual presidente do conselho de educação do estado. Natural de Laguna, é formado em administração, tem mestrado e doutorado em engenharia de produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc). Também é presidente da Fundação de Ensino e Engenharia de Santa Catarina (Feesc), coordernador do curso de Administração na Ufsc. Estudou grande parte de sua vida em instituições públicas. Cursou parte do ensino médio em Tubarão, no colégio São José. É casado com a tubaronense Cristiane e pai de Vinicius, 3 anos.

 

Karen Novochadlo
Tubarão

Notisul – Quais são as atribuições do Conselho da Educação?
Maurício – O conselho tem como grande atribuição trabalhar na normatização e regulamentação do ensino em Santa Catarina, da educação básica até o nível superior. Nós criamos normas, regras, portarias. E a secretaria de educação do estado tem a função de executá-las. As secretarias municipais têm a responsabilidade de cuidar do ensino fundamental, de 1ª a 5ª série. De 6ª em diante, é responsabilidade do estado. Para ter uma ideia, no ensino superior, todo o sistema Acafe passa por lá. Nós autorizamos e reconhecemos cursos, credenciamos universidades. Também recebemos denúncias. Volta e meia, mandamos fechar uma escola. Nas próximas semanas, duas escolas de educação à distância do estado serão fechadas. Na educação à distância, por exemplo, podemos encontrar vários problemas, como a tecnologia inadequada, o que é picaretagem. Aprovamos um projeto e executam outro. Nós vamos lá apurar, através das gerências regionais de educação.

 
Notisul – Há algum tempo voltou-se a falar em municipalização do ensino fundamental. O que pensa a respeito?
Maurício – Há uma discussão nacional sobre esse assunto, mas nada definido. Hoje, o que está claro é que até a 5ª série é responsabilidade do município. A municipalização é no sentido da autonomia do sistema. É a própria prefeitura executar a política pública da educação, não precisa esperar o estado. Você não pode municipalizar a educação e não dar recursos. Temos no país um grande problema: a grande maioria dos impostos arrecadados em Tubarão ou qualquer município vai para o governo federal. Um percentual menor vai para o estado. E um menor ainda vai para o município. Tem algo errado neste sistema. Quer dizer, os recursos provenientes de Tubarão deveriam permanecer no município. Agora, as cidades que não geram renda, quem vai bancá-las? Tudo precisa ser discutido. 
 
 Notisul – Li um artigo seu, onde você fez uma citação de Darcy Ribeiro: “A escola básica não alfabetiza, a média não ensina e a superior simula ensinar”. O que quis dizer com isso?
Maurício – Eu quis dizer que se pegar qualquer indicador de educação do Brasil, Santa Catarina sempre estará entre os cinco primeiros. Mas, quando você compara com coisas ruins e está bem, não é bom. Você tem que se comparar com os melhores do mundo. É um engano pensar que Santa Catarina está bem. Se está, em relação a quem? Se for ao mundo, está uma tragédia. É uma série de problemas: escolas que não funcionam, professores que faltam, dificuldades na merenda. Na minha visão, o principal problema é que o estado brasileiro não coloca educação como prioridade. Deveria ser uma política do estado. O que tem fazer é entender que educação é prioridade. O professor tem que ser entendido como a pessoa mais importante do estado. O salário do professor tem que ser melhorado, a escola tem que ser melhorada. Na hora que começar a fazer isso, começa a resolver os problemas. 
 
Notisul – Os professores reclamam da insegurança dentro da sala de aula…
Maurício – Na hora em que um país tem que colocar seguranças na entrada de uma escola para que o aluno e o professor possam entrar, tem alguma coisa errada. O problema da educação também é social. Temos de investir, por exemplo, em tempo integral na escola. A criança não pode andar na rua. Um conhecido que estava na França, passeando com o filho, foi abordado por um policial. ‘Por que o seu filho está fora da escola? É horário de aula’. Era período de férias no Brasil e ele estava passeando. Em várias cidades do Brasil, vemos crianças que deveriam estar na escola, mas estão fora das salas de aulas por diversos motivos. Um motivo absurdo é que às vezes não tem escola à disposição.
 
Notisul – É difícil encontrar estabelecimentos que ofereçam ensino integral. Há turmas diferentes de manhã e à tarde… 
Maurício – Esse é um problema. Outro problema é que muitos pensam que tempo integral significa que a criança deve ficar à tarde na escola para brincar. A criança tem que brincar, mas dentro de um projeto pedagógico. Um coreano me falou que em seu país as crianças entram na escola às 7 horas e saem às 19 ou 20 horas. E, quando chega perto de entrar na faculdade, elas ficam na escola até de madrugada. Não estou dizendo que isso é melhor, mas é melhor que ficar três ou quatro horas na escola. Uma vez, quando eu visitava uma cidade no oeste de Santa Catarina, parei o meu carro e entrei em um bar para tomar uma água. Eu vi uma criança lá, era a filha da dona. Eu perguntei se a menina não tinha aula. A mãe me respondeu que naquele dia teria homenagem ao dia das mães à noite,  a escola não teria aula para se preparar. Olha que barbaridade. Sorte que ela tinha como deixar a folha em algum lugar, e os pais que não têm?
 
Notisul – Fala-se muito da valorização dos professores. A categoria, inclusive, está de greve porque não recebe o piso nacional…
Maurício – Na verdade, na minha visão, o estado vai pagar o piso. Não tem como não pagar. Existe um documento no estado: diagnóstico da educação em Santa Catarina, feito pela Organização de Cooperação para Desenvolvimento Econômico. É uma organização onde estão os 38 países mais desenvolvidos do mundo. O Brasil não faz parte. Na época do presidente Fernando Henrique Cardoso, a organização foi contratada para fazer um raio-x da educação em Santa Catarina. O governo não só contratou, como também publicou um livro sobre as mazelas do ensino. Entre uma delas, estava o salário baixo do professor. Se um professor iniciar a carreira ganhando R$ 560,00, está mal a coisa. O professor tem que ganhar bem e ser valorizado na sociedade. Na Coreia do Sul, o professor ganha razoavelmente bem. Mas lá é reconhecida como a profissão mais importante da sociedade. No Brasil, professor ganha mal. Temos que mudar essa lógica. Santa Catarina está caminhando bem em educação. Tenho conversado muito com o secretário de educação, Marco Tebaldi. Ele está muito bem intencionado. Vamos ter mudanças substanciais, mas o caminho é longo. Você não muda uma sociedade ou a educação da noite para o dia. Querem colocar escola em tempo integral. A pergunta do estado e dos municípios é: quem paga a conta? E as escolas que já têm dois turnos? Como vão ser contratados novos professores? Como? É uma piada total se dissermos que não podemos ter escola em tempo integral. Nós temos um município no Paraná com 100% das escolas com ensino integral. Não precisamos dizer que isso diminuiu a criminalidade. Não podemos dizer que não dá para fazer e não fazer nada. Não. Temos que começar, uma escola, duas escolas, e assim vai.
 
Maurício por Maurício
Deus: Força. 
Família: Razão da minha existência.
Trabalho: Dedicação.
Passado: É uma experiência que deve ser entendida.
Presente: Momento mais importante da nossa vida. É uma dádiva.
Futuro: Nós construímos o nosso próprio futuro.
 
Professor deveria ser a profissão mais valorizada do país. Existem professores que se envergonham da profissão. 
Quando você pergunta onde trabalham, respondem em tal empresa. A empresa, que é o bico, transforma-se em emprego prioritário, isto em decorrência do salário, das condições de trabalho.