Carina Machado
Brusque*

Notisul – Como iniciou o projeto e a implantação do voto eletrônico?
Carlos Prudêncio
– O projeto começou em 1988 e todos os testes de protótipos e do sistema foram feitos dentro do fórum, até a sua finalização. Na época, contamos com o apoio de diversas pessoas, que eram voluntárias durante os testes. Da classe empresarial, sindicatos, classe de professores, vereadores, juízes, secretários, e até os analfabetos, porque tínhamos que mostrar que aquilo funcionava realmente para todos. Entretanto, quando pronto, em 1989, fomos proibidos de aplicar pelo então presidente do Tribunal Regional Eleitoral. Isso foi muito difícil, porque foi inventado algo e queríamos mostrar a todos que já haviam criado uma expectativa e passaram a acreditar no processo. Porém, em uma hora de audiência defendendo o projeto, a única resposta que tive foi negativa. Meu pessoal ficou desnorteado com o ‘não’. Mas erguemos a cabeça, trabalhamos mais um ano inteiro e, em 1989, não esperei o ‘sim’, no dia das eleições, primeiro turno, a urna eletrônica passou a funcionar. Às 17 horas, após inserir minha senha pessoal, fizemos a transmissão dos dados daquela seção para um outro micro instalado em outro prédio, onde os resultados foram impressos no boletim de urna. No segundo turno presidencial de 1989, aplicamos na prática mais um capítulo daquele projeto original, ao simular duas seções interligadas em prédios distintos, e ambas ligadas ao local de apuração em um terceiro prédio. O sucesso foi completo e instantâneo, e, a partir daí, passamos a contar com a possibilidade de interligação do sistema.

Notisul – Devido ao sucesso do voto eletrônico, em 1990, Brusque recebeu o presidente do TSE na época. Como se deu esta visita?
Carlos Prudêncio
– Na época, o presidente do TSE era o ministro Sidney Sanches, que mandou todos os 27 diretores-gerais dos TREs e o diretor de informática do TSE, Roberto Siqueira, a Brusque, para, durante três dias, analisar o projeto em sua totalidade. E fez mais: ele próprio veio à cidade, no dia da eleição nacional de 4 de outubro de 1990, para assistir ao sistema aplicado em cinco seções interligadas eletronicamente. Um detalhe: ele mesmo votou “naquela novidade”. Isso foi noticiado em todo país, fazendo com que Brusque, uma cidade de interior como diziam, fosse o centro das atenções de toda imprensa brasileira. E a partir daí, o TSE incorporou a idéia, e, em junho do mesmo ano, entreguei finalmente a cópia do projeto ao ministro. Nas eleições de 1992, 1994 e no plebiscito de 1993, completei o projeto ao lançar a primeira urna eletrônica, o aproveitamento do voto do eleitor em trânsito, a caneta ótica, a tela de toque e o título de eleitor eletrônico.

Notisul – Hoje, depois de 20 anos, como o senhor avalia o desenvolvimento do projeto?
Carlos Prudêncio
– Não é uma decepção minha, mas vejo que ele não avançou. Passamos esses anos todos, desde 1988, quebrando a cabeça desenvolvendo o projeto da eleição do futuro. Porém, aparentemente 20 anos não é muito, mas em termos de eletrônica e tecnologia é. Atribuo isso a uma política conservadora, porque não é possível que em 20 anos não tenha avançado, com toda tecnologia que existe.

Notisul – No que consiste o projeto da eleição do futuro?
Carlos Prudêncio
– Neste projeto, o cidadão poderá votar de sua própria casa, de qualquer lugar do mundo, através da internet. Seja no seu computador pessoal, pelo celular, ou em terminais disponibilizados em locais públicos como rodoviárias, escolas, centros sociais, por exemplo. Entretanto, isso não aconteceu ainda. E é um projeto antigo. Viemos batalhando nisso desde 1996, quando apresentamos o projeto ‘Eleição Eletrônica do Futuro’, que hoje já é passado. Para se ter idéia, a biometria, que este ano será realizada em São João Batista, já consta em nosso projeto de 1988. Mas continuo lutando, tanto que estou reapresentando o projeto ao TSE e sou confiante em vê-lo implantado em sua totalidade. Vou insistir porque penso que temos que evoluir.

Notisul – A cada processo eleitoral, é levantada a questão da segurança da urna eletrônica. Este ano, inclusive, foi mencionada a possibilidade de fraude. Afinal, o sistema é ou não seguro?
Carlos Prudêncio
– Temos uma tecnologia que não permite qualquer tipo de fraude no voto eletrônico. Afirmo com toda certeza que o sistema é 100% seguro, não há fraude, pois, terminada a eleição, o presidente da seção divulga um resultado de imediato, que abonado pelos representantes de partidos políticos que estão no local, é lacrado na presença de todos, e levado à central de apuração. Ali, os representantes dos partidos comprovam que é o mesmo disquete, ou seja, foi encaminhado ao local de forma inviolável ao juiz eleitoral, onde é dado o resultado, que não pode ser diferente do já divulgado na seção. Portanto, temos a chamada dupla segurança: a segurança absoluta, feita por técnicos, e a segurança da fiscalização, pois o primeiro resultado terá que coincidir com o que será contabilizado depois na central de apuração.

Notisul – O que o senhor espera destas eleições?
Carlos Prudêncio
– Este processo eleitoral será realizado com muita segurança, acredito nisto, mesmo que saiba que é um sistema antigo.

* Especial da Central de Notícias Regionais/ADI, para o Notisul.