Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Qual é hoje o cenário da câmara de vereadores de Tubarão?
João
– São dez homens com ideias diferentes. Acho que cada um mostra a sua vontade e aquilo que quer fazer. E avalio que é este mesmo o papel, o pensamento do vereador. Acredito que há debate, alguns mais acalorados, um puxa mais para um lado, outro para o outro. O que está declarado é que existem dois grupos dentro da câmara: um que cobra e um que deixa de cobrar.

Notisul – E você faz parte de qual ala?
João
– Eu faço parte da ala da mesa diretora. Não sou oposição, mas faço parte dos que cobram, dos que foram eleitos para cumprir seu papel: o de fiscalizar o executivo. Sou do partido do governo, mas não posso compactuar com o que eles (os vereadores de situação) dizem: que são governo. Não sei até que ponto, porque eles também têm seus interesses e vão mostrar quais são logo.

Notisul – Por que começou a briga na câmara?
João – A briga na câmara é algo histórico. Já teve até soco. Estes dias, falei com Walmor Zacaron, e ele contou que uma vez tirou um cara com cadeira e tudo da câmara. Ele me mandou seguir minha linha porque a considerava certa. E vou seguir este conselho. Todos têm algum tipo de interesse e, muitas vezes, estes interesses falam mais alto do que o bem da cidade, do povo.

Notisul – Então, a briga é por interesse?
João
– É. A política é um jogo de interesses

Notisul – E qual o seu?
João
– É que a população ganhe com meu mandato. Eu já ganhei muito na minha vida. Deus me abençoou. Eu era agricultor. Perdi meus pais aos 12 anos. Casei-me aos 17 anos, tenho dois filhos e hoje só tenho a agradecer. Tanto pela minha família quanto pelas coisas materiais também. Não preciso de mais nada. Fiz uma campanha em seis meses, venci e hoje presido a câmara. Por isso, quero dedicar meus quatro anos de mandato para quem me colocou lá.

Notisul – Por falar em presidência, a briga sua com os vereadores de situação começou justamente por isto: para eles, você puxou o tapete de Edson Firmino (PDT). Puxou mesmo? O que houve?
João
– Edson era candidato a presidente e tinha apoio do (prefeito) Manoel Bertoncini (PSDB). Mas eu entendi que não estava dentro do círculo deles e segui meu caminho sozinho. Candidatei-me pelo outro partido e elegi a mesa diretora com a bancada do PMDB, que não era a que Manoel queria. Porém, demonstrei que ele (o prefeito) poderia ganhar muito com isso e ele entendeu. O problema foi que o vereador Haroldo Oliveira Silva (o Dura – PSDB) chegou com seu teatro e começou a disseminar a discórdia.

Notisul – Você considera que Dura é o pivô desta briga?
João
– Um líder de governo serve para apaziguar, algo que o atual não sabe fazer. Ele (Dura) está lá porque o prefeito quis. Ele não tem mandato. Não foi legitimamente eleito. Se o PSDB não fosse governo, ele não estaria na câmara. Nilton de Campos (atual secretário de desenvolvimento urbano) e João Batista (de Andrade – secretário de segurança e trânsito) não teriam deixado suas cadeiras em detrimento a cargos na administração se o PSDB não fosse governo. Garanto: a hora que ele sair da câmara de vereadores, aquilo volta a ser um mar de rosas porque não teremos mais uma pessoa pregando a discórdia, 24 horas fazendo política. Ele não tem um trabalho, o serviço dele é ficar levando fofoca do legislativo para o executivo. É uma formiguinha carregadeira de fofoca e de discórdia. E é isso que ele faz. Não sei que tipo de atitude Manoel terá com ele. Enquanto o prefeito não intervir, a câmara de vereadores continuará em pé de guerra, com tumulto. É uma bola de neve que só cresce por causa de uma única pessoa.

Notisul – Pelo que parece, vocês têm um desentendimento pessoal…
João
– Não. Eu conheci Dura na campanha de vereadores. Já tinha ouvido falar. Mas não sabia que ele era esse Dura de agora.

Notisul – E “João Sarney”, o “João Hugo Chávez” (risos)?
Dura
– Até me sinto lisonjeado de ter sido comparado com estas duas pessoas, afinal, uma é presidente república (da Venezuela) e outro presidente do senado. Mas o enfoque dado não tem nada a ver comigo. Não vivo de dinheiro público como Sarney e não sou anti-democrático como Chavéz. Quem diz isso deveria olhar para si antes de apontar os outros. Eu e minha família não vivemos da vida pública, do dinheiro do povo. Pelo contrário. O que me doeu foi como isso foi dito, comparado. Quem é Dura para falar isso de mim?

Notisul – Você quer dizer que ele “dança conforme a música”?
João
– Ele é o legítimo político que segue o poder e não o partido. Acordo às 7 da manhã para tratar dos filhos de quem acorda ao meio-dia porque vive do dinheiro público. Na época que Dura apoiava Genésio (Goulart – PMDB), chamava (Carlos) Stüpp (PSDB) de “meu loro”. Hoje, é “Stüpp, meu líder”. Amanhã, se o PSDB não estiver no poder, ele segue para outra sigla.

Notisul – Como o partido reage com você?
João
– Não é porque você é partidário que tem que seguir a ideia de todos eles. Eu tenho meu pensamento e não sou obrigado a aceitar a dos outros, apenas a respeitar. O PSDB me convidou para ser candidato, não para ser eleito. Filiei-me no último dia e saí vitorioso. Com certeza, fui uma surpresa para os tucanos e outros partidos.

Notisul – Não pretende sair do partido?
João
– Não. De maneira alguma. Até porque busco caminho com Marco Tebaldi, vice-presidente do PSDB catarinense, e ele tem me mostrado que (política) é deste jeito mesmo.

Notisul – Mas existe um movimento para te expulsar da sigla…
João
– Eu tenho falado com grandes lideranças do partido em Tubarão – entre eles Carlos Stüpp, Anselmo De Bona (atual secretário de comunicação), Nilton de Campos (desenvolvimento urbano), Sargento Batista (segurança e trânsito) e Toni Bittencourt, presidente da sigla – e não os vejo com esta ideia em nenhum momento. Mas, enfim, quem manda no partido é o presidente e o diretório. E se eles decidirem pela minha expulsão, acato. O que têm que entender é que eu apenas tenho ideias diferentes. Apenas isso. Não sou o tipo de pessoa que fica em um partido à procura de um ninho cheio de comida como um passarinho.

Notisul – Dizem que o partido não te repreende porque você prometeu ser cabo eleitoral do futuro candidato à assembleia Carlos Stüpp. É verdade?
João
– Eu nunca prometi isso para Carlos. Já declarei que ele é meu candidato. E é. Mas isso qualquer cidadão pode fazer. Não há nada prometido para ninguém. Eu poderia estar fora do PSDB e o meu candidato continuaria sendo Carlos Stüpp. Não misturo as coisas.

Notisul – Pode não ser, mas a aprovação do convênio entre a prefeitura de Tubarão e a ONG Movimenta-Cão tornou-se o estopim para a declaração de guerra na câmara. Foi?
João
– Não. Esta discórdia, na verdade, somente aumentou depois disso porque o vereador Dura já trabalhava para dividir completamente a casa. Ele é mestre em levar fofoca de um grupo para o outro e depois para o executivo.

Notisul – Mas você comparou crianças de rua com cães…
João
– Não. Nunca. O que eu disse é que projetos destinados a crianças deveriam ter a mesma importância e prioridade que o destinado aos cachorrinhos. Está lá gravado. Tenho pena dos bichinhos e eles merecem mesmo ter um espaço digno. Mas as crianças que sofrem em hospitais, com doenças degenerativas ou graves, que precisam de um transplante, como meu filho já precisou, não vi nenhum vereador levantar esta bandeira. Pergunta para Dura se ele já levou uma criança pobre que faz quimioterapia para Joinville, para Porto Alegre. Pergunta se um dia ele dispensou uma hora em prol de uma criança que precisa. Agora, a cachorrinha dele para fazer fisioterapia em Florianópolis ele leva toda semana. E ele vive com o dinheiro público. A urna já mostrou muita coisa para o vereador Dura, e duas vezes.

Notisul – A câmara abriu um processo contra o vereador Deka May (PP) por falta de decoro parlamentar. Como está a questão?
João
– Ele defendeu-se, mas não se explicou. Ele disse que tem gente corrupta, faz esquema e que infecta o poder legislativo de Tubarão, e não apontou quem são estas pessoas. Não diz porque não tem coragem e ombridade. Se ele faz isso, hoje estaríamos cassando esta pessoa. Sem apontar as pessoas, parece que todos são do mesmo saco. E não são. Eu não sou. Agora, vamos ver de que forma podemos perguntar novamente. Segundo Deka, existe um vereador que faz esquema e é corrupto. O povo merece saber quem é.

Notisul – Você e a ala peemedebista fizeram uma série de requerimentos para o executivo, especialmente sobre convênios e pagamentos. Em contrapartida, a ala da situação dispara requerimentos semelhantes, mas com foco do legislativo. Como você vê esta disputa por quem pede mais?
João
– Sinceramente? É uma pergunta burra o que a outra ala faz, porque tudo que eles requerem agora foi pedido e respondido em março deste ano. Só gastam papel mesmo. Já disse várias vezes que não é necessário requerimento nenhum. Basta largar um ofício na mesa da secretária que ela providencia o que quiserem. Eles querem audiência. Já nós apenas cumprimos com nosso trabalho, que é exatamente de fiscalizar, questionar as ações da prefeitura.

Notisul – O que você mais aprendeu com a política?
João
– Que a política tem jeito, mas quando as pessoas querem fazer da maneira correta. É difícil, mas não é impossível.

Notisul – Você acha que o seu jeito é o correto?
João
– É sim. Eu não estou lá com interesses políticos. Mesmo porque não preciso daquilo para nada. O problema é que muitos fazem a gente passar pelo vilão, sem ser.

Notisul – Então, você sente-se um injustiçado…
João
– Sinto-me. Denigrem minha imagem. Com certeza. E isso é triste. Pode ir pesquisar minha vida: de onde eu vim, o que sou hoje e como cheguei lá. Foi com muito trabalho. Acordo-me às 6 horas para pagar meus impostos e sustentar estas famílias que vivem no círculo político.

Notisul – Você diz que não será mais candidato para nada. Tem certeza?
João
– Absoluta. Mas até 2012 vou mostrar muita coisa da política ainda. Em 2012, quando tiver algum no palanque, vou poder apontar e falar o que penso e com conhecimento de causa.