Assessor parlamentar na assembleia legislativa de Santa Catarina e consultor político credenciado na Associação Brasileira de Consultores Políticos do Brasil (Abcop), o tubaronense Laércio Menegaz Junior atuou na coordenação de várias campanhas eleitorais no estado, para vereador, prefeito, deputado estadual e federal. Atuou nas áreas de coordenação e operacionalização, consultoria de marketing, planejamento estratégico, análise de pesquisas, seminários e eventos. Atualmente, chefia o gabinete do deputado Joares Carlos Ponticelli, presidente estadual do PP. A convite do professor Carlos Manhanelli, presidente da Abcop, acompanhou a delegação brasileira no Seminário de Campanhas Eleitorais, em Washigton, durante a eleição presidencial americana, entre os últimos dias 5 e 12.

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – Como foi participar de um seminário durante a eleição para presidente dos Estados Unidos?
Laércio
– Foi uma emoção muito grande! Passei quatro dias aprendendo na George Washigton University, justamente nos últimos dias da eleição americana. Foi o meu curso de número 37, porém, o primeiro internacional. Além do conhecimento teórico adquirido com as palestras, a troca de experiências com consultores políticos do mundo inteiro enriqueceu o aprendizado. Eram aproximadamente 300 consultores, de 27 delegações de todo o mundo. Potencializei informações sobre processos eleitorais e a aplicação de políticas públicas de várias nações. Com relação aos Estados Unidos, tive a oportunidade de visitar várias seções eleitorais e entrevistar eleitores assim que eles saíam da cabine de votação. Os presidentes de mesa nos explicaram como funciona a eleição, nos deram uma cópia da cédula e nos explicaram sobre os cargos em disputa. A teoria e a prática valeram cada minuto.

Notisul – Há muitas diferenças em relação às eleições daqui?
Laércio
– Algumas. O fato do voto ser facultativo é a primeira diferença. O eleitor que enfrenta uma fila de 20 minutos para votar por livre vontade é sinal de que está preparado para exercer sua cidadania. E olha que dia da eleição não é feriado e as pessoas trabalham normalmente. Sinto que o voto lá é mais razão do que emoção. O que me impressionou positivamente foi a participação do eleitor americano em temas importantes e muitas vezes polêmicos. Isto porque, além da eleição para presidente, governador, senador e deputados, eles votam também nos plebiscitos. Carteira de habilitação, legalização da maconha, pena de morte e os valores a serem investidos em educação e saúde, por exemplo, são decididos também no dia da eleição em cada estado. Os temas em debate fazem com que as pessoas votem com consciência, o que torna a democracia mais participativa. A constituição americana tem poucos artigos e o governo federal garante condições mínimas para a unidade da nação, normalizando, por exemplo, a política externa e defesa. No mais, cada um dos 50 estados tem uma liberdade maior para elaborar as suas leis.

Notisul – Estavas torcendo por algum candidato?
Laércio –
Eu estava torcendo para Obama. Na verdade, o mundo todo torcia por ele. Frank Greer, um dos palestrantes do seminário e publicitário da campanha de Obama, falou das estratégias dos Democratas para atrair os latinos. Ele mostrou uma peça publicitária estrelada pela latina Jenifer Lopez que emocionava. Ela convocava todos os latinos a votarem no Obama. Além disso, o próprio Obama tinha um site em espanhol, o que por si só já aproxima. Mas para ampliar ainda mais ele falava de saúde e educação para os latinos. Romney, inversamente, foi conservador e, para agradar a extrema direita do seu partido, não tratou do assunto como deveria.

Notisul – Na sua visão, o que levou à vitória de Obama?
Laércio
– É uma pergunta muito interessante, até porque Obama conquistou a reeleição e seus principais projetos de governo não tiveram aprovação popular. A Lei da Saúde criada por ele, por exemplo, não decolou. O desemprego é alto e a economia não vai bem no país. Os Democratas dizem que Obama recebeu uma herança maldita de Bush. Já os Republicanos atacam que Barack Obama foi incompetente. Mas afinal como ele ganhou? Soube somar as minorias: negros, africanos, asiáticos, latinos, que foram decisivas em sua eleição. Eles acreditam que ele precisava de mais um mandato para fazer o país decolar. Outro fator importante foi a participação de duas pessoas na campanha: Michele Obama, esposa do candidato. Você não tem ideia de como ela é querida e popular no país. Havia muitas faixas, camisetas e materiais de campanha com o nome dela. O outro foi ex-presidente Bill Clinton. Ele tem um prestígio muito grande perante os americanos, até porque em seu governo a economia foi bem. Era comum ver o Clinton em vários eventos importantes de campanha e também propaganda de TV.

Notisul – Como era a mobilização das campanhas?
Laércio
– Lá, os materiais de campanhas são vendidos. Você pode entrar em várias lojas e comprar botons, camisetas, xícaras, adesivos. Os brindes eleitorais são permitidos, inclusive são vendidos no dia da eleição. No dia da eleição, pode fazer boca de urna e tem material dos candidatos na frente dos colégios eleitorais para vender. As grandes mobilizações são feitas com comícios, internet, redes sociais e também rádios e TVs. Lá, não existe horário eleitoral gratuito e os comercias podem ser comprados pelo partidos e são reproduzidos inclusive no dia da eleição.

Notisul – Você trocaria o Brasil pelos Estados Unidos? O que mais te desperta o interesse por lá?
Laércio
– Não trocaria porque sou apaixonado por Tubarão e também porque meu inglês é muito ruim (risos). Acredito que a democracia americana é mais consolidada, até pelo maior tempo que praticam, com o voto facultativo e o plebiscito nos estados. O Brasil precisa de uma reforma política urgente. O congresso nacional começou a se movimentar e espero que tenhamos novidades em breve. Tem muito partido que existe apenas para negociar tempo de TV e rádio em época de eleição. Temos que dar um basta nisso. Um canadense que também estava no curso me disse que os impostos que eles pagam no país dele são tão caros quanto aqui, porém, eles têm saúde, educação, segurança de qualidade. Isso não acontece no Brasil. A concentração dos recursos no governo federal e as péssimas condições de trabalho e salário dos professores, profissionais da saúde e segurança contribuem para o agravamento do quadro. E a corrupção no país tem que ser combatida de forma enérgica, mas sem demagogia barata.

Notisul – Existe uma fórmula pronta para a vitória de um candidato?
Laércio
– Se existisse uma fórmula pronta para a vitória de um candidato, todos usariam e a eleição terminaria empatada (risos). Existem técnica e conhecimento acumulado de outras eleições. Cada campanha gera suas perguntas e cabe ao candidato e à coordenação buscarem as respostas certas. A pessoa que trabalha com marketing político e vai para a campanha dizendo que garante a vitória do candidato mente. Ele pode aumentar a popularidade e o prestígio, dar volume à campanha. Todavia, isso é diferente de garantir o resultado. Se fizermos uma pesquisa qualitativa de grande alcance e com um questionário bem elaborado, se consegue perceber isso. Um dos temas que mais tenho estudado é a análise de pesquisas qualitativas. E, neste particular, cada cidade pede um perfil de candidato que, acima de tudo, seja verdadeiro, para que desperte a confiança do eleitor. O eleitor percebe quando o candidato está sendo maquiado. O voto gera uma ligação verdadeira, emocional e racional, do candidato com o eleitor. Costumo brincar com os amigos em Florianópolis que a campanha deve ter os três ‘Ts’: tema, que é o projeto administrativo bem definido; time, um partido forte e apoiando, com uma grande e qualitativa nominata na proporcional e uma boa equipe de coordenação e uma forte coligação; e tempo de TV e rádio, que tem importância destacada. No Brasil, o investimento em material impresso e comícios diminuiu muito. Em compensação, o número de profissionais para TV e rádio aumentou.

Notisul – Como consultor, como você avalia o cenário político em Santa Catarina?
Laércio
– As eleições municipais de 2012 em Santa Catarina ocorreram pela primeira vez sem um claro viés ideológico e sem polarização entre oposição e os governos, federal ou estadual. Todos os grandes partidos eram a favor. Em Santa Catarina, salvo raras exceções, as disputas ocorreram em função das conveniências municipais, sem levar em consideração os aspectos ideológicos e as rivalidades partidárias do passado. As composições partidárias e o resultado eleitoral deixaram clara esta situação: todos os partidos coligaram entre si, impedindo qualquer análise baseada no conceito de um partido “vencedor” ou “perdedor”.

Notisul – E em Tubarão e na região?
Laércio
– Em Tubarão, penso que foi uma eleição atípica, onde o Olavio Falchetti e o PT conseguiram convencer a sociedade de que eram a verdadeira mudança. O futuro prefeito terá vários desafios e, como tubaronenses, temos todos que torcer e ajudar a cidade. Na região, um dado interessante foi a dificuldade dos prefeitos se reelegerem e também de fazerem o sucessor. Houve uma onda de mudança que varreu a Amurel. Dos 18 municípios, em 12 o prefeito eleito representava a mudança. Apenas dois prefeitos conseguiram se reeleger – Armazém e Pedras Grandes – e três conseguiram fazer os seus sucessores – Sangão, Treze de Maio e Imbituba. O quadro se completa com Pescaria Brava, onde foi disputada a primeira eleição.

Notisul – Como você ingressou na vida política?
Laércio
– Desde 2000, sou filiado ao PP. Desde então, me dedico a trabalho em assessoria, focado em consultoria política e eleitoral. Em campanhas, já passei de coordenação de juventude e movimento estudantil na Unisul até a coordenação geral de campanha de deputado estadual e federal. Em 2004, supervisionei a coordenação de 11 candidaturas a prefeito na região da Amurel, sendo dez delas vitoriosas. Se somarmos a eleição municipal deste ano, ajudei a montar mais de 70 campanhas de vereadores e o planejamento estratégico para a campanha de 20 prefeitos eleitos. Com esta viagem aos Estados Unidos, completei 37 cursos e seminários, todos focados em estatística, planejamento estratégico e operacionalização de campanhas eleitorais, pesquisas, marketing político e eleitoral.

Notisul – E nunca passou pela sua cabeça ser candidato também?
Laércio
– Em algumas oportunidades, já até ensaiei uma candidatura para vereador em Tubarão. Na eleição de 2012, me coloquei à disposição do partido para disputar e ajudar na nominata, visto que muitas lideranças saíram do partido e passávamos, naquele momento, por uma reconstrução da sigla. Houve um entendimento entre as principais lideranças de que eu somaria mais fazendo supervisão e coordenação de campanha em todo o sul do estado.

Notisul – E quais os seus planos para os próximos anos?
Laércio
– Estou focado neste momento na assessoria política do deputado Joares Ponticelli. É um trabalho bastante árduo, visto que atendemos todos os municípios do estado. Me orgulho de estar participando deste mandato. Até 2014, participarei da equipe que cuidará da campanha dele para governador, vice, senador ou deputado federal. Quero aproveitar a oportunidade para agradecer muito o presidente da Abcop, professor Carlos Manhanelli, pelo convite para este seminário. Agradeço muito minha família pelo apoio em minha atividade. Trabalhar com política faz com que você muitas vezes se ausente do lar. Aproveito para agradecer as diversas manifestações de carinho e apoio que recebi de meus amigos. Graças a Deus, aprendi muito cedo na vida que devemos multiplicar amigos e respeitar as pessoas. Quando conheço uma pessoa, percebo que em alguma coisa ela é melhor do que eu. E assim eu aprendo com ela.

"O presidente Obama é um símbolo nos Estados Unidos. É uma referência para aqueles que querem vencer na vida. Escutei um depoimento emocionado de um jovem negro, de 19 anos, na frente da Casa Branca no dia da eleição. Publiquei no Facebook no dia, mas ainda é válido o que ele me falou: “Senhor, quando vejo Obama vencendo para presidente sinto que eu vou vencer também na vida. Obama é um símbolo. Você está na terra das oportunidades, senhor. Aqui o sol nasce para todos, senhor. Obama é a prova viva disso!!! Sou pobre, de origem humilde e irei vencer!”. Eu me emocionei."

"Os cinco maiores partidos – PMDB, PSD, PP, PT e PSDB – saíram da eleição como entraram. Não houve ganhos ou perdas que produzissem mudanças no peso eleitoral de cada legenda no estado."

"Me chamou a atenção os VTs de televisão, muito bem produzidos e sempre com um tom de humor da terra do ‘tio Sam’."

"As redes sociais também foram determinantes nas eleições de outubro. Ninguém duvida da boa intenção do prefeito eleito de Tubarão, mas o grande questionamento é se ele irá transformar a sua vontade em ações concretas para o nosso município."

Laércio por Laércio

Deus – Força inspiradora, alguém a quem devemos agradecer todos os dias.
Família – É a base de tudo, agradeço todos os dias pela minha.
Trabalho – Minha paixão. O homem que faz aquilo que gosta é um homem feliz.
Passado – Olhar pelo retrovisor é importante para aprender com os erros.
Presente – Deve ser vivido intensamente.
Futuro – Quem planeja tem futuro, quem não planeja tem destino.