Tatiana Dornelles
Tubarão

Notisul – Como as pessoas o conhecem?
Jesualdo da Silva
– Muita gente me conhece pelo nome de registro. A gente não apaga essa história de vida. Seria hipocrisia fazer isso. Meu nome é Jesualdo da Silva. Hoje, por uma questão de conhecimento, de relação, muitos me conhecem por Gabriela. Na verdade, temos um nome social, pelo qual nos construímos.

Notisul – Por que Gabriela?
Jesualdo
– O nome vem do livro de Jorge Amado e apaixonei-me pela personagem. Ela tem tudo a ver comigo, pela ousadia, pela irreverência, pela forma de ver o mundo, de lutar por aquilo que quer. Identifiquei-me com o nome e hoje muita gente não me conhece por Jesualdo, mas por Gabriela ou Gabi. Este é meu nome social, que tem a ver com a identidade de gênero. Por exemplo: se você perguntar ao Lula, ele vai dizer que não gosta de ser chamado de Luiz Inácio. Muitos não o conhecem assim. As pessoas não entendem. Não é por ser transsexual ou travesti. É uma questão de identidade. Você identifica-se com aquilo e é melhor para você.

Notisul – E quanto à sua história?
Jesualdo
– Tenho uma história de vida e luta que foi se construindo na universidade. Participei do movimento estudantil, de toda uma história na faculdade. Também já sofri todos os preconceitos que você possa imaginar nessa cidade. Acredito que, futuramente, aparecerei em algum livro. Abri a fronteira para muitos outros (travestis e transsexuais) que vêm por aí.

Notisul – Valeu a pena?
Jesualdo
– Valeu! Sempre digo para todas as pessoas que não nasci só por nascer. Mas para fazer a diferença. Acredito nisso e hoje prego isso veemente: que nasci para fazer a diferença. Hoje, os transsexuais e travestis que chegam têm um espaço construído. São alguns pilares construídos com minha luta.

Notisul – Todas as pessoas conhecem o movimento, a luta e os direitos dos homossexuais, bi ou lésbicas?
Jesualdo
– Acredito que não. Falta muito para as pessoas entenderem. Não basta apenas ser homossexual, lésbica, travesti, bissexual. A gente tem que ser mais que isso. Tem que ser ativista, acreditar na causa, lutar.

Notisul – É preciso lutar tanto?
Jesualdo
– Sim, porque somos minoria. Viemos de uma construção de mundo heterossexual, heteronormativo, ditado pelo homem cristão, branco e europeu. E a gente desmistifica tudo e traz uma nova realidade: a diversidade. Hoje, se você não se abrir para isso, infelizmente, estará um passo atrás da humanidade. O problema que ainda ocorre é que não ganhamos espaço, enquanto travestis e transsexuais, porque a sociedade não admite, não consegue entender. Cada mulher é uma mulher diferente. Cada homem é um homem diferente. Então, cada gay é um gay diferente, cada travesti é uma travesti diferente, cada transsexual é uma transsexual diferente.

Notisul – E isso é bem definido dentro do movimento?
Jesualdo
– No movimento dos transsexuais, do qual também participo, existe uma divisão. Há aqueles que não se consideram transsexuais, dizem que são mulheres e ponto final. E tem o outro lado, que admite que é mulher transsexual. Não biológica.

Notisul – Como surgiu o movimento GLBTT?
Jesualdo
– Em nível de Brasil, o movimento em defesa dos direitos dos homossexuais é novo. Na verdade, surge com o advento da Aids, quando os gays foram rotulados de ‘peste gay’. Os homossexuais revoltaram-se com a nomenclatura, com essa sigla, com esse estigma, e passaram a reivindicar mais direitos. E a trabalhar na questão da prevenção. O movimento em defesa dos direitos de gays, lésbicas, travestis, transsexuais surge com a questão da prevenção. Hoje, chegamos a tal patamar que o Brasil sediará, nos dias 5, 6, 7 e 8 de junho, a 1ª Conferência de Políticas e Direitos voltados para a população GLBTT.

Notisul – Por que uma política voltada para esse segmento?
Jesualdo
– Porque é necessário, porque as pessoas não conhecem. Muita gente acredita que todo mundo se encaixa no mesmo padrão. E não é bem assim. Não ocorre desse jeito. A sociedade é múltipla. Ainda barramos com muito preconceito, tem que romper com muitas falas. Recentemente, a questão do caso que envolveu Ronaldo e repercutiu na mídia foi muito negativa. Colocou todos os transsexuais e travestis como se fossem do mesmo tipo, da mesma categoria. Na verdade, o que houve foi algo que ocorre cotidianamente. Os homens vão procurar. Não é só por uma questão de fantasia, de procurar o sexo por sexo.

Notisul – E quanto à associação?
Jesualdo
– Quando apresentamos a associação em algumas entidades, em alguns meios, sentimos restrição, falta de entendimento. Mas nosso papel é o de levar essa discussão no grande grupo. Temos agora a discussão da homoafetividade. Muita gente não conhece. São as pessoas que têm relacionamento e vontade de adotar filhos. Já há casos de vários casais que ganham filhos. E há quem se pergunte como dois homens ou duas mulheres, ou um transsexual e um homem, criarão um filho. Aí, pergunto: como o caso da menina Isabella explica os pais? Se pai e mãe é aquilo que a gente tem, então a sociedade está errada. Pai é aquele que educa, que dá valor, não importa se é homem ou mulher.

Notisul – O que é transsexual, travesti? Por que tantas definições?
Jesualdo
– É importante dar nomes para as pessoas poderem identificar, classificar, entender, compreender as suas especificidades. O que queremos é que cada segmento dentro do movimento trabalhe as suas especificidades.

Notisul – Quais são as diferenças entre transsexual e travesti?
Jesualdo
– Um transsexual tem identidade feminina, percebe-se, e age como mulher, mas não usa o órgão biológico para ter relação afetiva. Já o travesti, não se preocupa com isso: tem identidade feminina, também se imagina como mulher, só que não tem problemas com a genitália. A diferença é essa, porque, se você olhar os dois, achará que não tem distinção.

Notisul – E todos os transsexuais querem fazer cirurgia para mudar de sexo?
Jesualdo
– Necessariamente, não, até porque conhecem o procedimento e têm medo de realizá-lo. É complicado. Além disso, o SUS, a partir deste ano, cadastra os transsexuais que queiram fazer cirurgia para readequação do sexo.

Notisul – Quais as diferenças entre gay e bissexual?
Jesualdo
– Tem. Os bissexuais têm relações com o sexo oposto como com pessoas do mesmo sexo. E isso, para eles, é normal. Aí, muitas pessoas dirão que isso é loucura. Mas o que é ser louco? Se você nasce hetero, e tem convicção disso, não terá problema com a outra pessoa. Você sabe do que gosta. Agora, só se preocupa com o sexo do outro ou com a orientação sexual do outro quem tem a sua orientação sexual balançada. Se a pessoa é bem resolvida, conviverá de igual para igual. O bissexual tem essa nuance, lida com a passagem de uma relação para outra. Já o homossexual, o gay, tem relação com pessoas do mesmo sexo, mas que também se entendem como gays. Querem pessoas que tenham a mesma identidade de gênero que eles: masculina, mas com orientação sexual homossexual.

Notisul – E as drags queens?
Jesualdo
– As drags, ou transformistas, são um espetáculo. E na grande maioria homossexuais. São meninos, que se trajam como homens durante o dia, mas adoram fazer shows com roupas femininas. Aí é mais para eventos, festas GLBTT, feiras de eventos. São artistas mesmo.

Notisul – E quanto aos programas de TV, que muitas vezes os taxam?
Jesualdo
– As pessoas não podem ficar nos tachando, como ocorre nos programas de TV. Não é o que vivenciamos. A gente vivencia outras questões, como violência, morte de homossexual, homofobia, aversão. Tem quem passe por nós e olhe como se fôssemos ETs. Temos que combater isso. Quantas de nós não fomos esculachadas depois do Caso Ronaldinho? Somos a escória da sociedade porque todo mundo pensa assim. Mas é importante que as pessoas percebam que pagamos contas, temos família, que não somos desprovidas de direitos e deveres. Isso também é cidadania.