sexta-feira, 21 junho , 2024
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Daniel De Luca

Esse é um importante aviso de utilidade pública: não vá para as Termas

Mas calma. Não estou falando das Termas do Gravatal; são outras termas. Você já vai entender.

Antes, pense um pouco sobre os momentos de pressão que você vive (ou já experimentou). Sabe quando tudo perde sentido? Quando as verdades não são mais tão verdadeiras? Quando trocamos a expressão “claro que é” por “será” em nosso vocabulário? Interessante como o ser humano é avesso à dor. Choramos desde pequenos quando a dor chega. De fato, ela é benéfica quando entendemos seu papel como um sinal de alerta de que algo não vai bem. Mas via de regra, encaramos a dor pelo seu lado negativo.

Vivemos hoje dias um tanto quanto imediatistas, se é que podemos definir assim. Não temos paciência com filas, senhas, engarrafamentos e outras coisas que muitas vezes nos tiram do sério. Aliado a isso, as peças publicitárias (independente do tipo de produto anunciado) prometem entregar satisfação “aqui e agora”.

O resultado?
Uma geração que não suporta a dor. São homens e mulheres errantes em suas emoções, ao sabor das circunstâncias. O reflexo vemos no alto número de divórcios, crianças abandonadas, indiferença com próximo. E a falta de um firme fundamento, de uma âncora na alma em momentos de pressão pode fazer nosso “barco da vida” naufragar.

São momentos assim que perdemos o rumo da vida.
Isso aconteceu com dois discípulos de Jesus. A história deles está descrita no Evangelho de Lucas, capítulo 24. Os acontecimentos repentinos de Jerusalém ainda ecoavam em suas mentes.

A esperança messiânica desaparecera. O texto diz que eles estavam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, partindo de Jerusalém. Algumas semanas antes, eram dois amigos que seguiam de perto os ensinamentos de Jesus. No entanto, o Mestre havia morrido e nada mais restava, a não ser “colocar o pé na estrada”.

Quantos de nós, de tempos em tempos, temos essa mesma vontade? Deixar tudo para trás, recomeçar. Como diz um personagem da minha saga predileta (Star Wars), Kylo Ren em certa ocasião afirma: “deixe o passado morrer”.

Como fruto da esperança agora sepultada no Calvário, eles partem da cidade de Jerusalém (do hebraico “Cidade da Paz”) e rumam a Emaús (que significa “fonte das águas termais”). Há um simbolismo significante aqui: de certo modo, aqueles dois trocaram a verdadeira Fonte de Águas Vivas (Jo 7.37) por uma fonte qualquer.

Quantas vezes fazemos a mesma coisa? A promessa não se cumpre, os sonhos não se realizam, o desânimo vem. E lá vamos nós, deixando Jerusalém para trás e indo saciar a “sede da alma” com qualquer outra coisa.

Em certo trecho da estrada, alguém se aproxima e começa a caminhar com eles. Era Jesus, mas eles não O reconheceram. A tristeza faz isso conosco: perdemos a capacidade de discernir a companhia do Mestre ao nosso lado.

Jesus então pede a razão de tanta tristeza, e eles narram melancolicamente sobre as últimas notícias da Cidade Santa. Jesus então mostra, a partir das Escrituras, como o Messias deveria sofrer pelos pecados, afastar a ira de Deus sobre os eleitos e então ressuscitar ao terceiro dia.

Vale a pena ressaltar este ponto: a fé verdadeira é confirmada não com sinais, milagres ou feitos extraordinários; mas o homem é conduzido a Jesus apenas pela Palavra de Deus. Não há atalhos, desvios ou caminhos alternativos.

Só então aqueles homens percebem quem estava caminhando com eles: o próprio Senhor ressurreto.

O que Jesus fez com eles, Ele ainda faz nos dias de hoje. Ele vai de encontro ao coração cansado e traz o sopro de vida. Aliás, Jesus está mais perto dos que tem dúvidas e medo do que dos confiantes e autossuficientes. Afinal de contas, Ele veio buscar gente perdida, como eu e você.

Sim – Jesus me desiludiu

Isso mesmo, nobre leitor. Jesus me desiludiu.

Como assim? Jesus trazendo desilusão?

Permita-me, nessas poucas linhas, explicar melhor isso. Não foi da ‘noite para o dia’, mas um processo. Com o passar dos anos, pude perceber isso mais claramente. E já adiantando, não foram poucas as desilusões, foram inúmeras.

Tudo começa a partir da cosmovisão.

Todo ser humano possui, de algum modo, uma cosmovisão. De modo simples, cosmovisão trata basicamente da maneira como ‘lemos’ o mundo ao nosso redor. Por exemplo, você está no trabalho e certo dia um novo funcionário é contratado. Vocês trocam apenas algumas palavras, mas sai com a impressão de que tal pessoa é retraída demais, quem tem algo de estranho nela.

Então, talvez mais alguém tenha a mesma sensação – confirmando a sua opinião. Aí você lembra de que alguém lhe disse para não confiar em ‘gente quieta demais’.

Pronto.

Sua visão do novo funcionário irá determinar tudo o que aquela pessoa fizer ou deixar de fazer. Você talvez mantenha distância dela, excluindo-a de um certo modo, até então descobrir (lembre-se de que estamos apenas no campo das hipóteses), que na semana de sua contratação ela havia descoberto um diagnóstico médico preocupante, ou que alguém de sua família está gravemente enfermo. Ou seja, sua aparente timidez nada mais era que um fruto de sua luta para manter-se de pé.

E aí, sua visão a respeito do novo funcionário mudaria?

Isso é cosmovisão. Eu, você e todos possuímos alguma cosmovisão. Ela é como uma espécie de ‘óculos’ de leitura, usado para ajustar a visão, determinando suas ações, pensamentos e reações diante de qualquer fato da vida.

Se uma cosmovisão está comprometida, tudo o mais também estará. Facilmente o ser humano é enganado e vive numa ilusão, que não condiz com a total realidade. Há os que têm mania de perseguição, os que perseguem, os desconfiados, os inocentes… todos com sua própria visão de mundo. Mas basicamente, tendemos a achar que o mundo gira ao nosso redor, esquecendo que somos os ‘outros’ dos ‘outros’.

Como diz o ditado, “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Ilusão seria, então, uma espécie de cosmovisão falsa. Segundo a Wikipédia, ilusão é “…uma confusão dos sentidos que provoca uma distorção da percepção […] Uma vez que a percepção é baseada na interpretação dos sentidos, as pessoas podem experimentar ilusões de formas diferentes“.

Você já foi iludido? Sofreu alguma decepção por acreditar em algo e depois descobrir a verdade?
Esse é o ponto. Em maior ou menor grau, todos vivem sua própria ilusão da realidade. Seja ela política, sociológica, cultural. Isso ainda é reforçado pela época relativista em que vivemos, onde cada um afirma possuir a verdade.

Como cristãos, temos como lastro da realidade as Sagradas Escrituras, e a partir dela podemos, de fato, ler o mundo. E o Evangelho faz isso: nos des-ilude. Ele retira a ilusão do homem como centro de tudo, do homem autossuficiente, do homem eterno, do homem empoderado em pensamos positivos que não levam a lugar algum.

E foi aqui que Jesus me desiludiu; ou melhor, me des-iludiu. Ele tem retirado dia após dia as mentiras que um dia considerei como verdade. Com Jesus descobrimos que não somos o centro, Ele é. Com Jesus aprendemos que repartir é melhor do que receber, que mais vale preservar a alma que ganhar o mundo, que os últimos serão os primeiros, que o valor não está no que se tem, mas no que se é. Que vida real não é a das capas de revistas, mas é partilhada na íntima comunhão do lar. Que a melhor vida é a vida simples.

Enfim – com Jesus aprendemos que a morte não é o fim.

“disse-lhe Jesus: aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11.25).

De Camões à Laodiceia

O que faz com que uma paixão termine?

Quem não se lembra dos primeiros dias quando conheceu o seu cônjuge? Quando o pulsar do coração batia no compasso do “amor”? Não havia dias frios, quentes ou qualquer intempérie que fosse obstáculo para o momento mágico do encontro dos olhares, do toque nas mãos…como já se constatou por aí, quando estamos apaixonados tudo o mais perde importância. Dormir tarde, acordar cedo e outras atividades do cotidiano ficam pequenas frente à avalanche de emoções que inundam o coração.

Como diria Luis de Camões, amor é fogo que arde sem se ver. Entretanto, é fato certo que este sentimento apaixonado vai aos poucos se esvaindo. A emoção do reencontro se perde à medida que os dias vão passando, e a realidade torna-se mais evidente do que a ilusão que a paixão proporciona.

Até aqui falamos basicamente do relacionamento entre um homem e uma mulher. Porém, em nossa vida espiritual, pode-se experimentar o mesmo sentimento? Podemos amar a Deus e depois deixar de amar?

O texto de Apocalipse 3.14-20 narra as palavras de Jesus dirigidas à igreja de Laodiceia, quando alerta sobre o esfriamento do amor. Os membros daquela igreja foram descritos como “mornos”. O que havia acontecido? O texto nos dá algumas pistas:

“Conheço as tuas obras…” (v.15) – este é o ponto de partida usado por Jesus para se dirigir aos membros da Igreja. Havia algum problema em suas atitudes. Pode-se fazer aqui uma menção ao conceito hebraico de caminho (dérech), profundamente relacionado ao comportamento (cf Sl 1), que é diferente ao pensamento grego que valoriza o discurso em detrimento das ações (vide os sofistas). No versículo seguinte encontramos o motivo da apatia espiritual – acompanhe:

“…E ainda dizes: ‘Estou rico, conquistei muitas riquezas e não preciso de mais nada”. (v.17)
Autossuficiência. Egoísmo. Nada diferente da cultura hedonista em que vivemos, onde o valor do indivíduo está relacionado ao que possui, e não ao que é. Basta uma passada rápida nos programas de TV populares e lá encontramos “celebridades” que não são referência de nada opinando sobre todo e qualquer assunto. De qualquer modo, a Igreja de Laodiceia se achava mais do que suficiente, a ponto de não olhar mais para Deus e dEle esperar qualquer coisa…sutil, não? Aliás, desde que o diabo ofereceu a prosperidade a Jesus em troca de adoração, esta deixou de ser um sinal de aprovação divina.

A apatia originou-se de uma falsa fartura, que criou um sentimento do tipo “não preciso mais de Deus”.

Este é um processo que inicia com um pequeno desvio de foco: o Senhor deixa de ser o centro para dar lugar ao ventre humano. Isso trouxe uma mudança de valores. Eles se achavam ricos, mas diante do Senhor eram pobres e miseráveis.

“…E, por este motivo, porque és morto, não és frio nem quente, estou a ponto de vomitar-te da minha boca…” Ap 3.16
Tanto a água gelada quanto a quente possuem suas finalidades (refrescantes, terapêuticas, etc.), porém a água morna para nada serve…o sentido aqui é de ser uma vida útil para o Reino. A apatia gerara a falta de frutos, e a falta de frutos os faria serem vomitados por Deus. Uma ação divina resultante do julgamento da esterilidade.

Qual seria, portanto, o ponto de virada? O próprio Jesus aponta no versículo 18: arrependimento. Que a igreja se tornasse novamente cristocêntrica. Que a vida orbitasse novamente ao redor de Jesus. O mesmo chamado ouvido na ocasião da ceia com os discípulos, da refeição na praia com o desconfiado Pedro, ou ainda do peregrino Abraão ao receber em sua tenda o Senhor – íntima comunhão.

Desfrute disso! Seu amor nunca falha. Ouça Seu chamado e sente-se à mesa do Senhor. Do que você precisa se arrepender hoje?

Sobre Segundas Chances

Não existem muitas segundas chances por aí. No mundo atual, impera a necessidade do ‘hoje’ e ‘agora’, característicos da geração fast-food. Vivemos num mundo sem paciência, sem espaço para os segundo lugares.

Você já se sentiu descartável? Talvez quando foi deixado de lado na escolha de uma equipe, ou quando trocado por alguém mais novo, mais forte, mais rápido…as circunstâncias variam, mas o sentimento não. São aqueles momentos em que nossa esperança parece se esvair pelos dedos.

O que fazer? Existe a possibilidade de recomeçar? As Escrituras nos asseguram: “…eis que faço novas todas as coisas…”  (Ap 21.5)

Isso não é reconfortante? Saber que nossos fracassos não são fatais?

Um dos apóstolos de Jesus, Pedro, sabe bem o que é ter uma segunda chance. Seu temperamento impetuoso o tornou um dos principais apóstolos, fazendo parte do círculo íntimo de Cristo. Momentos antes de sua prisão, Jesus revela a seus discípulos que eles iriam abandoná-lo.

E quem toma a palavra? Pedro, quando afirma: “mesmo que todos te abandonem, eu nunca te deixarei” (Mc 14.28).

Os acontecimentos então se desenrolam de uma forma dramática. Por três vezes as pessoas ali presentes apontam para Pedro, dizendo que ele era um dos discípulos. E em todas elas, Pedro nega a afirmação, chegando mesmo a amaldiçoar-se. Finalmente, o olhar de Pedro cruza com o de Jesus, e ele cai em si, quando então ele “chora amargamente”. O texto grego aqui usa a expressão pikros (πικρως ) que traz a ideia de uma dor aguda, dura e fatal. O que você sentiria no lugar de Pedro? Talvez você não se veja desta forma, mas quantas vezes fracassamos naquilo que garganteamos como vitória? Como Pedro, batemos no peito e dizemos: “pode deixar comigo.

Eu nunca vou fazer isso…ou voltar àquele lugar…ou falhar com você novamente…foi a última vez…”. Os discursos são os mais variados, porém a tônica é a mesma. Somos confrontados com nossas próprias palavras, e a realidade às vezes é dura demais.

Tão dura que nos faz querer voltar atrás…desistir de tudo e aceitar o fracasso. É interessante analisar as derrotas que sofremos. Somos derrotados pelo tempo, por pessoas, situações…mas a pior de todas é quando o inimigo somos nós. Aqui a força de muitos desaba, e com Pedro foi assim.

Lembra-se do que Pedro fazia antes de seguir a Jesus? Ela era pescador…e após todos estes acontecimentos, onde o encontramos? Veja:

“Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, Natanael …e Simão Pedro disse-lhes: vou pescar. E eles o encorajaram: nós vamos contigo também, e saíram…” (Jo 21.2-3)

Pedro volta a pescar. Obviamente não há mal algum nisso, mas é interessante como Pedro age após o fracasso: volta à antiga vida. Tenha em mente que Jesus já havia ressuscitado e aparecido a eles, mas de algum modo, isso parece não motivar a Pedro a continuar como um dos doze.

Então a intervenção divina acontece. Enquanto pescavam, Jesus aparece na praia. Logo Pedro o reconhece, vai até Ele e numa conversa cheia de significado é restaurado por Jesus. O fracasso ficara para trás, e agora temos um Pedro, renovado, recebendo novamente o mesmo convite que recebera há três anos: “segue-me” (Jo 21.19).

Uma segunda chance.

Não é todo dia que você ganha uma segunda chance, e Pedro sabia disso. Quando soube que era Jesus, mergulhou nas águas frias do Tiberíades e não apenas nadou até a praia, onde Jesus estava, mas entregou-se de tal maneira que marchou valentemente até Roma, pregando o Evangelho e morrendo crucificado de cabeça para baixo, pois não se achava digno de morrer como o Mestre.

Não é todo dia que você encontra alguém que lhe dê uma segunda chance. Muito menos alguém que faça isso todos os dias…mas em Cristo encontramos ambas as pessoas.

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