Amanda Menger
Tubarão

Ao atender o interfone, às 6h45min de segunda-feira, o gerente regional da Fatma em Tubarão, Cidinei Galvani, não imaginava que passaria as próximas 55 horas preso. Ele e outras quatro pessoas foram detidas durante a Operação Gaia, da Polícia Civil de Tubarão e Ministério Público, que investiga fraudes em laudos periciais usados para o licenciamento ambiental de postos de combustíveis em Tubarão. Como o Notisul divulgou com exclusividade ontem, ele foi liberado quarta-feira, pelo delegado Marcos Ghizoni. Os demais, ontem.

Cidinei foi levado pelos investigadores para Florianópolis. “Fiquei no Centro de Informações do Ministério Público para prestar depoimento. Depois, fui literalmente jogado no Centro de Triagem de Florianópolis, o Cadeião do Estreito. Foi horrível. Fui tratado como um marginal”, relata o gerente.
No Cadeião, Cidinei dividiu uma cela com outro homem detido na Operação Gaia. “Eu não o conhecia, ele é funcionário da empresa que emitia os laudos falsos. Conversamos um pouco e rezamos. Tive que ficar sem os sapatos e sem o casaco porque tinha forro. Minha esposa foi mal atendida quando foi levar cobertor e lençol”, conta Cidinei.

A terça-feira foi de expectativa. “Fiquei o dia inteiro esperando que me chamassem para algum depoimento, acareação, e nada. Só saí para falar com a minha advogada, que entrou com habeas corpus, mas ele nem chegou a ser analisado, porque o delegado resolveu me liberar. Minha prisão não tinha sentido, era só para colher o depoimento”, afirma o gerente.
As horas de constrangimento tiveram fim por volta das 14 horas de quarta-feira, quando Cidinei soube que seria liberado. “Fui levado para o MP, mas não conversei com ninguém. Logo em seguida, reencontrei a minha família e vim para Tubarão”, diz.

Gerente garante que não houve omissão

Com a suspeita de omissão, ou seja, saber dos fatos e não tomar providências, o gerente regional da Fatma em Tubarão, Cidinei Galvani, foi detido temporariamente pela Polícia Civil de Tubarão, durante a Operação Gaia, segunda-feira.
“Acredito que não precisava ter sido preso para dar este depoimento. Eu enviei um ofício ao delegado me dispondo a colaborar com as investigações. Eu não fui omisso. O questionamento deles era por que não pedi em um documento os laudos originais, mas para mim isso estava claro, já que estes laudos tinham sido pedidos antes”, argumenta Cidinei.

Segundo Cidinei, uma técnica da Fatma desconfiou de dois laudos porque havia dados muito diferentes entre si. “Pedimos um terceiro laudo e solicitamos que os originais dos dois anteriores fossem anexados ao processo. O dono do posto me procurou e pediu um prazo maior. Concedi 90 dias, contudo, não citei no documento que precisava dos originais, porque o ofício anterior já os pedia. A empresa não cumpriu os prazos e não entregou os originais, só que nós não cobramos essas datas. Temos muitos processos para cuidar e o sistema não é informatizado. Temos dificuldade de acompanhar tudo”, lamenta Cidinei.
O gerente diz estar tranquilo e continuará à frente do órgão. “Estou tranquilo, tudo que fiz está dentro dos procedimentos do órgão. Por enquanto, continuo como gerente regional, não recebi nenhuma comunicação em contrário”, afirma Cidinei.

Entenda o caso

• No ano passado, o Ministério Público recebeu uma denuncia anônima e solicitou que a Polícia Civil instaurasse um inquérito. Foram encontrados 200 laudos supostamente falsos emitidos por uma empresa de assessoria ambiental de São José, para postos de combustíveis da região, e 22 deles em Tubarão. Os laudos são utilizados nos processos de licenciamento ambiental para o funcionamento de postos.
• Após a constatação de que os laudos eram falsos, o MP solicitou um novo laudo, feito pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (Furb). As amostras foram coletadas nos poços de monitoramento instalados nos postos de combustíveis entre 29 de maio e 5 de junho.

• No início do mês, seis postos foram interditados pela Fatma. Três postos voltaram a funcionar com mandados de segurança.
• O principal problema constatado pelas análises feitas pela Furb é a contaminação do solo com produtos químicos, entre eles, o benzeno. A legislação prevê até 15 microgramas por litro de água analisada, mas em algumas amostras havia mais de 11 mil microgramas de benzeno por litro de água. Dependendo da concentração e do tempo de exposição, pode causar câncer, má formação em fetos e má formação em células.